sexta-feira, 14 de abril de 2017

Assembleias de Deus - feudalismo e nobreza

Em 1994, o sociólogo Paul Freston escreveu que as Assembleias de Deus possuía um sistema de governo "oligárquico e caudilhesco". Observou a concentração de poder na "complexa teia de redes compostas de igrejas-mães e igrejas e congregações dependentes". Seria, segundo ele, um "sistema de feudos", cujo propósito era conservar o poder e a expansão do ministérios.

Há evidentemente, outras tentativas e formas de explicar as ADs. Mas a comparação com o sistema de feudos, talvez seja uma das mais adequadas. As ADs atualmente, em suas práticas litúrgicas e honras ministeriais, em nada fica a dever à antiga forma de governo medieval.

Somente para relembrar: o feudalismo surgiu em parte da Europa (séculos V ao X), onde o poder se baseava na posse da terra também chamada de feudo. A sociedade era estamental, ou seja, cada classe social era fixa em suas atribuições e deveres. No entendimento da época, a nobreza, e tão somente ela, podia governar. O clero detinha o saber e a mediação diante de Deus. O povo (todo àquele que não era nobre ou não fazia parte do clero) possuía a obrigação de trabalhar e pagar impostos, pois viviam nas terras da nobreza. 

Antigos líderes das ADs: feudalismo eclesiástico

O poder era fragmentado, e a nobreza juntamente com o clero vivia em privilégios. Para conservar o poder, os nobres casavam-se entre si formando dinastias que se perpetuavam nos tronos. O povo, sem terras, tinha por obrigação acatar às ordens dos superiores dos que eram considerados "donos" do poder por direito divino.

Bem, não precisa ser expert para fazer as analogias. O pastor-presidente, hoje é um senhor feudal, mas com forte concentração de poder. A ascensão ministerial dos demais obreiros passa por seu crivo. É ele quem reconhece vocações ou relega ministros ao esquecimento. Isso explica tantas bajulações e honrarias, pois agradar o "anjo" da igreja é fundamental para viabilizar projetos e carreiras eclesiásticas.

É dentro desse contexto, que os aniversários de muitos pastores (ou das esposas), tornou-se um verdadeiro retrato da submissão feudal. No natalício dos líderes, os responsáveis pelos setores ou distritos devem recolher uma oferta com valores pré-determinados e entrega-lá ao seu presidente em sinal de gratidão e honra. São quantias expressivas, um tipo de tributação deixada aos pés do monarca.

Há ainda outra situação. Douglas Fidalgo registra em sua dissertação de mestrado "De Pai pra Filhos”, o pagamento de "pedágios" dentro de Madureira para que determinados obreiros possam assumir um campo de trabalho "lembrando práticas da vassalagem feudal". Mas seria só o Ministério dos Ferreiras a permitir tal prática?

Porém, a situação que mais lembra o feudalismo é a integração de famílias pastorais. Na época dos nobres, os casamentos arranjados era uma forma de preservar a herança ou a concentração de terras nas mãos de poucos. Atualmente, além do forte nepotismo, verifica-se o mesmo fenômeno dentro das ADs.

Pode-se argumentar que, sociologicamente, as relações matrimoniais são determinadas pela classe social na qual o sujeito está inserido. Contudo, o contexto de privilégios em que vivem muitos obreiros, faz com que tais práticas pareçam a consolidação de castas sacerdotais predestinadas ao poder. Um grupo seleto, intocável e sempre, mas sempre com alguma igreja para se servir.

Por conta dessa situação, há uma ironia que corre em São Paulo com um clã entronizado em uma AD. O patriarca é líder inconteste do ministério. O filho preside uma grande igreja na capital e o neto por sua vez lidera uma importante congregação na região. Ao saberem que o neto será pai, os irmãos já se perguntam qual campo estará reservado para a criança vindoura. Provavelmente não faltará jurisdição eclesiástica para o pequeno príncipe.

E o povo? Aos humildes é dada a tarefa de trabalhar nos departamentos e contribuir com suas ofertas e dízimos sem nada questionar. Pois essa é a vontade divina...

Fontes:

ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

CORREA, Marina Aparecida Oliveira dos Santos. Assembleia de Deus: Ministérios, carisma e exercício de poder. São Paulo: Fonte Editorial, 2013.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: a expansão das Assembleias de Deus no Brasil urbano (1946-1980) - Assis, 2015.

FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo. In: ANTONIAZZI, Alberto. Nem anjos nem demônios; interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.

FIDALGO, Douglas Alves. "De Pai pra Filhos”: poder, prestígio e dominação da figura do Pastor-presidente nas relações de sucessão dentro da “Assembleia de Deus Ministério de Madureira”. Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da UMESP. Orientador: Prof. Dr. Dario Paulo Barrera Rivera.

http://mariosergiohistoria.blogspot.com.br/2016/12/aniversario-de-pastor-criticas-de-joao.html

16 comentários:

  1. É lógico que isso é apenas um blog e não podemos exigir que o autor de um blog use linguagem das mais neutras e científicas. Porém o autor desse blog demonstrar ser uma pessoa bem má intencionada, que não perde a oportunidade de fazer trocadilhos insultuosos a dignidade dos membros e dos participantes das Assembleias de Deus!

    "o feudalismo surgiu em parte da Europa (séculos V ao X), onde o poder se baseava na posse da terra também chamada de feudo. A sociedade era estamental, ou seja, cada classe social era fixa em suas atribuições e deveres. No entendimento da época, a nobreza, e tão somente ela, podia governar. O clero detinha o saber e a mediação diante de Deus. O povo (todo àquele que não era nobre ou não fazia parte do clero) possuía a obrigação de trabalhar e pagar impostos, pois viviam nas terras da nobreza.
    ......
    O poder era fragmentado, e a nobreza juntamente com o clero vivia em privilégios. Para conservar o poder, os nobres casavam-se entre si formando dinastias que se perpetuavam nos tronos. O povo, sem terras, tinha por obrigação acatar às ordens dos superiores dos que eram considerados "donos" do poder por direito divino."

    Meu Deus! Você é um analfabeto em história medieval! Vá estudar! Como um cara que é analfabeto em história medieval e apresenta uma visão marxista sub-ginasiana dessa quer dar uma intelectual!




    Você deveria ser processado por charlatanismo intelectual, por se utilizar do seu diploma para demonstrar saber uma coisa que você não sabe



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    1. Bem meu irmão, não sou especialista em Idade Média. A linguagem do blog é para os leigos e não há pretensão de mostrar algo que não sei. O blog é citado por doutores nas ciências sociais como Maxwell Fajardo, Marina Correa, Claiton Pommerening, Douglas Fidalgo e Gedeon Alencar. Ou seja, nomes de peso na acadêmia. A intenção é dar um panorama breve de como se percebe a forma de governo das ADs.

      Abraços!

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    2. Mario, parabéns pelos seus textos!!! Nasci e cresci na AD, onde fiquei até os meus 36 anos. Meu pai foi obreiro em congregações da AD no interior do Maranhão e do Tocantins, além de congregações na capital Paulista. Com a minha própria experiência de vida, posso dizer que o que você afirma em seus textos é a pura realidade da AD.

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  2. Ótimo texto. Parabéns.

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  3. Meu Deus será que eu li outro texto ou o analfabeto funcional é o sr. Samuel Montrezzol? O texto do Mario Sergio de Santana é muito claro. O best-seller "História da riqueza do homem" de Leo Huberman demonstra exatamente o que o blogueiro falou. Processado deveria ser o senhor pela falta de argumentação. Sua argumentação é rasa. O que o sr. sabe de Marx? O que tem de Marx no texto? Ao que parece é um assembleiano recalcado e conformado com a dinastia Bezerra da Costa ou Ferreira. Vai estudar! Você é fraquinho para opinar no blog. Recolha-se a sua insignificância!

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  4. Com raros ajustes na postagem, mais especificamente, quanto ao casamento entre nobres, o restante é a pura realidade.

    Doa a quem doer!

    Marcus A. Barbosa
    (Ministro do Evangelho - CGADB)

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  5. Tristemente admito que é a mais pura verdade...

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  6. Sim, essa é a realidade!
    Como podem agir dessa forma? Com total manipulação e domínio das massas? É possível ser um pastor segundo o coração de Deus sem esses desvios que são legais e imorais.
    Lendo essa matéria me pergunto, se não é por esse motivo que perseguem tanto as igrejas em ou com células?
    Pois, lá a visão é do Reino de Deus e não do Reino dos homens.

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  7. Infelizmente é o que realmente acontece na IEAD Belém.

    Sou membro e obreio das Assembléias de Deus há 25 anos. Toda minha família pertence a esta denominação. Moro em um Estado dominado por "feudos" e "senhores feudais" das Assembléias de Deus. Aqui o presidente está a frente do trabalho estadual a pelo menos 40 anos. Seus filhos todos são pastores (sendo que o filho mais velho é vice-presidente e pastor da segunda maior igreja do estado) e seu neto é vereador na capital do estado. Aqui a igreja possui um patrimônio grandiosíssimo, templos luxuosos e muitos pastores vivem em uma bela mordomia. Se for pastor presidente de campo nas cidades do interior aí que a coisa é boa mesmo.
    Não tenho nada contra a minha amada Assembléia de Deus fundada pelos saudosos missionários Daniel Berg e Gunnar Vingren. Porém, a intenção de seus pioneiros não prevalece nos dias atuais. Os próprios fundadores, em certo momento da vida, entregaram a liderança da CGAD para os abutres vestidos de pastores.
    Enfim, aqui existe uma Assembléia de Deus em cada esquina de bairro. Só na capital (que não é uma metrópole como São Paulo ou Rio de Janeiro) possui mais de 200 igrejas abertas. É mais de 01 para cada bairro. Gerando um montante de dízimos e ofertas que é um absurdo! Sem falar das infindáveis campanhas de construção, aumento e reforma de templos. Evangelho que é bom ninguém se prega mais.
    Menos magnatas e mais evangelho!

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  8. Como faço para adquirir o livrosto de Freston

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  9. Infelizmente concordo com o texto. Esta é uma prática geral nas igrejas evangélicas. Esquecendo do principal que é o amor. Parabéns nobre colega, um historiador brilhante com quem tenho a honra de trabalhar.

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  10. Parabéns Mário Sergio Santana, sou licenciado em História e professor efetivo em uma cidade do interior. Essa realidade presencio desde a minha adolescência (12 anos hoje tenho 31). O pior essa concentração de poder só aumenta. O casamentos entre filhos de pastores é uma realidade no interior do Pará. Por esses dias aconteceu um evento grandioso na vila onde resido: Um casamento milionário entre a filha do pastor local que preside um campo pequeno, com o filho de uma pastor de uma campo rural, contudo muito próspero. Foi a maior e mais rica festa de casamento que já presenciei. Já fui em festa de casamento de amigos médicos, advogados e pessoas influentes. Mas igual a essa nunca tinha visto.

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  11. Izaldil Tavares de Castro7 de agosto de 2017 21:40

    Parece-me que o sr. Samuel Montrezzol serve a algum proprietário de feudo, ou não ficaria tão zangado. Eu sou bem assembleiano, e reconheço nossos erros. Não resmunguei, ajude, pense!

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  12. É tudo isso em nome Deus. Que Deus? Não o da Bíblia!

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  13. Parabéns Mário, pelo texto impoluto, impecável que desenha o quadro putrefato da visão administrativa de alguns senhores feudais dentro dessa organização centenária. Sou filho de pastor e resisti durante anos para não ser consagrado ao ministério, a despeito dessa certeza, sei que muitos usam as Assembleias de Deus para se perpetuar no poder eclesiástico. Controlam as finanças concentrando as entradas nas sedes e dividem o "bolo" com ganância e privilégios de super -stars. Sempre fui contra esse expediente porque meu pai sofreu demais no campo sem ajuda da sede que o deixou sofrendo no campo com a família. Relutei muitíssimo a chamada ministerial por saber dessas "verdades" escondidas.

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