sexta-feira, 28 de abril de 2017

Ministério do Belém – candidatos à sucessão

A década de 1970, seria decisiva para a Assembleia de Deus - Ministério do Belém (SP). Em 1973, o "timoneiro" Cícero Canuto de Lima faria 80 anos de idade e um clima de expectativa se formava em torno da sucessão.

José Wellington, comenta em sua biografia, que o pastor Joaquim Marcelino da Silva, na época influente líder das ADs em São Paulo, manifestou preocupações com à sucessão ao próprio Cícero. Mas o veterano desconversava, não alimentava polêmicas e negava-se a apontar diretamente um herdeiro ministerial.

Comenta-se nos bastidores, que um dos grandes favoritos para suceder o pioneiro, seria o pastor Eliseu Feitosa de Alencar. Amazonense de Lábrea, Alencar destacou-se na década de 1960 na evangelização dos povos indígenas em Roraima. Em 1964, divulgou esse trabalho na CGADB em Curitiba (PR), e "ganhou a simpatia, confiança e apoio do pastor Cícero de Lima" – segundo o próprio José Wellington.


Cícero e alguns candidatos à sucessão (JW sentado à direita)



Em 1965, convidado por Cícero, Alencar transfere-se para o Belém. Nesse tempo, um grupo de pastores do ministério, desconfiados das histórias de evangelização dos indígenas, prepararam um dossiê denunciando a suposta farsa. Demonstrando apreço ao obreiro, Cícero de Lima não aceitou as acusações, causando uma crise no ministério.

Porém, não seria o objetivo do dossiê, mais do que o desejo de transparência, a obstrução do nome de Eliseu à sucessão ministerial? Intenções à parte, o plano não deu certo. Todos os pastores envolvidos na preparação do documento foram transferidos para o interior. José Wellington, na época não era obreiro sustentado pela igreja, mas ficou sem atividades durante um ano no ministério.

Pressões e hostilidades foram contantes contra Eliseu de Alencar. Havia, conforme os mais antigos membros, uma bem articulada rede de difamações contra ele. Talvez por isso, sentindo-se impossibilitado para se efetivar como sucessor de Cícero, ele aceita voltar a Campo Grande (MS) em 1970, deixando o caminho livre para outros pretendentes. Em 1972, rompeu com o Belém. Fato que causou um profundo desgosto e decepção no antigo protetor.

O ministério tinha mais alguns candidatos. Pastores mais antigos como Odilon Issa Karam, Manoel Bezerra e Antonieto Grangeiro Sobrinho, poderiam estar no páreo. Grangeiro inclusive, havia exercido à presidência da Junta Executiva da CGADB na década de 1960. Contudo, os "cardeais" do Belém apoiaram José Wellington na hora decisiva.

Também eram potenciais candidatos os dois últimos vices de Cícero: João Alves Corrêa e João Pereira de Andrade Silva. Corrêa estava em Santos desde 1962, mas distante da capital foi atropelado pelos acontecimentos. João Pereira em 1973, convencido por seus pares, ou por problemas internos, trocou à vice-presidência do Belém pela direção da CPAD no Rio de Janeiro. Era um a menos na disputa...

Com tudo isso, abriu-se o caminho para o então secretário da igreja, o pastor José Wellington Bezerra da Costa. Alçado em 1973 a condição de vice, Wellington sabia muito bem que o poder se conquista. Experiente e bem sucedido comerciante, o cearense precisaria de muita paciência, ousadia e jogo de cintura para chegar ao topo.

Por fim, muitos estavam de olho nos derradeiros anos do "timoneiro". Queriam herdar o leme da grande embarcação chamada Ministério do Belém. Os próximos lances da sucessão seriam decisivos. Sairia do controle até do próprio Cícero.

Fontes:

ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

ARAÚJO, Isael. José Wellington – Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012. 

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

CORREA, Marina Aparecida Oliveira dos Santos. Assembleia de Deus: Ministérios, carisma e exercício de poder. São Paulo: Fonte Editorial, 2013.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: uma história das Assembleias de Deus no Brasil - Curitiba: Editora Prisma, 2017.

FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo. In: ANTONIAZZI, Alberto. Nem anjos nem demônios; interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.

sábado, 22 de abril de 2017

Ministério do Belém – Cícero, o ocaso do timoneiro

José Wellington Bezerra da Costa, o cearense de São Luis do Curu, assumiu em janeiro de 1980, na cidade de São Paulo, o Ministério do Belém, um dos mais importantes das Assembleias de Deus no Brasil. Seu antecessor, foi nada mais nada menos que o veterano e o respeitado pastor Cícero Canuto de Lima.

A história oficial passa longe dos detalhes da conturbada sucessão. Mas há indícios nas publicações da CPAD, através do Mensageiro da Paz e das biografias autorizadas, que o pastor Cícero em sua derradeira década à frente do ministério, sofreu um grande processo de desgaste em sua liderança. Soma-se a isso, o intenso clima de disputas internas pelo cargo do pioneiro.

Signatário da convocação para a primeira Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB) em 1930, o nordestino Cícero pastoreou por 15 anos da AD em João Pessoa (PB). O desejo de trabalhar no sul do país surgiu em 1937. Em entrevista ao Mensageiro da Paz em 1974, declarou: "puseram muitos obstáculos" para impedir sua vinda a São Paulo. Mas persistiu e convidado por Samuel Nyström, o pastor paraibano ganhou a oportunidade de cooperar na AD em São Cristóvão no Rio de Janeiro de 1939 à 1946.

Cícero: o "timoneiro"

Sobre a transferência do veterano, observou o historiador Maxwell Fajardo no livro Onde a luta se travar, que o "fato de uma liderança de destaque no Nordeste, com quinze anos de pastorado na mesma igreja", e com influência para articular "um grupo de pastores contra os suecos e criar um órgão institucional de nível nacional, ter sido designado para vir ao Sudeste, não para dirigir uma igreja, mas para ser auxiliar" seria uma evidência das questões ainda não totalmente superadas entre os obreiros nacionais e os suecos. 

Mas, em 1946, o sonho de tornar-se pastor na pauliceia se realizou. E como temiam os suecos, Cícero à frente da igreja na dinâmica metrópole sul-americana, consolidou sua liderança e estilo conservador dentro das ADs. 

Paulo Macalão, do Ministério de Madureira (RJ), passou ao imaginário dos assembleianos como ícone do conservadorismo. Porém, foi na direção do nobre potiguar, que o Ministério do Belém proibiu e ameaçou de exclusão os membros com televisão em suas casas; não permitiu congressos de jovens e se opôs ferozmente aos institutos bíblicos, a tal "fábrica de pastores". Alguns até falam, mas não é informação comprovada, que Cícero em tempos remotos, seria até contra o uso das lições de escola dominical na igreja.

Contudo, na sua última década de pastoreio, o "timoneiro" – assim foi chamado em uma celebração de aniversário – acumulou desavenças com a CGADB. Por conta de uma antiga ligação com a AD em Aribiri, Vila Velha (ES) e com o intuito de ajudar a igreja em dificuldade, filiou o campo do ministério capixaba ao Belém.

A suposta ajuda, ao que tudo indica, aprofundou à crise. A Junta Executiva da Convenção Geral, em meados de 1976, através do Mensageiro da Paz, divulgou o acordo entre a igreja em Aribiri e a convenção estadual. No documento, entre algumas determinações do acordo, está a declaração que ambas as partes "não aceitarão a interferência de outros Ministérios Estaduais" – referência indireta ao Belém.

No livro História da CGADB, destaca-se graves reclamações internas na convenção de 1975. Segundo os membros da Junta Executiva, havia deliberado desrespeito às decisões da instituição por um "vulto", o qual, "passava por cima da autoridade da Junta como se um trator fosse". Há desconfianças, que o tal "vulto" seja o pastor Cícero.

Em 1979, novamente Cícero vê seu prestígio em decadência. Na CGADB realizada em Porto Alegre (RS), o líder do Belém quis continuar na presidência do Conselho Administrativo da CPAD. Os membros do conselho manobraram para não permitir os intentos do ancião. Na mesma convenção, em gesto de desagravo aos assuntos tratados, o veterano se retirou do plenário levando consigo muitos obreiros de São Paulo.

Assim, ao entregar (ou ser deposto) à liderança do ministério, o ancião já não possuía mais àquele prestígio de outras décadas. Não fez seu sucessor e posteriormente em entrevista à Folha de São Paulo em 1982, reclamou do esquecimento e dos rumos do ministério que conduziu com mão forte.

O "timoneiro", talvez não tenha notado com clareza, mas na década de 1970, internamente no Belém  já se pensava na sua tão aguardada sucessão. Histórias para a próxima postagem.

Fontes:

ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

ARAÚJO, Isael. José Wellington – Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012. 

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

CORREA, Marina Aparecida Oliveira dos Santos. Assembleia de Deus: Ministérios, carisma e exercício de poder. São Paulo: Fonte Editorial, 2013.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: uma história das Assembleias de Deus no Brasil - Curitiba: Editora Prisma, 2017.

FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo. In: ANTONIAZZI, Alberto. Nem anjos nem demônios; interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.

Mensageiro da Paz, 30 de junho de 1973. nº 12, ano 43, CPAD: Rio de Janeiro.

http://mariosergiohistoria.blogspot.com.br/2013/09/sucessao-na-ad-do-belenzinho-golpe-ou.html

http://mariosergiohistoria.blogspot.com.br/2013/09/cicero-canuto-de-lima-herdeiro-da.html

http://mariosergiohistoria.blogspot.com.br/2013/03/ad-ministerio-do-belenzinho-proibicao.html

terça-feira, 18 de abril de 2017

Onde a luta se travar - o livro

* Por Gedeon Freire Alencar

Maxwell Fajardo, um intelectual orgânico e ministro assembleiano, se insere na pesquisa como um exemplar tipo de pesquisador da Rede Latina de Estudos do Pentecostalismo – RELEP. Uma rede articulada nos dos anos 90, com pesquisadores do México, Chile, Peru e Brasil que tem uma especificidade: um grupo de pesquisa sobre o pentecostalismo formada por pesquisadores pentecostais. 

Não tem a pretensão de reserva de mercado, a RELEP apenas indica: nós também temos algo a dizer sobre nós mesmos. Os estudos pós-coloniais nos legitimam. Sim, os subalternos tem voz. Segundo alguns, não deveriam, mas tem. E falam. E o fazem muito bem, como o Fajardo, em sua tese de doutorado em historia na UNESP.


Os colonizadores acadêmicos talvez não consigam entender – por ignorância ou má fé, ou pela conjugação das duas - que os índios pentecostais, talvez, não se sintam perfeitamente alcançados com as descrições realizadas. Algumas assumidamente preconceituosas, outras dissimuladamente piegas ou passionalmente incompletas. Há alguma dissonância entre os registros e a realidade; ha alguns aspectos que pesquisadores exógenos não percebem. Ou percebem distintamente dos nativos. Por que, então, somente há legitimidade da analise externa?

A pesquisa sobre o pentecostalismo, ou particularmente sobre as Assembleias de Deus no Brasil, começou sendo feita por intelectuais católicos e, posteriormente, por intelectuais das igrejas tradicionais. Não passa pela cabeça de alguns que também intelectuais pentecostais possam também fazer pesquisa? Acrescentar algo? Pode, mas precisa? Aqueles outros já não deram conta do recado?

Em um evento acadêmico, vez certa, ao terminar uma pessoa me disse: “Gostei, mas você é pentecostal, portanto tenho reservas com sua analise”. Ao que respondi: “Analise minhas ideias, não minha pessoa.  Por ser pentecostal não posso falar do pentecostalismo? Então, avise para os marxistas que eles não podem falar do marxismo, católicos do catolicismo, mulheres do feminismo. Aliás, humanos não podem falar de temas humanos. Por que um pentecostal é suspeito a priori? ” Impossível não lembrar do já clássico texto da cientista social indiana, Gayatri C. Spivak, “Pode o subalterno falar? ”.

Como alguns são mais iguais que outros, algumas subalternidades têm legitimidade a priori, outras, porém, suspeição. Por que a subalternidade pppp (pobre, preto, periférico e, majoritariamente, pentecostal) não pode. Ou não deve. O subalterno pppp é, de início, suspeitoso, pois, não é que ele não possa falar, ele não tem o que falar. Já falaram por ele...  

A ciência moderna tem como característica inerente a necessidade de avanço e essa superação pode e deve incluir novos atores, novos modelos. Novas controvérsias e polemicas. Como diz uma frase da moda: “A casa grande pira quando a senzala aprende a ler. ” Pois então, o pppp sempre foi apenas lido, de fora, de longe, com exotismo, mas agora ele também ler. Mais grave ele também ler a si mesmo;  tem uma leitura própria da sua realidade. E a coloca no páreo.  Afinal, o espelhinho/método do colonizador acadêmico tinha que ter alguma serventia. 

“Onde a luta se travar”: a expansão das Assembleias de Deus no Brasil urbano (1946-1980) ” é a história de uma identidade militante com embates internos e externos. (Por puro corporativismo não vou falar das lutas internas; não vou dá oxigênio ao inimigo. Passionalidade não existe somente no outro lado. E o faço propositalmente no momento em que o crítico). Essa militância apaixonada é tipificada a partir de uma frase de um hino clássico assembleiano como chave hermenêutica da historiografia construída pelo Fajardo. Original.  

Quem conhece as entranhas desse pentecostalismo estigmatizado desde suas origens como um movimento incomodo e suspeitoso, pois, formado por pobres, pretos, analfabetos, periféricos sabe o quanto a identidade interna do grupo foi formada pela musicalidade inspiradora do cantar apaixonadamente a plenos pulmões: “Eu quero estar com Cristo, onde a luta se travar! ”. 

A luta inicialmente era contra a marginalidade do grupo, a indiferença das demais igrejas, o estranhamento do modelo eufórico, a suspeição da tradição reformada e do racismo do qual o movimento pentecostal foi vítima. A luta era a favor da informalidade litúrgica, da leitura bíblica mais experiencial que teórica, da espiritualidade empírica, da liberdade de expressão dos pobres inclusive com glossolalia, da oportunidade ministerial aos negros, da transgressora liderança feminina. 

Os tempos mudam, mas as lutas continuam. A luta da subalternidade pentecostal pode, inclusive na atualidade, ser travada em outros lugares. Na academia, por exemplo.  E meu amigo Maxwell Fajardo, indica a mim e toda uma nova geração de pesquisadores pentecostais, o caminho a ser percorrido.
  
Doutor em Ciências da Religião pela PUC/SP, Mestre em Ciências da Religião pela UMESP, Graduado em Filosofia e membro da Igreja Betesta de São Paulo/SP.

Pedidos para Maxwell Fajardo no e-mail max.fajardo@yahoo.com.br

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Assembleias de Deus - feudalismo e nobreza

Em 1994, o sociólogo Paul Freston escreveu que as Assembleias de Deus possuía um sistema de governo "oligárquico e caudilhesco". Observou à concentração de poder na "complexa teia de redes compostas de igrejas-mães e igrejas e congregações dependentes". Seria, segundo ele, um "sistema de feudos", cujo propósito era conservar o poder e a expansão do ministérios.

Há evidentemente, outras tentativas e formas de explicar as ADs. Mas a comparação com o sistema de feudos, talvez seja uma das mais adequadas. As ADs atualmente, em suas práticas litúrgicas e honras ministeriais, em nada fica a dever à antiga forma de governo medieval.

Somente para relembrar: o feudalismo surgiu em parte da Europa (séculos V ao X), onde o poder se baseava na posse da terra também chamada de feudo. A sociedade era estamental, ou seja, cada classe social era fixa em suas atribuições e deveres. No entendimento da época, a nobreza, e tão somente ela, podia governar. O clero detinha o saber e a mediação diante de Deus. O povo (todo àquele que não era nobre ou não fazia parte do clero) possuía a obrigação de trabalhar e pagar impostos, pois viviam nas terras da nobreza. 

Antigos líderes das ADs: feudalismo eclesiástico

O poder era fragmentado, e a nobreza juntamente com o clero vivia em privilégios. Para conservar o poder, os nobres casavam-se entre si formando dinastias que se perpetuavam nos tronos. O povo, sem terras, tinha por obrigação acatar às ordens dos superiores dos que eram considerados "donos" do poder por direito divino.

Bem, não precisa ser expert para fazer as analogias. O pastor-presidente, hoje é um senhor feudal, mas com forte concentração de poder. A ascensão ministerial dos demais obreiros passa por seu crivo. É ele quem reconhece vocações ou relega ministros ao esquecimento. Isso explica tantas bajulações e honrarias, pois agradar o "anjo" da igreja é fundamental para viabilizar projetos e carreiras eclesiásticas.

É dentro desse contexto, que os aniversários de muitos pastores (ou das esposas), tornou-se um verdadeiro retrato da submissão feudal. No natalício dos líderes, os responsáveis pelos setores ou distritos devem recolher uma oferta com valores pré-determinados e entrega-lá ao seu presidente em sinal de gratidão e honra. São quantias expressivas, um tipo de tributação deixada aos pés do monarca.

Há ainda outra situação. Douglas Fidalgo registra em sua dissertação de mestrado "De Pai pra Filhos”, o pagamento de "pedágios" dentro de Madureira para que determinados obreiros possam assumir um campo de trabalho "lembrando práticas da vassalagem feudal". Mas seria só o Ministério dos Ferreiras a permitir tal prática?

Porém, a situação que mais lembra o feudalismo é a integração de famílias pastorais. Na época dos nobres, os casamentos arranjados era uma forma de preservar a herança ou a concentração de terras nas mãos de poucos. Atualmente, além do forte nepotismo, verifica-se o mesmo fenômeno dentro das ADs.

Pode-se argumentar que, sociologicamente, as relações matrimoniais são determinadas pela classe social na qual o sujeito está inserido. Contudo, o contexto de privilégios em que vivem muitos obreiros, faz com que tais práticas pareçam a consolidação de castas sacerdotais predestinadas ao poder. Um grupo seleto, intocável e sempre, mas sempre com alguma igreja para se servir.

Por conta dessa situação, há uma ironia que corre em São Paulo com um clã entronizado em uma AD. O patriarca é líder inconteste do ministério. O filho preside uma grande igreja na capital e o neto por sua vez lidera uma importante congregação na região. Ao saberem que o neto será pai, os irmãos já se perguntam qual campo estará reservado para a criança vindoura. Provavelmente não faltará jurisdição eclesiástica para o pequeno príncipe.

E o povo? Aos humildes é dada a tarefa de trabalhar nos departamentos e contribuir com suas ofertas e dízimos sem nada questionar. Pois essa é a vontade divina...

Fontes:

ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

CORREA, Marina Aparecida Oliveira dos Santos. Assembleia de Deus: Ministérios, carisma e exercício de poder. São Paulo: Fonte Editorial, 2013.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: a expansão das Assembleias de Deus no Brasil urbano (1946-1980) - Assis, 2015.

FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo. In: ANTONIAZZI, Alberto. Nem anjos nem demônios; interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.

FIDALGO, Douglas Alves. "De Pai pra Filhos”: poder, prestígio e dominação da figura do Pastor-presidente nas relações de sucessão dentro da “Assembleia de Deus Ministério de Madureira”. Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da UMESP. Orientador: Prof. Dr. Dario Paulo Barrera Rivera.

http://mariosergiohistoria.blogspot.com.br/2016/12/aniversario-de-pastor-criticas-de-joao.html

sábado, 8 de abril de 2017

Nicodemos José Loureiro - baluarte de Madureira

Antes da hegemonia dos Ferreiras no comando da Assembleia de Deus de Madureira, alguns pastores eram potenciais candidatos à presidência do ministério depois do fatídico agosto de 1982. À morte de Paulo Macalão e do seu braço direito Alípio da Silva, sem dúvidas, abriu um vácuo de poder sem precedentes.

Além do próprio Manuel Ferreira, os pastores Lupércio Vergniano, Carlos Malafaia e Luiz Fontes destacavam-se para uma eventual liderança. Todos eles, diga-se de passagem, tinham que conviver à sombra da missionária Zélia Macalão, a qual jamais poderia ser ignorada nas decisões ministeriais. Naquele contexto de muitas discussões, reuniões de bastidores e de enorme pressão sobre Madureira, outro forte candidato à presidência do ministério despontava: Nicodemos José Loureiro. 

Mineiro do distrito de Caiapó, município de Pirapetinga, Nicodemos nasceu em 20 de junho de 1926, mas cresceu em Volta Grande (MG). Criado em um lar metodista, na juventude foi surpreendido com a adesão da mãe e do irmão ao pentecostalismo. Revoltado com a situação, voltou depressa ao lar (estava em serviço militar) para combater "o mal" que ameaçava à família.

Nicodemos: ex-metodista e líder da AD

Combateu e foi vencido pela fé pentecostal. No dia 29 de março de 1949, aos 23 anos de idade, o jovem Loureiro se apresentou ao porteiro da AD em Resende (RJ), o qual em seguida o encaminhou ao dirigente da igreja. Naquele dia todos na congregação oraram para que o moço metodista recebesse o batismo com o Espírito Santo.

Recebido o batismo, na mesma semana ele passou a integrar o ministério da AD. Dois anos após o ingresso na AD, foi separado à evangelista no dia 1º de maio de 1951. Sete anos depois, em 04 de maio de 1958, aos 32 anos veio à separação ao ministério pastoral. Em 1960, Loureiro assume à liderança da AD em Volta Redonda (RJ), e nela permaneceu até sua jubilação em 1995.

Situada no Vale de Paraíba no sul fluminense, Volta Redonda recebeu na década de 1940, a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), que impulsionou o desenvolvimento da toda à região meridional do Rio de Janeiro. Volta Redonda teve um crescimento incomum e a AD não ficou atrás com seu evangelismo constante, trabalho de assistência social e um bom programa de rádio.

Com sólida formação musical e teológica, Nicodemos conquistou rapidamente à confiança do pastor geral de Madureira, Paulo Macalão. Por sua vez, a igreja encontrava-se numa região industrial de grande importância estratégica para os governos militares. Assim, o ex-metodista, naturalmente começou a destacar-se como um dos mais proeminentes líderes do Ministério de Madureira.

Na década de 1970, Loureiro integrou várias comissões criadas pela CGADB para resoluções de casos polêmicos. Na convenção de 1975, foi eleito vice-presidente da CGADB, em 1977 fez parte da Junta Excecutiva e em 1979, assumiu como 2º secretário da Mesa Diretora e fez parte da seleta comissão para revisão geral da letra e música da Harpa Cristã. Percebe-se claramente como seu nome era representativo do Ministério de Madureira, mesmo antes da ascensão do atual Bispo Primaz de Madureira.

Porém, em meio a toda essa projeção nacional, à família do pastor Loureiro viveria uma tragédia familiar. No dia 26 de fevereiro de 1976, sua filha Alda Loureiro de Paula, esposa do conhecido pastor Oziel de Paula, que fazia dupla com seu irmão Otoniel, morreu em um grave acidente automobilístico no Rio Grande do Sul. Faleceram ainda no desastre, a esposa de Otoniel, Nicete Rosa de Paula e o pastor Apolo Batista da Paz, motorista do veículo.

Em 1982, com à morte de Macalão e do seu vice, pastor Alípio, o nome de Nicodemos surgiu forte para a sucessão. Sintomático do seu prestígio, ele prega no ato fúnebre do patriarca de Madureira, no cemitério Jardim da Saudade em Nova Iguaçú (RJ).

Nas memórias do bispo Ferreira sobre às discussões em torno dos nomes para à presidência da CONAMAD e a candidatura à CGADB, o pastor de Volta Redonda é citado. Não poderia ser diferente, pois era um nome de peso. Mas Nicodemos aceitou à reconfiguração de poder no ministério. Viu à ascensão de Ferreira e todos os desdobramentos entre Madureira e a Missão um tanto distante e evitou o desgaste próprio.

Pediu sua jubilação em 1995. Longe do poder aproveitou para pregar e ensinar nas igrejas da região. Obreiro de boa conversa e cordial no trato, conhecia os 524 hinos da antiga versão da Harpa Cristã e os ensinava à igreja nos cultos de ensino. Ferreira refere-se a ele como um "intelectual". Vindo do bispo não é pouca coisa. Na verdade é o reconhecimento da importância do veterano obreiro.

Nicodemos deixou saudades na AD em Volta Redonda. Hoje, em avançada idade, o veterano luta com problemas de saúde. Mas é um bravo que resiste. O seu sucessor na igreja, posteriormente, envolveu-se em graves problemas administrativos numa séria crise com os membros. Isto só fez aumentar o saudosismo dos antigos membros e a percepção, de que em Madureira, algo se perdeu no caminho...

Fontes:

ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

CORREA, Marina Aparecida Oliveira dos Santos. Assembleia de Deus: Ministérios, carisma e exercício de poder. São Paulo: Fonte Editorial, 2013.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: a expansão das Assembleias de Deus no Brasil urbano (1946-1980) - Assis, 2015.

FERREIRA, Ely Evangelista. Galeria dos Pastores da Assembleia de Deus. Belo Horizonte, (s.e) 1ª edição 1971.

FERREIRA, Samuel (org.) Ministério de Madureira em São Paulo fundação e expansão 1938-2011. Centenários de Glórias. cem anos fazendo história 1911-2011 s.n.t.

FIDALGO, Douglas Alves. De Pai pra Filhos”: poder, prestígio e dominação da figura do Pastor-presidente nas relações de sucessão dentro da “Assembleia de Deus Ministério de Madureira”. Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da UMESP. Orientador: Prof. Dr. Dario Paulo Barrera Rivera.

http://www.portalvr.com/2012-12-20-11-24-20/historia-cidade

https://pt.wikipedia.org/wiki/Volta_Redonda

domingo, 2 de abril de 2017

CGADB - todos contra todos

Superado os problemas da primeira CGADB, a liderança assembleiana foi tentando acomodar suas divergências. Os pastores brasileiros, gradativamente, foram conquistando seu espaço nas principais igrejas. Os suecos ainda mantiveram sua influência teológica, mas a tão almejada harmonia seria um sonho dentro das ADs.

Primeiro, porque transposto os problemas iniciais, outras questões surgiram ou se avolumaram. A cooperação dos missionários norte-americanos e seus projetos de utilização de novas mídias e a criação de institutos bíblicos, tornaram-se mais um ingrediente nas polêmicas convencionais.

Mas é muito evidente, até na história oficial, que a expansão dos ministérios, principalmente o de Madureira, foi um dos principais fatores de constantes intrigas entre os obreiros. Silas Daniel no livro História da CGADB, nomeia esse tempo crítico de "período de intensos debates".


CGADB em Santo André (SP) - 1975

Porém, justiça se faça: não foi só por causa de Madureira que os atritos se deram. Outras ADs também colaboraram paras as frequentes turbulências eclesiásticas. No Ceará, o irmão do atual presidente da CGADB foi um dos principais protagonistas de uma verdadeira batalha pela liderança da igreja, somente resolvida com muitas e intensas negociações.

Na década de 1960, com a construção de Brasília, os conflitos foram constantes entre os vários ministérios e líderes. A nova Capital Federal, em seus poucos anos de existência conseguiu sintetizar o clima reinante na denominação. Juscelino não planejou, mas a "Capital da Esperança", foi verdadeiramente cinquenta anos em cinco para as ADs no Brasil.

Na década de 1970, as tensões continuaram e se fizeram mais explícitas nas convenções. Nesse tempo, a CPAD tornou-se alvo de profundas disputas. A gestão da editora foi colocada sob suspeita e comissões foram criadas para investigar problemas. A empresa, planejada para dar unidade doutrinária e denominacional, por triste ironia, viria a ser o "pomo da discórdia" assembleiana.

Ainda nos anos 70, o veterano e respeitado Cícero Canuto de Lima se desgastaria muito no fim do seu ministério. Talvez, sem perceber, suas posições inflexíveis e de confronto com as determinações da CGADB, acabariam por trazer prejuízos à imagem do Ministério do Belenzinho.

Chegada à década de 80, as situações e confrontos gestados nos anos anteriores chegou ao seu limite. O antagonismo entre Missão e Madureira levou à suspensão do ministério fundado por Paulo Leivas Macalão da CGADB, instituição que ele ajudou a criar e da qual foi presidente em 1937.

Em seguida, a "Era Wellington" (classificação dada pelo historiador Maxwell Fajardo) seria um tempo de profundas transformações políticas, econômicas e tecnológicas no Brasil e no mundo. O advento da internet e das redes sociais transformaram as relações sociais. As informações deixam de ser monopólio de alguns grupos midiáticos. Segredos de bastidores correm o mundo.

Soma-se a isso tudo, as transformações no perfil das novas gerações de obreiros. Os novos pastores possuem estilo empresarial, usam extremamente o marketing e não tem pudores de se envolverem na política partidária. O poder para essa geração é um fim em si mesmo. Não fundam mais igrejas ou ministérios, erguem impérios eclesiásticos. É a fase que o sociólogo Gedeon Alencar denomina de "todos contra todos".

Se a CGADB já nasceu sob o signo da cisão, o atual ethos ministerial ajudou a potencializar as tensões. Vive-se nas ADs hoje, para usar alguns termos da história secular, uma "corrida imperialista", um clima de "Grande Guerra". A disputa pela presidência da CGADB virou uma luta aberta com acesso explícito aos lances da batalha. O Mensageiro da Paz, deixou de ser a única fonte de informação dos crentes sobre à convenção nacional. Não se consegue mais dissimular ou amenizar os graves conflitos desenvolvidos por essa geração.

O futuro é incerto e para muitos desalentador. Uma pena, pois o povo assiste perplexo à destruição da credibilidade da instituição que representa a maioria dos assembleianos.

Fontes:

ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

CORREA, Marina Aparecida Oliveira dos Santos. Assembleia de Deus: Ministérios, carisma e exercício de poder. São Paulo: Fonte Editorial, 2013.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: a expansão das Assembleias de Deus no Brasil urbano (1946-1980) - Assis, 2015.

FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo. In: ANTONIAZZI, Alberto. Nem anjos nem demônios; interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.