sexta-feira, 31 de março de 2017

CGADB - nascida sob o signo da cisão

As crescentes polêmicas envolvendo as próximas eleições à presidência da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB), tem provocado as mais acirradas discussões nas redes sociais. Como na política brasileira, há um clima de radicalização entre os dois grupos concorrentes e seus apoiadores.

Processos, liminares e uma intensa propaganda por parte dos candidatos, faz dessa eleição à lendária instituição assembleiana, uma das mais acirradas e com certeza a de maior projeção midiática ao longo de sua história.

Mas é bom lembrar, que a convenção nacional surgida em 1930, já nasceu sob o signo da cisão, do conflito e da controvérsia. Implantadas à partir de 1911 no Brasil, as ADs já estavam praticamente presentes em todo território nacional. Junto com o crescimento acelerado, vieram também os choques entre os obreiros nativos e os missionários suecos. Ou pior: entre os escandinavos havia também uma séria disputa pelo controle da denominação.

CGADB de 1930: gênese polêmica

Os pastores brasileiros queriam a liderança; os suecos manter o poder. Gunnar Vingren e sua esposa Frida defendiam o ministério feminino; Samuel Nyströn e companhia almejavam restringir o avanço das mulheres na obra pentecostal. Em Belém se publicava o jornal Boa Semente e se editava os hinos da Harpa Cristã; no Rio de Janeiro, os Vingren confeccionavam o Som Alegre e o hinário Saltério Pentecostal.

À convocação para a primeira CGADB foi decidida pelos pastores brasileiros. No Boa Semente, a chamada para a conferência não deixava dúvidas sobre o clima que precedia o encontro marcado em Natal (RN): a palavra crise é usada abertamente para se referir "ao estado de coisas" por qual passava a denominação. Comenta-se de "questões" que prendiam "o progresso e harmonia da causa do Senhor" e de "remover certos obstáculos que podem embaraçar a causa de Nosso Senhor Jesus Christo".

A situação era tão dramática, que Vingren buscou o pastor Lewi Pethrus na Suécia para participar da convenção. Pethrus na época, estava envolvido com a construção do novo templo da Igreja Filadélfia e pediu permissão ao presbitério local para viajar ao Brasil com o intuito de tentar a pacificação.

Em sua biografia, Pethrus não deixa dúvidas sobre a iminente a divisão. Segundo ele "Vingren considerou que se não houvesse entendimento, todo o trabalho poderia ser dividido." A solução, considerou o pastor sueco, seria "recriar" a harmonia entre os missionários e pastores brasileiros.

Assim, uma das mais importantes deliberações da CGADB, foi à entrega dos trabalhos abertos pela missão sueca aos obreiros nativos. Tentou-se ainda abafar o ministério feminino com a famosa resolução, que possibilitava às mulheres testificarem e até ensinar, mas só em caso excepcionais poderiam exercer o ministério.

Como é de praxe, Pethrus logo em seguida suaviza as tensões, narrando o clima de comoção entre os convencionais com as decisões tomadas. É a marca da história oficial: contemporizar. Como observou a pesquisadora Marina Correa, a história oficial "vai escamoteando os problemas, relativizando as tensões" e acima de tudo "escondendo as desavenças".

E assim, desde sua gênese, a CGADB configurou-se num grande palco de disputas eclesiásticas. Transferência do trabalho para os pastores brasileiros e ministério feminino foi só o começo das demandas. Depois vieram às discussões sobre rádio, televisão, invasões de campo, institutos bíblicos, CPAD, divórcio, usos e costumes e política.

Com diz o pregador "nada há de novo debaixo do sol"... (Eclesiastes 1.9)

Fontes:

ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

CORREA, Marina Aparecida Oliveira dos Santos. Assembleia de Deus: Ministérios, carisma e exercício de poder. São Paulo: Fonte Editorial, 2013.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: a expansão das Assembleias de Deus no Brasil urbano (1946-1980) - Assis, 2015.

FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo. In: ANTONIAZZI, Alberto. Nem anjos nem demônios; interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.

PETHRUS, Lewi. Lewi Pethrus – Biografia. Rio de Janeiro, CPAD: 2004.

CAMINHOS, Goiânia, v. 12, n. 1, p. 240-258, jan./jun. 

11 comentários:

  1. Mais um belo artigo.
    Obrigado irmão por nos proporcionar essas fatos históricos. Tenho intercedido pela sua vida para que Deus possa sempre provê condições (em todas as áreas) para continuar suas pesquisas e nos informando.
    Um forte abraço.

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  2. Muito boa essa matéria, mas é bom lembrar que até a CGADB de 1985 (salvo engano), não se ouvia falar em "liminares" nas AGOs até porque poucos eram os pastores "doutores-advogados". Mas, com a evolução da intelectualidade dos nossos líderes, hoje, o que mais se vê (ao invés de buscar as soluções ao Dono da Obra), são liminares na justiça comum.
    Que exemplo de amor, união e humildade podemos herdar daqueles em quem devemos nos espelhar?

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  3. Faltou, nobre amigo, estatura espiritual para superar os problemas. Daí veio o personalismo, o nepotismo, o patrimonialismo e tantas outras mazelas. Faltam lideranças, sobram caciques!

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  4. O que acontece hoje é muito diferente do que ocorreu em 1930. Claro que são conflitos e o são pelo poder. A diferença é o que cada um hoje é capaz de fazer por ele. A luta política na CGADB e em muitas convenções no país é mais suja do que a política partidária no Brasil. Mas temos um consolo. A CGADB não é igreja!

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  5. Excelente artigo, uma pena que a CGADB,tenha tomado esses rumos.
    Mas Deus é fiel para com sua obra na terra.
    A Igreja de Cristo.

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  6. em um estudo mais Sistemático..os Irmãos poderiam dar uma avaliação melhor....qual a Importância da CGADB....se temos as Estaduais(olha que tem estado que tem muitas)....uma geral serviria pra qual função....nosso Deus não é de Confusão...bem certo que até na Igreja primitiva houve questões de conflitos...mas tudo isso fora humano....temos que tomar cuidado para não fugir do controle e partir para contextos egoístas e natural..esquecendo do Reino e do Sobrenatural....não percebendo que somos Servos...o Senhor deixou - nos a responsabilidade de dar seguimento no que Ele iniciou...e irá vir prestar contas...que não nos ache bebendo e espancando os conservos..sob nosssa responsabilidade....Abraços em Cristo

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  7. Gosto muito do blog e já li TODOS os artigos aqui publicados. Como assembleiano desde o nascimento, acho salutar a iniciativa de resgatar essa história não oficial. Para melhorar o blog, sugiro que os textos sejam revisados antes da publicação, porque a grande quantidade de erros de português presentes nos mesmos causam uma impressão ruim.

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    1. Ok meu irmão! Vou tentar melhorar. Agradeço sua colaboração e frequência ao blog.

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