sexta-feira, 31 de março de 2017

CGADB - nascida sob o signo da cisão

As crescentes polêmicas envolvendo as próximas eleições à presidência da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB), tem provocado as mais acirradas discussões nas redes sociais. Como na política brasileira, há um clima de radicalização entre os dois grupos concorrentes e seus apoiadores.

Processos, liminares e uma intensa propaganda por parte dos candidatos, faz dessa eleição à lendária instituição assembleiana, uma das mais acirradas e com certeza a de maior projeção midiática ao longo de sua história.

Mas é bom lembrar, que a convenção nacional surgida em 1930, já nasceu sob o signo da cisão, do conflito e da controvérsia. Implantadas à partir de 1911 no Brasil, as ADs já estavam praticamente presentes em todo território nacional. Junto com o crescimento acelerado, vieram também os choques entre os obreiros nativos e os missionários suecos. Ou pior: entre os escandinavos havia também uma séria disputa pelo controle da denominação.

CGADB de 1930: gênese polêmica

Os pastores brasileiros queriam a liderança; os suecos manter o poder. Gunnar Vingren e sua esposa Frida defendiam o ministério feminino; Samuel Nyströn e companhia almejavam restringir o avanço das mulheres na obra pentecostal. Em Belém se publicava o jornal Boa Semente e se editava os hinos da Harpa Cristã; no Rio de Janeiro, os Vingren confeccionavam o Som Alegre e o hinário Saltério Pentecostal.

À convocação para a primeira CGADB foi decidida pelos pastores brasileiros. No Boa Semente, a chamada para a conferência não deixava dúvidas sobre o clima que precedia o encontro marcado em Natal (RN): a palavra crise é usada abertamente para se referir "ao estado de coisas" por qual passava a denominação. Comenta-se de "questões" que prendiam "o progresso e harmonia da causa do Senhor" e de "remover certos obstáculos que podem embaraçar a causa de Nosso Senhor Jesus Christo".

A situação era tão dramática, que Vingren buscou o pastor Lewi Pethrus na Suécia para participar da convenção. Pethrus na época, estava envolvido com a construção do novo templo da Igreja Filadélfia e pediu permissão ao presbitério local para viajar ao Brasil com o intuito de tentar a pacificação.

Em sua biografia, Pethrus não deixa dúvidas sobre a iminente a divisão. Segundo ele "Vingren considerou que se não houvesse entendimento, todo o trabalho poderia ser dividido." A solução, considerou o pastor sueco, seria "recriar" a harmonia entre os missionários e pastores brasileiros.

Assim, uma das mais importantes deliberações da CGADB, foi à entrega dos trabalhos abertos pela missão sueca aos obreiros nativos. Tentou-se ainda abafar o ministério feminino com a famosa resolução, que possibilitava às mulheres testificarem e até ensinar, mas só em caso excepcionais poderiam exercer o ministério.

Como é de praxe, Pethrus logo em seguida suaviza as tensões, narrando o clima de comoção entre os convencionais com as decisões tomadas. É a marca da história oficial: contemporizar. Como observou a pesquisadora Marina Correa, a história oficial "vai escamoteando os problemas, relativizando as tensões" e acima de tudo "escondendo as desavenças".

E assim, desde sua gênese, a CGADB configurou-se num grande palco de disputas eclesiásticas. Transferência do trabalho para os pastores brasileiros e ministério feminino foi só o começo das demandas. Depois vieram às discussões sobre rádio, televisão, invasões de campo, institutos bíblicos, CPAD, divórcio, usos e costumes e política.

Com diz o pregador "nada há de novo debaixo do sol"... (Eclesiastes 1.9)

Fontes:

ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

CORREA, Marina Aparecida Oliveira dos Santos. Assembleia de Deus: Ministérios, carisma e exercício de poder. São Paulo: Fonte Editorial, 2013.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: a expansão das Assembleias de Deus no Brasil urbano (1946-1980) - Assis, 2015.

FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo. In: ANTONIAZZI, Alberto. Nem anjos nem demônios; interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.

PETHRUS, Lewi. Lewi Pethrus – Biografia. Rio de Janeiro, CPAD: 2004.

CAMINHOS, Goiânia, v. 12, n. 1, p. 240-258, jan./jun. 

sexta-feira, 24 de março de 2017

Assembleia de Deus Madureira - do "papado" ao bispado

As redes sociais na internet, divulgaram com rapidez a recente novidade do mundo assembleiano. Na 40ª Assembleia Geral Ordinária (AGO) da Convenção Nacional da Assembleia de Deus Madureira, a qual está se realizando na cidade de São Paulo, no templo da AD no Brás, oficializou-se mais cinco novos bispos no ministério.

Além do bispo Manoel Ferreira, presidente vitalício da igreja, os escolhidos agora para a tão grande honra são os pastores Samuel Ferreira (SP), Abner Ferreira (RJ), Abigail Carlos de Almeida (GO), Daniel Malafaia (RJ) e Oídes José do Carmo (GO). Sobre os dois primeiros, o sobrenome já diz tudo: pertencem ao clã que domina o ministério. Os demais são obreiros estratégicos no apoio e consolidação do poder familiar.

Bispado de pai pra filhos

Historicamente, o uso de novas nomenclaturas ministeriais dentro das ADs nunca se deu sem alguma contestação. A CGADB de 1938, realizada em Recife (PE), rejeitou a consagração de apóstolos. Somente seis décadas depois, é que o pastor Túlio Barros Ferreira - coincidências de sobrenomes interessante - utilizou a titulação de apóstolo na AD em São Cristóvão (RJ).

O próprio termo, hoje tão utilizado de pastor-presidente ou pastor geral, não foi aceito sem críticas. Veteranos obreiros criticavam o modelo eclesiástico que estava por trás das honrosas titulações. Era evidente a concentração de poder em detrimento da desejada autonomia das igrejas. O sueco Otto Nelson chegou a criticar as nomenclaturas criadas considerando-as "antibíblicas".

Mas a realidade se impôs sobre os ideais dos pioneiros. O poder e a força dos pastores-presidentes somente aumentou com o tempo. Verdadeiros feudos religiosos se constituíram e Paulo Leivas Macalão teria sido o primeiro a consolidar o modelo episcopal, quando em 1958 criou a Convenção Nacional de Madureira e foi eleito pastor geral do campo.

Alcebiades Vasconcelos, no Mensageiro da Paz em 1959, ao observar a configuração eclesiástica assembleiana temia que um "pastor-geral com caráter nacional", poderia resultar na criação "de um papado pentecostal brasileiro".

É óbvio que o líder de Madureira não gostava da comparação. No livro Galeria do Pastores, o autor Ely Evangelista saiu em defesa de Macalão, afirmando que ele não tinha "tendências ou espírito papista" e muito menos "espírito ditatorial", pois as igrejas ligadas ao seu ministério tinham "ampla liberdade de agir". A história, porém, registra o contrário...

Controvérsias à parte, o certo é que Paulo Macalão nunca adotou outra nomenclatura a não ser de pastor geral. Sua esposa, Zélia Brito Macalão, muitos anos depois foi agraciada por Madureira com o título de "missionária". Titulação em uma igreja que não admitia (e em grande parte ainda não admite) a separação de mulheres ao pastorado.

Mas foi com à morte de Macalão e o vácuo de poder reinante em Madureira, que o então pastor Manoel Ferreira conseguiu superar todos os demais líderes e pretendentes à presidência da CONAMAD. Consolidada a liderança, Ferreira chegou ao bispado. Para justificar o uso do título, até hoje o ministério apresenta versões controversas.

Uma versão diz que a titulação foi um reconhecimento da igreja russa aos trabalhos de evangelização de Madureira naquele país, em outra se argumenta à necessidade de uma nomenclatura adequada para representar a igreja fora do Brasil. Para os estudiosos do pentecostalismo, é um termo usado somente para prestigiar, distinguir e elevar Ferreira perante seus pares na convenção.

Agora, além de um exotismo ministerial, o bispado se estendeu aos filhos de Ferreira e alguns pastores mais idosos. Mas todos sabem que a linha de sucessão se dará entre os filhos. Foi a maneira de legitimar ainda mais o que há anos se verifica em Madureira: o pleno domínio de um clã num dos maiores ministérios das ADs no Brasil.

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. José Wellington - Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: a expansão das Assembleias de Deus no Brasil urbano (1946-1980) - Assis, 2015.

FERREIRA, Ely Evangelista. Galeria dos Pastores da Assembleia de Deus. Belo Horizonte, (s.e) 1ª edição 1971.

FERREIRA, Samuel (org.) Ministério de Madureira em São Paulo fundação e expansão 1938-2011. Centenários de Glórias. cem anos fazendo história 1911-2011 s.n.t.

FIDALGO, Douglas Alves. De Pai pra Filhos”: poder, prestígio e dominação da figura do Pastor-presidente nas relações de sucessão dentro da “Assembleia de Deus Ministério de Madureira”. Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da UMESP. Orientador: Prof. Dr. Dario Paulo Barrera Rivera.

FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo. In: ANTONIAZZI, Alberto. Nem anjos nem demônios; interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.

Mensageiro da Paz, 1ª quinzena de novembro de 1959. Rio de Janeiro: CPAD.

Mensageiro da Paz, junho de 1970, nº 12. Rio de Janeiro: CPAD.

domingo, 19 de março de 2017

O pastorado feminino na AD Ministério de Madureira

* Por Douglas Fidalgo

A Assembleia de Deus Ministério de Madureira – ADMM, durante seus mais de 85 anos de existência tem a sua história marcada por diversas ações consideradas polêmicas (para dizer o mínimo), que vão desde a questão dos “usos e costumes” e “invasões de campos” no período de seu fundador, até as mais recentes como, por exemplo, o “suposto” envolvimento do Bp. Manoel Ferreira com o falecido Rev. Moon.

Mas com certeza um episódio que agitou o “mundo assembleiano brasileiro” foi a consagração de mulheres ao posto de pastoras. Esse episódio ocorreu no ano de 2005, no encerramento da 37ª AGO da CONAMAD na cidade de Paulínia – São Paulo, quando no dia da “Cruzada” que encerraria essa Assembleia Geral, o Bp. Manoel Ferreira chamou ao palanque a cantora gospel Cassiane Santana Manhães e seu esposo Jairo Manhães (hoje pastores-presidentes do Campo de Barueri) os consagrando (os dois) a pastores (PRATES; FERNANDES, 2012, p. 143). Sendo então a cantora Cassiane a primeira mulher a receber oficialmente o título de pastora na Assembleia de Deus Ministério de Madureira - ADMM. Como afirma Alencar (2013, p. 240), “o bispo sentiu de Deus” tomar essa atitude e consagrar a primeira mulher pastora da ADMM.

Mais tarde de forma “compulsória” consagrou todas as esposas de pastores-presidentes do ministério a pastoras no ano de 2011 (2013, p. 241). Mas antes disso ocorrer, no de 2009, em plena comemoração aos 80 anos de fundação do Ministério de Madureira a esposa do Bispo Manoel Ferreira é consagrada a bispa, se tornando (assim como esposo) a primeira bispa assembleiana do Brasil (PRATES; FERNANDES, 2012, p. 147), pelo menos dentro das ADs oriunda das duas grandes convenções – CGADB e CONAMAD.

Precisamos pontuar que dois anos antes (2003) da consagração da primeira pastora da ADMM, esse mesmo ministério já havia consagrado às mulheres dos pastores-presidentes a missionárias e regulamentado a consagração de diaconisas dentro do Ministério de Madureira. Esses títulos (a exceção das diaconisas), principalmente os dados às mulheres dos pastores-presidentes eram (e ainda é) uma forma mais de distinção (BOURDIEU, 2007) entre dominadores e dominados.

Entretanto, alguém pode alegar que a mulher de Macalão, Zélia Brito Macalão era chamada de missionária, se assentava ao lado do esposo no púlpito e representava o mesmo em diferentes eventos como inaugurações, congressos e solenidades quando o seu esposo não podia comparecer (ALENCAR, 2013). 

Zélia e Paulinho: presença feminina na liderança de Madureira

Porém, que fique claro que a missionária Zélia Macalão, que viveu em um período no qual o machismo e a misoginia eram questões explicitamente claras dentro das ADs no Brasil (e porque não afirmar que ainda são), desempenhou um importante papel na constituição da igreja. Uma vez que essa mulher (como algumas outras dentro da história das ADs) se destacou pela coragem e brilhantismo, traduzindo artigos e escrevendo textos de ensino que foram publicados no MP por alguns anos, em um período em que só homens desempenham esse papel. Que infelizmente com o decorrer dos anos foi diminuindo sua atividade no “ministério do ensino”.

Encontramos ainda sua ação direta na CIBE - Confederação das Irmãs Beneficentes Evangélicas, fundada no ano de 1955 (MACALÃO, 1986), que tinha como função o trabalho na área da “assistência social”, oferecer cursos profissionalizantes, arrecadação de alimentos para atender as famílias necessitadas da igreja, o berçário da igreja e outras atividades. Apesar de todos esses serviços em sua maioria serem voltados para o público da igreja de Madureira, não se deve negar a contribuição que o mesmo teve.

Mas como as coisas dentro do pentecostalismo, principalmente assembleiano ocorrem de forma dinâmica e muitas vezes imprevistas, podemos indicar que muito antes da confirmação do ministério pastoral feminino no ministério de Madureira uma única mulher rompeu essa “barreira” e assumiu o pastorado de um Campo de trabalho. Segundo o que consta nos registros oficiais da instituição e apesar de na época ela não ser pastora, mas sim missionária, a mesma esteve no posto mais alto de comando da ADMM Campo de Guararema – SP (FERREIRA, s.n.t, p. 199).

Esse campo era ligado a ADMM Campo de Mogi das Cruzes, que tinha como presidente o Pr. Jorge Baptista Leite, que esteve à frente dessa igreja entre os anos de 1963 até 1996. Durante esses 33 anos o Campo de Mogi das Cruzes cresceu e se tornou um dos importantes campos do Ministério de Madureira. É neste ponto que reside à questão, que explica essa “presidência-feminina” em Guararema, pois esse pastor já estava avançado em idade e a Diretoria da CONAMAD resolveu jubilá-lo e substituí-lo. 

O referido pastor não aceitou ser jubilado e se instaurou a crise. A mesma foi resolvida com um acordo entre ambos os lados (CONAMAD e o pastor) e no final as igrejas da região de Guararema, que faziam parte desse Campo de Mogi das Cruzes foram emancipadas e a filha o Pr. Jorge Leite, a época Missionária Léia Baptista Cavalcante Macêdo assume a presidência desse campo. Ficando nessa presidência por um período de aproximadamente seis anos (FERREIRA, s.n.t), porém alegando dificuldades a mesma renunciou ao posto de “pastora-presidente”, se assim podemos dizer.

Fora esse episódio, que marca o grande jogo de interesses da liderança da ADMM, não se encontra nenhum outro semelhante a esse. Assim o pastorado feminino da ADMM na atualidade não expressa em um reconhecimento da capacidade das mulheres, pois as mesmas são na maioria dos casos esposas de pastores-presidentes, o qual pouco ou quase nada desempenha dentro da organização. Seus “títulos honoríficos” apenas demarcam o seu lugar na instituição, não a sua qualidade ou atividades.

Mas em toda a regra existe sua exceção! E muitas mulheres em seu anonimato, são a mola sustentadora e ao mesmo tempo propulsora do movimento pentecostal assembleiano no país, pelos seus muitos serviços prestados, mas que não são reconhecidos.

Entretanto, como afirma Alencar (2013, p. 242) as novas gerações que estão se acostumando com essa nova imagem da mulher assembleiana, vai aceitar que essa imagem só fique nisso? Certamente que não! Sabendo ser esse assunto ainda muito polêmico não apenas dentro das ADs no Brasil, mas em muitas igrejas evangélicas brasileiras a verdade é que ADMM vem ao longo da gestão dos Ferreiras quebrando muitos pontos tradicionais do movimento, porém o comodismo dessas mulheres pode apenas servir como um “demarcador” de posição social, muito comum dentro de outras esferas sociais em nosso país.

Mestre em Ciências da Religião na área de concentração em Ciências Sociais e Religião, na Universidade Metodista de São Paulo. Pós-graduado em Filosofia Contemporânea e História na Universidade Metodista de São Paulo (2013), em Educação para o Ensino Superior pela UNIP (2012) e História e Teologia do Protestantismo no Brasil pela FTBSP (2011). Graduado em Ciências Sociais pelo Centro Universitário Fundação Santo André (2007). Além de possuir significativa vivência no magistério das redes particular e pública do Estado de São Paulo, lecionando ao longo dos anos disciplinas como Sociologia, História, Filosofia e Geografia para os níveis Fundamental II e Médio. Também atuou como professor auxiliar no curso de Ciências Sociais - EaD e professor presencial nos cursos de Gestão e Administração da Universidade Metodista de São Paulo.

Fontes:

ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

BOURDIEU, Pierre. A Distinção: crítica social do julgamento, São Paulo: Edusp; Porto Alegre, RS: Zouk, 2007.

FERREIRA, Samuel Cássio (org.), Assembleia de Deus em São Paulo: Fundação e Expansão1938-2011. Centenário de Glórias, 100 anos fazendo história1911-2011. s.n.t.

MACALÃO, Zélia Brito, Traços da vida de Paulo Leivas Macalão, Rio de Janeiro: CPAD, 1986.

sábado, 11 de março de 2017

Minissaia - a grande vilã

Na postagem, Moda, minissaia e o combate ao mundanismo nas ADs, observou-se os intensos debates sobre os modismos, e principalmente o uso da minissaia, que segundo um pastor da época, estavam "tentando invadir as igrejas".

O assunto foi levado à Convenção Geral de 1968 realizada em Fortaleza (CE). Silas Daniel, no livro História da CGADB, informou que os debates eram "reflexos da Revolução Sexual" sobre a denominação naqueles anos de grande efervescência cultural.

Registros mostram que a minissaia era uma grande fonte de preocupação dos pastores, que como toda a sociedade da época, assistiam escandalizados aos novos padrões de vestimentas e consumo da juventude. Sedimentados pela popularização da TV e do movimento musical Jovem Guarda, capitaneado por um jovem cabeludo (Roberto Carlos) que mandou "tudo pro inferno", os jovens jamais voltariam aos marcos antigos.

Vale lembrar, que na canção É papo firme (1966), Roberto fala de uma garota "avançada" que dirige velozmente, "gosta de gíria e muito embalo" e "só anda de minissaia". E todas essas novas posturas de uma jovem libertária, foram encarnadas numa mineira de Governador Valadares de origem libanesa chamada Wanderléa Charlup Boere Salim.

Wanderléa: ousadia no uso da minissaia

Além de adotar a criação de Mary Quant, Wanderléa, a famosa "Ternurinha", ousava mais: a inglesa usava à peça oito dedos acima do joelho; Wandeca por sua vez um palmo e meio acima. Era um escândalo.

E de norte a sul, as ADs sentiam e reagiam aos ventos de mudanças. Na AD em Joinville (SC) em 1968, o pastor Artur Montanha advertia aos membros contra o perigo dos vestidos curtos e das minissaias. Montanha usava uma lógica irrefutável: deveriam as irmãs perguntar a Jesus se era correto ou não usar saias acima ou abaixo de joelho.

O escritor Leal Neto relata, que o saudoso pastor da AD em Teresina, Paulo Belisário Carvalho, na década de 1970, aconselhava aos membros da igreja para não se deixarem "influenciar pelas modas do mundo". E a minissaia era a grande "vilã" e o alvo das mais sérias recomendações pastorais. 

Em Belém do Pará, a Igreja-Mãe fez uma "campanha contra o uso da minissaia". À desobediência aos ditames do ministério local seria punida com à exclusão "automática" do rol de membros.

Assim, muitos outros ministérios reagiram. Cada vez mais, as antigas e novas gerações assembleianas, se viam diante dos desafios da modernidade. Até que em 1975, em Santo André (SP), à CGADB resolveu proibir oficialmente à minissaia e outros costumes mundanos.

A "velha guarda" se impôs de vez sobre a "jovem guarda"...

Fontes:

ALENCAR, Gedeon Freire de. Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011. Novos Diálogos: Rio de Janeiro, 2013.

ARAÚJO, Paulo César de. Roberto Carlos em detalhes (PDF). Editora Planeta: 2006.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

LEAL NETO, Raimundo. Uma Igreja Edificada - História da Assembleia de Deus em Teresina - PI. Teresina: Halley, 2012.

Atas da Igreja Evangélica Assembleia de Deus em Joinville.

sábado, 4 de março de 2017

Assembleia de Deus Madureira - "De pai pra filhos"

Quando o jovem Paulo Leivas Macalão, iniciou seu ministério nos subúrbios da cidade do Rio de Janeiro em 1929, talvez não imaginasse, que dentro de alguns anos, os frutos do seu ministério se estenderia por várias regiões do Brasil formando o conhecido Ministério de Madureira.

Em 1982, com a morte de Macalão e do seu provável sucessor, o pastor Alípio da Silva, o ministério ficou acéfalo. A década de 1980, portanto, foi de tensões internas e externas para Madureira, onde à sucessão seria incerta entre seus mais destacados líderes. Mas com o passar do tempo, um nome se consolidou na liderança: Manoel Ferreira.

Focando nesse período de transformações do Ministério de Madureira, é que o sociólogo Douglas Fidalgo defendeu recentemente a dissertação de mestrado “De Pai pra Filhos”: poder, prestígio e dominação da figura do Pastor-presidente nas relações de sucessão dentro da “Assembleia de Deus Ministério de Madureira”.


Douglas Fidalgo: "De pai pra flhos"

Para Fidalgo, o fato das ADs no Brasil ser a única igreja pentecostal que conseguiu ao longo de seus mais de cem anos manter-se crescendo (IBGE-Censo 2010), levou-o as seguintes indagações: por que uma denominação tão expressiva no cenário religioso nacional se organiza em torno de uma figura que acumula, em si mesma, um prestígio considerável ao ponto de se tornar quase que inquestionável dentro da instituição e, ao mesmo tempo, aceita e legitima um modelo sucessório dinástico em pleno contexto de necessária modernização das instituições religiosas em geral?

Tendo essa problemática, a pesquisa buscou analisar as relações do tipo de poder tradicional-patrimonialista e seus desdobramentos principalmente na legitimação do poder da figura do Pastor-presidente e no atual fenômeno de perpetuação/e sucessão dinástica dentro do espaço pentecostal das ADs, em foco o Ministério de Madureira.

A relevância do tema está no fato de que, o estudo relacionado ao tipo de dominação do patrimonialismo no pentecostalismo brasileiro é pouco usual entre as pesquisas acadêmicas. E muitos autores acabam relacionando figuras como a do Pastor-presidente, por exemplo, a uma mera herança do colonialismo brasileiro.

Dessa forma, ao “desmistificar” esse entendimento simplista, percebe-se a existência de uma complexa rede de relações entre os dominadores, o seu quadro de especialistas e os dominados. Sendo muitas vezes essa forma de relação tensa e conflituosa na disputa constante pela manutenção do poder e das benesses por ela produzido.

Assim, a pesquisa buscou analisar as relações de poder, prestigio e dominação que ajudam a explicar a importância adquirida pela figura do Pastor-presidente, junto a lógica recente de perpetuação familiar no comando das Igrejas ADs Ministério Madureira.

Fidalgo ainda destaca as peculiaridades do ministério construído por Macalão, e de forma sucinta traça o perfil do clã dominante e as resistências à dominação por eles imposta. Não é por acaso, que nessa trajetória, algumas igrejas tenham se desvinculado de Madureira, pois todo o processo não se deu sem tensões e disputas.

Presbítero na AD Ministério do Ipiranga em São Paulo, Douglas sempre se interessou pelas questões de poder eclesiástico nas ADs. Frequentou Madureira por mais de 20 anos e soube aproveitar seus contatos com pastores e dissidentes do ministério para entrevistas e coletas de dados. Sua dissertação é uma obra robusta teoricamente e de muitas e inéditas informações sobre Madureira e o clã que a domina.