quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Frida - um olhar de gênero

No distante janeiro de 1941, os leitores do Mensageiro da Paz, foram informados através do pastor Samuel Nyström sobre o precoce falecimento, aos 49 anos, da missionária sueca Frida Strandberg, viúva de Gunnar Vingren, um dos fundadores das Assembleias de Deus no Brasil.

Nyström, em seu texto, enaltece as virtudes da missionária. Segundo ele, Frida era talentosa, criativa, dedicada e carismática. Como ninguém "sabia cativar os que a ouviam" - destacou. Mas, em meio a tantos elogios, Samuel fez uma ressalva: "A sua impetuosidade, algumas vezes, levou-a além do que era prudente e útil...".


Eufemismos, que estudos recentes sobre a história das ADs revelam ter sido na verdade, uma grande batalha e disputa pelo poder dentro da denominação. Frida, não se contentou em ser simplesmente uma esposa "bela, recatada e do lar" ou assumir destacado papel de assistente social.


Valéria Vilhena: tese polêmica sobre Frida

Ela foi e queria ser muito mais do que isso. E por essa razão, atraiu sobre si a indignação e o repúdio de homens não preparados para ver (e aguentar) a ascensão de uma mulher líder, atuante e com capacidade de argumentar teologicamente contra eles.

Defendida recentemente, a tese de doutorado de Valéria Vilhena intitulada Um olhar de gênero sobre a trajetória de vida de Frida Maria Strandberg (1891 -1940), é uma importante contribuição para entender quem foi a esposa de Gunnar Vingren e as razões do seu esquecimento durante décadas na história das ADs.


Ultimamente, Valéria têm se tornado conhecida em suas posições polêmicas e por questionar à igualdade de oportunidades e à violência contra as mulheres nas estruturas religiosas. Ou seja, não reza pela cartilha do politicamente correto do mundo evangélico em geral. Sua tese é de uma militante feminista cristã; ainda que para muitos isso seja extremamente contraditório.

Por esse motivo esclarece a autora: "Um dos objetivos deste texto é avaliar, à luz da perspectiva de gênero, a trajetória de Frida, e a pressão que sobre ela foi feita num contexto de dominação masculina que atingiu as demais mulheres assembleianas". A instituição que permitiu a jovem missionária se destacar em meio a tantos líderes, hoje mitificados pela história oficial, também anulou sua vida e ministério.

Com excelente bibliografia e, principalmente, com acesso as cartas trocadas entre os missionários suecos, Vilhena discorre sobre a ascensão e o planejado esquecimento de Frida, um "símbolo da resistência ao sentimento de obsessão de dominação de pastores suecos e pentecostais".


Não é muita leitura fácil para os que estão habituados às hagiografias dos missionários escandinavos. Nas cartas exploradas para a tese, transparece toda a humanidade desse senhores, vultos da ADs e mitos da igreja. Mas é necessário mergulhar nessa face desconhecida da história e compreender, que a história dos mitos assembleianos é carregada de dramas e paixões terrenas.

Para Valéria, Frida não é uma santa, mas sim um ser humano, uma mulher lutando por seu espaço na igreja dentro de um forte contexto social contrário. Como reconheceu seu maior algoz, ela possuía uma "impetuosidade" desafiante para os pastores da época e um desejo enorme de cumprir sua missão no Brasil.


Fontes:

VILHENA, Valéria Cristina.Um olhar de Gênero Sobre a Trajetória de Vida de Frida Maria Strandberg (1891 -1940). Tese (Doutorado em Educação, Artes e História Cultural) – Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2016.


Mensageiro da Paz, 2ª quinzena de janeiro de 1941.

5 comentários:

  1. Cabe a reflexão:
    "A historiografia oficial, seja religiosa, seja política, sempre míope em avançado grau - quando não ostensivamente estrábica, em boa parte não é senão uma grande farsa. Quantos pseudos santos e heróis nos forja, sem o mínimo pudor... Sim, a história dos vencedores - a que prevalece - é sempre tendenciosa, desonesta". (Joanyr de Oliveira). Infelizmente, essa resistência vai persistir. Estamos lidando com "poderosos ",

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  2. Alexandre Bueno Salomé de Souza3 de fevereiro de 2017 12:15

    Uma tese maravilhosa...um passeio pela história...excelente pesquisa..una contribuição para a historiografia...parabéns

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  3. A pergunta é : será que para a mulher fazer a obra de Deus,ela somente o poderá fazer se for consagrada a "Pastora"? Onde encontrar mos na bíblia mulheres sendo consagrada ao sacerdócio? Será que Deus era machista e os apóstolos seguiram seu exemplo, não separando mulheres para o ministério?

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  4. Parabéns pela página. Também pesquiso gênero, além de ser evangélica, hoje considero-me feminista, anseio pela igualdade de gênero.

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  5. Interessante esta matéria! Coitada da esposa do pastor! Se ela é dinâmica, se destaca entre as mulheres da igreja por querer fazer a obra de Deus ao lado do marido, ela quer aparecer e ser pastora... Mas se ela nada faz, é uma alienada e não está nem aí para o que se passa na igreja. Na minha opinião a missionária Frida Vingren foi uma mulher além de seu tempo, que além de esposa e mãe, era musicista, poetiza, pregadora, ensinadora, escritora e líder ao lado do marido missionário. Acho que ela foi mal compreendida pelos seus opositores.

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