domingo, 7 de agosto de 2016

Mulheres pregadoras - Ester Ungur

Letônia, leste europeu, início do século XX. No dia 30 de março de 1911, nascia na capital Riga, João Ungur. De origem luterana, a família do pequeno Ungur foi tocada pelo avivamento pentecostal naquele país. Orientados por uma profecia, seus familiares e muitos outros letos vieram ao Brasil, estabelecendo-se em Varpa (SP).

Em São Paulo, Ungur filia-se à Igreja Batista e posteriormente à Assembleia de Deus (AD). Visitando Santa Catarina ajuda na evangelização da nascente denominação pentecostal e tempos depois fixa-se no ponto mais alto da geografia catarinense, na pequena e fria cidade de Urubici.

Nessa época, João Ungur mora entre os estados de Santa Catarina e São Paulo. Em 1942 é integrado na convenção catarinense. Ainda nessa fase nascem em Urubici suas duas filhas: Ester (17/08/1938), e Dulci Rute (18/01/1943).

Ungur liderou diversas igrejas em Santa Catarina. Enfrentou várias lutas e polêmicas, terminando seu ministério na AD em Florianópolis. Entre tantas mudanças, percalços e incompreensões, viu sua filha mais velha, incentivada por ele mesmo, se destacar nas pregações.

Ester começou tocando bandolim aos 11, e aos 15 era professora classe infantil da Escola Bíblica Dominical. Quando o pai pastoreou a igreja em Mafra, ela trabalhou nas Casas Pernambucanas para ajudar nos rendimentos domésticos. Era um tempo que, dependendo da igreja, o salário mal dava para a subsistência da família pastoral.

Ester, a mãe Milda, pastor Ungur e Dulci

Ainda em Mafra, a primogênita dos Ungur começou a desenvolver peças teatrais, jograis e apresentações. Certa feita, ao ministrar estudos bíblicos na cidade de Francisco Beltrão no sudoeste do Paraná, pastor João sentiu-se mal, e Ester, que conhecia muito bem o assunto, continuou a preleção. 

Tomou gosto, e com o aval do pai, começou a pregar e ensinar. Não se intimidava em ministrar o Plano Divino Através dos Séculos e o lendário estudo do Coração. Pregou ainda em vários congressos de jovens em Santa Catarina e no Brasil. 

Em toda a trajetória desenvolvida pela filha, o pai a incentivava, mesmo com algumas opiniões contrárias ao fato da primogênita (e mulher) estar pregando. Talvez, por que visse no estilo direto e cheio de autoridade dela (além dos olhos azuis), uma continuação do seu próprio ministério.

Ester, liderou também a juventude da AD em Florianópolis, e foi regente do Coral Esperança e Vozes de Sião. Sob sua organização ocorreu o segundo congresso de jovens em Santa Catarina, na capital no dia 01 de março de 1968. O fato de organizar o evento, revela o quanto o pai confiava na gestão da filha.

Mesmo com a jubilação de João Ungur, e a morte deste em 1971, Ester continuou seu ministério de pregadora e ensinadora da Palavra de Deus. Sempre dedicada a nobre missão de evangelizar. Tanto ela como a irmã nunca se casaram. Afirmam que tal decisão foi em obediência a Deus, pois muito antes de nascerem foram apresentadas ao Senhor.

Ao ser perguntada se concorda com o pastorado feminino, Ester aceita a resolução da CGADB de 1930: mulheres pastoras, só onde não existam homens com capacidade para exercer o ministério. 

Interessante: apesar de sua atuação ferir a histórica decisão que tinha como alvo limitar o ministério de Frida Vingren, a jovem Ungur na prática fazia o contrário. Exercia um ministério de pregação, ensino e liderança notável na região.

Em 1998, uma ao ser sorteada no GMHU, presenteou Ester com uma viagem ao Amazonas junto com o pastor Cesino Bernardino. Em 2001, ganhou uma viagem à Alemanha. Na visita conseguiu contatos para ir até à Letônia, terra natal do pai. Sentiu-se em casa, pois podia falar e cantar alegremente na língua do seu genitor. Parecia uma leta de verdade.

Atualmente, ela e a irmã Dulci moram num modesto apartamento de 90 metros quadrados em Barreiros, São José (SC). Residência esta comparada através de uma herança dos avós, mais alguns recursos economizados durante muito tempo. O imóvel, simples e sem luxo, é um museu onde livros, revistas e jornais antigos estão cuidadosamente guardados pelas irmãs Ungur. Um grande quadro do pai, presente da igreja em Florianópolis em 1965, se destaca em meio a tantas recordações da família pastoral.

Lá, sobrevive a memória dos Ungur. Resiste ao tempo através das relíquias e, por intermédio de Ester, nas igrejas e congregações das AD no século XXI.

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

Entrevista com as irmãs Ungur no dia 28 de julho de 2016.

2 comentários:

  1. Parabens pelo artigo, pois é da valia apreciar o trabalho das mulheres na história da assembléia de Deus. Além do que foi citado pela sua pessoa, vejo como referência a missionária Frida Vingren, esposa de um dos fundadores da assembléia de Deus no Brasil, ela tem grande destaque doutrinário na época, destacando na obra missionária através de suas mensagens, no livro em que conta sua biografia "Frida Vingren " é citado como exemplo na época a responsabilidade que ela tinha de conduzir administrativamente o periódico "O MENSAGEIRO DA PAZ" e junto a isso escrever seus artigos para o mesmo na época. Pouca gente sabe, mais tão grande foi o movimento feminino do início da assembléia de Deus no Brasil, que foi reclamado por ela a possibilidade da consagração de mulheres ao ministério, fato este que chegou a quase trazer divisões ao ministério.

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  2. Que belo artigo!
    Parabéns...
    Linda história de convicção de um chamado de Deus.
    Um incentivo maravilhoso a todas mulheres de Deus que amam ministrar a palavra do Senhor.

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