sábado, 11 de junho de 2016

Relembrando a história da AD no Brás

O historiador inglês Erick Hobsbawm (1917-2012), em seu clássico livro Era dos Extremos, comenta que uma das características mais lúgubres da sociedade moderna é a "destruição do passado" e dos  dos mecanismos sociais que vinculam nossa experiência social à das gerações passadas". 

Para Hobsbawm, as novas gerações "crescem num presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem". Em outras palavras, a sociedade pós-moderna com seu consumismo exacerbado e imediatista, pouco valoriza a história. Afinal, o importante sempre é o presente e o futuro, que logo se materializa em novos e modernos produtos.

Algo semelhante ocorre em muitos ministérios das ADs no Brasil. Novas gerações de obreiros ávidas por suceder seus protetores, somado ao egocentrismo de muitos líderes especializados em marketing, tem provocado um verdadeiro "esquecimento" de tudo o que foi realizado antes pelos crentes mais antigos.

Antiga sede da AD no Brás nos anos de 1950

Um dos casos mais emblemáticos é da AD no Brás em São Paulo. Nascida sob o signo da polêmica, o Ministério de Madureira na pauliceia passou por uma fase áurea e empreendedora na gestão do pastor Álvaro Motta entre os anos 50/60 do século passado.

O bairro do Brás, antigo reduto de imigrantes italianos, cortado por importantes ferrovias, começou a receber na década de 1940 uma grande massa de migrantes nordestinos. Assim, implantada nessa favorável região de trabalhadores da construção civil e operários, a AD cresceu velozmente.

Pastor Lupércio lendo o breve histórico da AD no Brás

Pastor Álvaro Motta assumiu a denominação nesse contexto. Antes dele, Sylvio Brito, Samuel Ramalho, Antônio Alves dos Santos e Otávio José de Souza foram pastores da igreja. A partir de 1954, Motta percebendo todo o potencial de crescimento da congregação investiu em grande eventos evangelísticos na capital. Batismos grandiosos em locais públicos, e campanhas evangelísticas memoráveis faziam parte de estratégia para dar visibilidade à igreja.

Multiplicando-se o número de fieis, pastor Motta planeja então construir um novo templo. Tinha referências para isso: Paulo Macalão, em 1953 havia edificado uma portentosa construção em Madureira no Rio de Janeiro. Álvaro dá início à construção da nova casa de oração: um desafio lançado e empreendido por todo o ministério de Madureira em São Paulo.

No dia 29 de junho de 1959, todo o  ministério da AD no Brás se reuniu para o lançamento da pedra fundamental do novo templo. Estavam presentes no dia vários obreiros e lideranças de Madureira. A irmã Zélia Macalão, na ocasião relatou sobre o início da obra e das dificuldades dos primeiros crentes.

O deputado João Hornos e Paulo Macalão: dia de festa

Realmente, não deve ter sido fácil para o irmão dela, o pastor Sylvio Brito romper com a AD pioneira na cidade, e abrir outro trabalho evangélico. Devem ter sido muitas as críticas e pressões para o encerramento da aventura ministerial. Brito, primeiro pastor nativo da AD em São Paulo foi banido da história da AD ligada à Missão Sueca.

Expressaram ainda seu contentamento no memorável dia, o pastor Paulo Macalão, que deve ter se sentido agradecido a Deus por ter investido na abertura do trabalho, mesmo causando um grande mal estar com à Missão. O deputado batista João Hornos Filho também marcou presença e deixou sua saudação.

Um momento marcante, foi quando o secretário da igreja, Lupércio Vergniano (futuro pastor da AD no Brás) leu um breve histórico da igreja. O documento foi colocado numa urna "como memorial para gerações futuras". A preocupação com a história era bem maior...

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: a expansão das Assembleias de Deus no Brasil urbano (1946-1980). 2015. Faculdade de Ciências e Letras, Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Assis, 2015.

MENSAGEIRO DA PAZ. Rio de Janeiro: CPAD. Ano 29, n. 21, 1ª quinzena de novembro de 1959, p.5.

Fotos: acervo da família do pastor Álvaro Motta

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