domingo, 26 de junho de 2016

A inauguração do templo da AD no Brás

No dia 25 de janeiro de 1962, São Paulo estava em festa. Era 408º aniversário de fundação da cidade. Comemorações em diversos pontos da metrópole eram feitas. Mas no famoso bairro operário do Brás, localizado na região central da metrópole paulista, a festa era outra. Ocorria a inauguração do templo da AD Ministério de Madureira.

Ainda de madrugada, ônibus lotados de entusiasmados fiéis chegavam para o grande evento. Bandas musicais começaram a tocar a alvorada pelas ruas do movimentado bairro paulistano, antecipando assim as grandes festividades. Por volta das 14 horas, na Praça da Sé, uma grande multidão seguiu em cortejo ao novo templo.

Pastor Álvaro e filhas: prontos para o desfile da inauguração

À frente, uma vistosa banda musical (com mais de 200 componentes) abria o caminho. Atrás, pastores, evangelistas, presbíteros, diáconos, banda feminina, assistentes sociais, membros do coral e mais de 10 mil crentes seguiam em desfile até à rua Major Marcelino.

Chegando em frente ao novo templo foi executado o Hino Nacional. Pastor Álvaro Motta, responsável pela igreja, num gesto de reconhecimento ministerial entregou a chave da porta principal para Zélia Macalão, esposa do pastor Paulo Macalão que por motivo por questões de enfermidade não esteve presente. Zélia corta a fita simbólica e abre as portas do templo para alegria de todos.

Foram muitos os convidados para a grandiosa inauguração. Praticamente todos os principais pastores de Madureira se fizeram presentes nas celebrações. Da AD Missão, Lídia Nelson representava o seu esposo, o missionário Nels Nelson. Pastor Francisco Pereira do Nascimento da AD em São Cristóvão (RJ) também marcava presença. Ministros evangélicos de outras denominações também prestigiaram o evento como o pastor Natanael Quintanilho da Igreja Metodista e secretário da Sociedade Bíblica do Brasil.

Interior do templo da AD no Brás

Durante os 17 dias de festa, estudos bíblicos foram ministrados com o sugestivo tema "Queremos conservar o modelo da Igreja Primitiva". Cícero Canuto de Lima, Alfredo Reikdal, Eduardo Modesto, Eurico Bergstén, Nicodemos José Loureiro entre outros ministraram na ocasião.

Para à época, a construção da sede no Brás era arrojada e moderna. Com dois amplos pavimentos, o térreo media 10x12 metros e contava com secretaria, sala de assistência social, tesouraria, cozinha, banheiros masculinos e femininos. No segundo piso, havia uma nave medindo 10x35 metros, com duas galerias na área frontal e mais uma nos fundos para o coral. No 1º púlpito havia lugar para 40 obreiros e batistério. No 2º púlpito o espaço era para 60 pastores. A torre de 30 metros e o relógio eletrônico chamava a atenção dos moradores do bairro.

Antigo templo do Brás: imponente obra

Edificado em 2 anos e meio (exatamente 2 anos, 6 meses e 12 dias), o templo da rua Major Marcelino destacava-se por sua imponência em meio ao casario do bairro, simbolizando à ascensão da igreja de Madureira em São Paulo e o dinamismo do seu ministério. A AD no Brás ganhava mais visibilidade. 

Tempos depois, A AD no Belém (SP) reclamou nas páginas do Mensageiro da Paz "ser uma grande desconhecida", pois não objetivava "fazer propaganda" do seu trabalho. Seria um efeito colateral das realizações e divulgação dos trabalhos da AD no Brás? 

Após 44 anos de utilização do templo, em 2006, a sede do ministério foi transferida para a avenida Celso Garcia. Começou um novo tempo para o ministério da Brás com grande crescimento, avivamento e realizações. Pelo menos é isso que dá a entender seu mais recente líder... 

Fontes:

MENSAGEIRO DA PAZ. Rio de Janeiro: CPAD. Ano 32, n. 7. 1ª quinzena de abril de 1962, p. 5-6.

MENSAGEIRO DA PAZ. Rio de Janeiro: CPAD. Ano 32, n. 16. 2ª quinzena de agosto de 1962, p. 5.

Fotos: acervo da família do pastor Álvaro Motta

terça-feira, 21 de junho de 2016

Gideões Missionários da Última Hora - história e polêmicas

Recentemente, o jornal O Globo publicou uma matéria especial intitulada A fé que move as cidades. Segundo o periódico carioca, 334 municípios no Brasil em alguma época do ano recebe milhares de turistas religiosos. Muitas dessas cidades, além de duplicar sua população em um único fim de semana, tem sua economia movimentada expressivamente nos eventos.

O Globo citou como exemplos de intenso turismo religioso católico as cidades de Aparecida (SP), Belém (PA), Juazeiro do Norte (CE), Trindade (GO), e do lado espírita Palmelo e Abadiânia no interior de Goiás.

Não há citação aos eventos evangélicos, mas o crente bem informado, ao ler matéria logo vai lembrar do "maior evento missionário do Mundo", o Gideões Missionários da Última Hora (GMUH). Realizado há 34 anos na cidade de Camboriú (SC), o GMUH é uma organização paraeclesiástica ligada à Assembleia de Deus local, presidida pelo veterano pastor Cesino Bernardino.

Pastor Cesino ao assumir a igreja de Camboriú em 1977, o campo contava apenas com 600 membros e estava em crise espiritual e financeira. Para solucionar os problemas, Bernardino colocou os membros em campanha de oração, e organizou uma equipe de obreiros para ministrar na congregações sobre o batismo no Espírito Santo.

O sucesso da campanha, dentro e fora de Camboriú, mais algumas profecias indicando que naquela pequena cidade uma grande obra se formaria, levou Cesino a criar no início da década de 1980 o 1º Encontro de Missões. Os encontros cresceram de forma extraordinária, atraindo pessoas de várias partes do Brasil.


GMHU nos anos 80: ainda era calma a romaria de fieis

A princípio, o congresso enfrentou resistências. Porém, diante de eloquentes pregadores e de cantores carismáticos, somado às emotivas apresentações dos jograis com mensagens missionárias, muitos crentes de outras regiões acabavam por financiar o GMUH.

Contribuía também para a expansão do Gideões o programa de rádio Voz Missionária, onde Cesino, e uma boa equipe de comunicação apresentava relatórios e divulgava ainda mais o trabalho durante todo o ano. Assim, mais e mais pessoas se comprometiam com o GMUH.

Todavia, não tardou a surgir oposições ao projeto missionário. Afinal, as ofertas enviadas pelos crentes poderia muito bem ir para o caixa das igrejas locais. Essa tensão sempre era explicitada por Bernardino nos congressos, e servia de combustível para a expansão do departamento. Com o tempo, o GMUH começou a fazer parcerias com igrejas e ministérios, e estendeu suas ações com obras sociais de suma importância.


Cesino e Reuel: sucessão garantida

Aliás, pastor Cesino Bernardino era um obreiro conservador em termos de usos e costumes. Deixava bem claro que não enviaria missionários fora dos padrões de "santidade" das ADs. Era (e ainda é) um líder amado e respeitado pela AD em Camboriú. Revelava de púlpito nos congressos as lutas familiares que enfrentava com filhos desviados da igreja.

O congresso missionário, a cada ano, atraía mais gente por diversos motivos. Para muitos preletores, o convite para pregar no GMUH seria o ápice do ministério. Aos cantores seria uma excelente vitrine para divulgação dos seus produtos. E para muitos políticos (crentes ou não) estar em Camboriú era sinal de visibilidade e possíveis votos.

Para a cidade, o GMUH gerou um belo incremento na renda comercial. A arrecadação para o município de Camboriú nos anos de 2010 a 2014 através da denominada "Taxa Gideões" cresceu 671%. Isso sem contar, os vendedores ambulantes e alugueis de casas e apartamentos na região.

Porém, nada é perfeito neste mundo. Com o passar dos anos, o famoso congresso se tornou alvo constante de polêmicas. Para os estudiosos mais sérios, O GMUH é um foco de heresias e modismos. Métodos questionáveis de arrecadação financeira são utilizados durante os dias de festa. O próprio Cesino confessou publicamente a existência de drogas, álcool e prostituição entre os cantores e pregadores convidados. Algo lamentável.

Na esteira das mudanças veio o nepotismo. Depois de ter vários vice-presidentes, Bernardino encontrou o sucessor no filho Reuel Bernardino. Um dos seus netos é cantor, apresentador do programa de TV e também encontrou na organização seu abrigo. Outros parentes agregam-se na instituição. Enquanto isso, pioneiros do GMUH reclamam do esquecimento. 

Nota-se certo culto à personalidade nessa fase dos Gideões. A figura do filho está sempre colada ao lado do pai. Os gestos e as práticas do herdeiro são semelhantes ao do patriarca. Tudo devidamente divulgado pelos meios de comunicação do grupo. 

Fica a dúvida: Reuel, além da igreja e do Gideões, herdará também o carisma do pai?

Fontes:

PAGANELLA, Umberto Grando. O Congresso dos Gideões Missionários: turismo religioso? Um estudo das interferências na infraestrutura viária e na paisagem urbana da área central de Camboriú (SC) durante o evento. Dissertação de Mestrado - Universidade do Vale do Itajaí (Univali).

www.ieadcamboriu.com.br/historico/

www.gideoes.com.br/historia

sexta-feira, 17 de junho de 2016

"Em ritmo de Brasília" - a construção do templo no Brás

Iniciado em 1938 na cidade de São Paulo, a Assembleia de Deus - Ministério de Madureira rapidamente se espalhou pelo interior do estado e, no ano de 1962, o trabalho contava com 12 mil membros em comunhão.

Ao assumir a direção da igreja em agosto de 1954, o pastor Álvaro Motta percebeu que era o momento de empreender a construção de um templo à altura do desenvolvimento do ministério. No dia 29 de junho de 1959, foi lançada a pedra fundamental do novo templo sede da AD no Brás.

Pastor Motta e crentes da AD no Brás: dedicação ao trabalho

Conforme o pastor Motta em seu depoimento ao Mensageiro da Paz, alguns fatores contribuíram para o sucesso da custosa empreitada: franca aceitação de todo o ministério ao desafio lançado, colaboração de um bom grupo de profissionais, fidelidade nas contribuições financeiras dos membros e acima de tudo oração.

Como toda obra de envergadura, não faltou oposições e críticas. Pastor Álvaro destacou que "surgiram os Tobias, os Sambalates afim de retardar a obra, ou mesmo impedi-lá definitivamente". Descritos na Bíblia como inimigos dos judeus, Sambalate e Tobias tentaram sabotar o esforço de reconstrução dos muros de Jerusalém empreendido por Neemias. Fica a dúvida sobre a identidade dos opositores. Seriam eles internos ou externos ao ministério de Madureira?

Construção do templo no Brás: empenho dos irmãos

Dentro do templo durante a fase de acabamento, pastor Motta chegou a colocar uma pequena placa com a contagem regressiva para o término da construção que dizia: "atenção Tomés - faltam - dias", e abaixo ficava exposto o número indicando os dias de prazo para a inauguração. 

A primeira etapa da obra ficou pronta em 10 de julho de 1960; apenas 12 meses depois da iniciado os trabalhos. Pastor Motta planejou uma grandiosa festa de inauguração do primeiro pavimento. Durante 15 dias, a igreja do Brás e suas congregações participaram de uma extensa programação.

Prestigiando o evento, se fez presente o líder de Madureira Paulo Macalão, que presidiu a convenção estadual realizada por aqueles dias. As bandas musicais do Rio de Janeiro e de São Paulo abrilhantaram as festividades, e um grande batismo em águas se realizou com 552 candidatos. 

Pastor Motta: desafiando os "Tomés"

Empolgado, pastor Álvaro previa a inauguração do templo para o ano de 1961. "Estamos construindo no ritmo de Brasília" - declarou ele ao Mensageiro da Paz. Parece que o clima de otimismo e ousadia do governo JK estava inspirando à superação aos desafios da construção. Afinal, se Brasília era a síntese da modernidade buscada pelo governo federal, o templo no Brás seria a materialização e a evidência do sucesso do ministério de Madureira em São Paulo.

É bom lembrar, que naqueles dias na capital paulista, outras ramificações pentecostais disputavam espaço pela preferência popular. Manoel de Mello, e a Cruzada Nacional de Evangelização (futura IEQ) estavam causando sensação e arrastando multidões para suas reuniões. 

Pastor Motta não estava alheio a tudo isso. Então, para fazer frente à concorrência, empregava seus esforços na divulgação da AD no Brás. Porém, talvez sem perceber, tenha despertado ciúmes entre seus pares.

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007. 

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: a expansão das Assembleias de Deus no Brasil urbano (1946-1980). 2015. Faculdade de Ciências e Letras, Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Assis, 2015.


MENSAGEIRO DA PAZ. Rio de Janeiro: CPAD. Ano 30, n. 19, 1ª quinzena de outubro de 1960, p.7.


Fotos: acervo da família do pastor Álvaro Motta

sábado, 11 de junho de 2016

Relembrando a história da AD no Brás

O historiador inglês Erick Hobsbawm (1917-2012), em seu clássico livro Era dos Extremos, comenta que uma das características mais lúgubres da sociedade moderna é a "destruição do passado" e dos  dos mecanismos sociais que vinculam nossa experiência social à das gerações passadas". 

Para Hobsbawm, as novas gerações "crescem num presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem". Em outras palavras, a sociedade pós-moderna com seu consumismo exacerbado e imediatista, pouco valoriza a história. Afinal, o importante sempre é o presente e o futuro, que logo se materializa em novos e modernos produtos.

Algo semelhante ocorre em muitos ministérios das ADs no Brasil. Novas gerações de obreiros ávidas por suceder seus protetores, somado ao egocentrismo de muitos líderes especializados em marketing, tem provocado um verdadeiro "esquecimento" de tudo o que foi realizado antes pelos crentes mais antigos.

Antiga sede da AD no Brás nos anos de 1950

Um dos casos mais emblemáticos é da AD no Brás em São Paulo. Nascida sob o signo da polêmica, o Ministério de Madureira na pauliceia passou por uma fase áurea e empreendedora na gestão do pastor Álvaro Motta entre os anos 50/60 do século passado.

O bairro do Brás, antigo reduto de imigrantes italianos, cortado por importantes ferrovias, começou a receber na década de 1940 uma grande massa de migrantes nordestinos. Assim, implantada nessa favorável região de trabalhadores da construção civil e operários, a AD cresceu velozmente.

Pastor Lupércio lendo o breve histórico da AD no Brás

Pastor Álvaro Motta assumiu a denominação nesse contexto. Antes dele, Sylvio Brito, Samuel Ramalho, Antônio Alves dos Santos e Otávio José de Souza foram pastores da igreja. A partir de 1954, Motta percebendo todo o potencial de crescimento da congregação investiu em grande eventos evangelísticos na capital. Batismos grandiosos em locais públicos, e campanhas evangelísticas memoráveis faziam parte de estratégia para dar visibilidade à igreja.

Multiplicando-se o número de fieis, pastor Motta planeja então construir um novo templo. Tinha referências para isso: Paulo Macalão, em 1953 havia edificado uma portentosa construção em Madureira no Rio de Janeiro. Álvaro dá início à construção da nova casa de oração: um desafio lançado e empreendido por todo o ministério de Madureira em São Paulo.

No dia 29 de junho de 1959, todo o  ministério da AD no Brás se reuniu para o lançamento da pedra fundamental do novo templo. Estavam presentes no dia vários obreiros e lideranças de Madureira. A irmã Zélia Macalão, na ocasião relatou sobre o início da obra e das dificuldades dos primeiros crentes.

O deputado João Hornos e Paulo Macalão: dia de festa

Realmente, não deve ter sido fácil para o irmão dela, o pastor Sylvio Brito romper com a AD pioneira na cidade, e abrir outro trabalho evangélico. Devem ter sido muitas as críticas e pressões para o encerramento da aventura ministerial. Brito, primeiro pastor nativo da AD em São Paulo foi banido da história da AD ligada à Missão Sueca.

Expressaram ainda seu contentamento no memorável dia, o pastor Paulo Macalão, que deve ter se sentido agradecido a Deus por ter investido na abertura do trabalho, mesmo causando um grande mal estar com à Missão. O deputado batista João Hornos Filho também marcou presença e deixou sua saudação.

Um momento marcante, foi quando o secretário da igreja, Lupércio Vergniano (futuro pastor da AD no Brás) leu um breve histórico da igreja. O documento foi colocado numa urna "como memorial para gerações futuras". A preocupação com a história era bem maior...

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: a expansão das Assembleias de Deus no Brasil urbano (1946-1980). 2015. Faculdade de Ciências e Letras, Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Assis, 2015.

MENSAGEIRO DA PAZ. Rio de Janeiro: CPAD. Ano 29, n. 21, 1ª quinzena de novembro de 1959, p.5.

Fotos: acervo da família do pastor Álvaro Motta