quinta-feira, 26 de maio de 2016

A difícil arte de "inspirar amor"

Segundo os melhores dicionários, o verbo namorar significa: esforçar-se para conseguir o amor de; cortejar, galantear, atrair, cativar, inspirar amor a, seduzir. Namorar, portanto, é (ou deveria ser)  o primeiro passo para o casamento.

Teoricamente, essa bela fase juvenil deveria ser só de romantismo. Mas para muitos jovens das ADs, esse período de "inspirar amor" era acima de tudo, submeter-se a uma série de regras. Os jovens crentes do século XXI, não imaginam as dificuldades dos antigos casais para se namorar.

As ADs em Santa Catarina são um bom exemplo dos tempos de rigidez. Na década de 1950, a mocidade catarinense era submetida a diversas normas para um namoro "santo". As instruções oficiais da igreja eram impostas e divulgadas aos seus membros. Caso não fossem obedecidas, resultavam em penalizações.

Segue ao leitor algumas das recomendações aos enamorados:

1. O namoro (bem como os dias da semana) são permitidos para aqueles que pretendem se casar, caso tenham idade suficiente. Namoro só por passatempo é pecaminoso.

2. Namoros só na presença de acompanhantes.

3."Carícias" são consideradas carnais e pecaminosas.

4. Namoro com pessoas não crentes é considerado pecaminoso, e equivale a abandonar Deus.

5 Aqueles que praticam essas coisas são considerados rebeldes e, portanto, sujeitos à exclusão da igreja.

6. Nada disso proíbe uma conversa amigável entre os jovens de ambos os sexos. Existe claramente uma diferença entre conversa saudável e namoro. Conversas saudáveis ​​não precisam estar em segredo. Não precisa haver datas fixadas para uma conversa saudável.

O jovem casal de noivos Nordlund: exigência de acompanhante

Para os que acharam as regras muito rígidas é bom lembrar: não era só a igreja que estipulava normas para o namoro. A sociedade secular como um todo exigia muito respeito nesse tipo de relacionamento.

A historiadora Jeisa Rech em seu livro Memórias sobre namoros em Joinville na década de 1950, comenta sobre as exigências de discrição e posturas adequadas impostas aos jovens desse período. Segundo Rech, os namoros das chamadas "moças de família" deveriam ocorrer dentro de casa sob estrita vigilância dos pais, com dias e horários estabelecidos. Passeios só com acompanhantes, e "prazos" para os  futuros casamentos eram estipulados. Como se percebe, nada muito diferente do namoros dos crentes.

Ainda segundo a pesquisadora "Os indivíduos não podem ser analisados isoladamente; suas relações refletem o meio social em que vivem, e os perfis de comportamento masculino e feminino definem-se em função um dou outro e pelo grupo social."

Sendo assim, percebe-se que as exigências da igreja apenas refletiam as normas de conduta da sociedade conservadora da época. As ADs estavam inseridas no contexto social e condenar os antigos líderes por esse regime "talibã" é desconhecer a história social e cultural do Brasil.

Contudo, com relaxamento dos costumes a partir da década de 1960, e a urbanização crescente do país, os tradicionais hábitos familiares também aos poucos foram cedendo. E, enquanto a sociedade se abria à modernidade, as ADs temendo as transformações em curso fecharam-se ainda mais.

Com maior ou menor grau de exigências, as famílias evangélicas ainda observam certas normas para essa fase de romantismo juvenil. Mas as radicalizações são cada vez mais raras. Os excessos, porém, permanecem nas memórias dos veteranos irmãos que, conseguiram em nome do amor, vencer as severas restrições daqueles tempos. 

São histórias dentro da história. Cada um conta a sua aventura na difícil tarefa de "inspirar amor".

Fontes:

ALENCAR, Gedeon Freire de. Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011. Novos Diálogos: Rio de Janeiro, 2013.

RECHE, Jeisa. Memórias sobre namoros em Joinville na década de 1950. Joinville, SC: Editora Univille, 2010.

Um comentário:

  1. A sociedade brasileira de outrora poderia ser bastante conservadora, mas a moral brasileira é católica, graças a Deus, fundada nas categorias do ser da sabedoria perene aristotélico-tomista. Diferentemente da moral de grupos minoritários e sectários como os protestantes ou certos protestantes como vocês pentecostais e pietistas de inspiração puritana e calvinista que seguem uma moral que nada deixa a dever ao que seja moderno por ser kantiana desvinculada de qualquer conhecimento da realidade, mas apenas a regra pela regra, o imperativo categórico. Ou seja, eis a vida dura do protestante nadando no magma irracional, não se pergunta em que consiste esse tal senhor que manda obedecê-lo, e legalista de seu fideísmo moralista.

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