sábado, 16 de abril de 2016

Pastor-presidente - críticas ao modelo

Como já foi observado na postagem anterior, a nomenclatura "pastor-presidente" começou a ser usada dentro das ADs por volta de 1959. Em 1950, Paulo Leivas Macalão é denominado "pastor geral" do campo eclesiástico de Madureira.

Dados da época confirmam esse título. A edição de setembro de 1955 da revista Subúrbios em revista relata que "o trabalho sob a jurisdição do Pastor Paulo Leivas Macalão, está constituído por um ministério de 37 pastores, 170 presbíteros, 60 evangelistas e mais de 1.200 diáconos e auxiliares de trabalhos." Além do Rio de Janeiro, 0 ministério de Madureira já estava presente em São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Paraná e Espírito Santo; com um número estimado de 50 mil membros em comunhão.

Macalão, centralizador e precavido, percebendo as tensões latentes em decorrência da notável expansão da obra, resolveu em 1958 criar a Convenção Nacional de Madureira, assegurando unidade ao trabalho diante da visível fragmentação ocorrida em outros ministérios. Porém, as ações do carismático líder carioca foram alvo de contestação dentro das ADs.

Alcebiades Pereira Vasconcelos, que na época liderava a AD em São Cristóvão (RJ), e havia enfrentado oposições do presbitério local antes de dar autonomia as suas congregações, criticou nas páginas do Mensageiro da Paz (1ª quinzena de novembro de 1959), as tendências centralizadoras e oligárquicas da denominação.

 Alcebiades: critícas ao modelo hierárquico das ADs

No artigo Algo com respeito ao governo eclesiástico, Vasconcelos denuncia o sistema hierárquico criado nas igrejas chamando-o de "pequeno sinédrio". Para o "escaldado" pastor, o modelo adotado nas ADs desconfigurava "a feição bíblico-congregacional da igreja, de governar-se a sim mesma através do consenso cristão do voto unânime ou pelo menos da maioria dos seus membros."

Após criticar o presbitério (em sua biografia ele fala dos muitos embates com esse grupo de obreiros), e o distanciamento do sistema congregacional,  Alcebíades aponta sobre o perigo da criação dos cargos de "pastores-presidentes". Conforme arremata o veterano obreiro "criado e estabelecido a inovação de pastores-presidentes, começou a surgir em alguns setores outro grau da nossa avultada hierarquia - o de pastores gerais (pastores de pastores)".

Alcebiades Vasconcelos reconhece que alguns líderes eram chamados de "pastor geral" em reconhecimento e gratidão ao trabalho feito em uma determinada região; "agora, porém, não mais por motivo de gratidão, mas por decreto, por força estatutária, já há alguns na Assembleia de Deus, pelo menos um pastor-geral com caráter nacional. O que vemos nisso senão que estamos a um passo só de um papado pentecostal brasileiro?" Irônico, Alcebiades ainda complementa: "Daí à infalibilidade , é apenas um salto, e talvez não muito grande, porque os profetas estão ai mesmo para proclamarem a inovação!".

Assim, através das observações do antigo líder da AD em São Cristóvão percebe-se que, a construção do episcopado assembleiano não foi feito sem ressalvas e previsões pessimistas. Além de se distanciar do sistema congregacional, a consequência desse novo modelo gerava uma elite eclesiástica com muitos poderes sobre à igreja. A vitaliciedade dos "bispos" assembleianos seria apenas um efeito colateral. Macalão fez escola...

PS: o texto do evangelista e blogueiro Daladier Santos também é muito apropriado para as reflexões sobre o tema. Acesse http://www.daladierlima.com/uma-analise-sobre-vitaliciedade

Fontes:

ALENCAR, Gedeon Freire de. Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011. Novos Diálogos: Rio de Janeiro, 2013.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

CORREA, Marina Aparecida Oliveira dos Santos. Assembleia de Deus: Ministérios, carisma e exercício de poder. São Paulo: Fonte Editorial, 2013.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.


FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo. In: ANTONIAZZI, Alberto. Nem anjos nem demônios; interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.


Mensageiro da Paz, 1ª quinzena de novembro de 1959. Rio de Janeiro: CPAD, p.2.

VASCONCELOS, Alcebíades Pereira; LIMA, Hadna-Asny Vasconcelos. Alcebíades Pereira Vasconcelos: estadista e embaixador da obra pentecostal no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2003.

3 comentários:

  1. Houve um tempo...
    Profetas alertaram!!!
    O resultado de não ter dado ouvidos é o que temos visto e ouvido, Brasil afora!!!
    Triste e lamentável!!!

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  2. Obrigado pela menção. E assim vamos caminhando. Se nada der errado, teremos mais do mesmo na presidência da CGADB, a entidade que deveria dar exemplo.

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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