sábado, 23 de abril de 2016

Adriano Nobre: o pioneiro da Assembleia de Deus em PE

* Por Altair Germano

É interessante como a história é passiva de manipulações e omissões, refém dos interesses pessoais ou coletivos de quem a conta. Joel Carlson não foi, como muitos afirmam, o pioneiro das Assembleias de Deus em Pernambuco. Este mérito pertence a Adriano Nobre, “um crente presbiteriano, filho de seringalistas paraenses e comandante de navio da Companhia Port of Pará” (DANIEL, 2004, p. 73). Observe o que nos narra alguns historiadores:
Adriano Nobre
Como ocorreu em tantos outros lugares do Brasil, Pernambuco também recebeu as primeiras chamas do Movimento Pentecostal graças ao espírito evangelizador e o pioneirismo que caracterizaram o trabalho da igreja em Belém do Pará. Foi graças à larga visão espiritual daquela igreja que um de seus membros, Adriano Nobre, foi enviado a Recife, em 1916, com o objetivo de testificar de Jesus e verificar as possibilidades de estabelecer um trabalho de evangelização na capital de Pernambuco. […] Em uma dessa visitas ele encontrou um crente chamado João Ribeiro da Silva, que pertencia a outra denominação. […] João Ribeiro creu na promessa pentecostal e começou a buscá-la. Dessa data em diante os cultos passaram a ser realizados na casa de João Ribeiro, à Rua Ponte Velha, 27, no bairro dos Coelhos. […] Porém, em 1917, Adriano Nobre batizou nas águas do rio Capibaribe duas pessoas, a irmã Lulu e o irmão Francisco Ramos. Foi esse o primeiro batismo de crentes da Assembléia de Deus efetuado em Pernambuco. Logo depois a irmã Lulu foi batizada com o Espírito Santo; a primeira, portanto, no Estado de Pernambuco. […] Adriano Nobre voltou ao Pará, e os poucos crentes que havia em Recife sem assistência espiritual. José Domingos, que também pertencia a Assembléia de Deus em Belém, e tinha ido trabalhar em Jaboatão, voluntariamente prestou alguma assistência ao novel rebanho, dirigindo a Escola Dominical e os cultos à noite. No princípio, em 1918, o missionário Otto Nelson, que trabalhava em Alagoas, visitou Recife e efetuou o segundo batismo nas águas. Os batizados foram as irmãs Felipa, Mariquinha e João Ribeiro, o ‘anfitrião’ da igreja que iniciava suas atividades” (CONDE, 2003, p. 141-142)
Observe que Emílio Conde reconhece o trabalho de Adriano Nobre, já como atividade da Assembléia de Deus no Estado. Em sua obra “História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil”, Silas Daniel escreve que:
Foi Adriano Nobre quem também ministrou aos pioneiros as primeiras lições de língua portuguesa, tendo se tornado depois um obreiro valoroso a serviço do Movimento Pentecostal. Ele, por exemplo, antecedeu o missionário Joel Carlson em Recife, tendo evangelizado aquele Estado de 1916 a 1918, chegando a batizar dois crentes no Rio Capibaribe, entre eles airmã Luli Ramos. Em 1933, porém, já havia algum tempo que Nobre se envolvera com novas doutrinas. (DANIEL, 2004, p. 73-74)
Silas Daniel também confirma o pioneirismo de Adriano Nobre, declarando que ele “antecedeu o missionário Joel Carlson em Recife”. Vejamos também, o que escreveu o pastor Eraldo Omena, ministro da Assembléia de Deus em Recife:
Quando tudo parecia fomentar a continuidade de uma situação mórbida e sem perspectiva de vida, os pernambucanos tiveram a felicidade de ver chegar à capital de seu Estado um servo de Deus procedente de Belém do Pará, chamado Adriano Nobre, que servia ao Senhor, como cooperador do missionário Gunnar Vingren, e pregava o evangelho às polpulações justafluviais da bacia amazônica. […] Enviado pelo missionário Gunnar Vingren, Adriano Nobre chegou a Recife, capital do Estado de Pernambuco, no ano de 1916, com o objetivo de anunciar o evangelho pleno, por ter em seu contexto a doutrina sobre os dons espirituais e as orações proferidas em grupo, também era chamado de Movimento Pentecostal. (OMENA, 1993, p. 10-11)
O pastor Omena confirma também os fatos, afirmando que Adriano Nobre foi enviado por Gunnar Vingren. Dou ênfase a isto, em virtude de haver uma tentativa de se fazer uma ligação direta da origem da Assembléia de Deus em Pernambuco com a Igreja Evangélica Filadélfia em Estocolmo, Suécia, sem passar pela Igreja em Belém do Pará.

Araújo (2007, p. 156) é enfático ao afirmar que Joel Carlson e sua esposa Signe, chegaram ao Pará em 12 de janeiro de 1918, enviados pela Igreja Filadélfia de Estocolmo, Suécia, e que “depois de terem estudado o idioma e se acostumado um pouco com a cultura e os costumes do país, viajaram, em 14 de outubro, para Recife (PE), onde substituíram o pioneiro Adriano Nobre, que havia sido enviado, dois anos antes, pela AD de Belém, para iniciar a AD local.”

Omena (1993, p. 13) confirma: “[…] tendo retomado o destino, desembarcou em belém do Pará, em janeiro de 1918, de onde foi enviado pelo missionário Gunnar Vingren para Recife, 9 meses depois.”

Na obra “Diário do Pioneiro” (CPAD, 2000, 5. ed., p. 150), escrita por Ivar Vingren, sobre a vida do seu pai, o missionário Gunnar Vingren, lemos que:
No princípio do mês de abril de 1928, Vingren viajou, com a esposa, para o Recife. Haviam sido convidados pelo missionário Joel Carlson. Esse querido irmão estava trabalhando agora arduamente naquele Estado, mas quem iniciara o trabalho ali fora o irmão Adriano Nobre, que se convertera no tempo que Vingren estava no Pará. Adriano Nobre foi também um dos evangelistas pioneiros da igreja em Belém do Pará.
Parece-me que alguns líderes estaduais aqui em Pernambuco, se sentem desonrados por serem também fruto da divisão da Igreja Batista de Belém, divisão esta que resultou na criação da Assembléia de Deus naquela cidade.

Parece-me também, que estes mesmos líderes esqueceram que os primeiros crentes da Assembléia de Deus em Pernambuco eram oriundos de outra igreja evangélica, em cuja casa, a Assembléia de Deus em Pernambuco iniciou os primeiros cultos, dando continuidade a esses cultos o missionário Joel Carlson:
Em 24 de outubro de 1918, 4 dias após a chegada do missionário Joel Carlson a Recife, teve lugar na residência do irmão João Ribeiro, sita na rua Velha, nº 27, bairro da Boa Vista, nesta cidade, a primeira reunião que fincou os marcos do Movimento Pentecostal em Pernambuco, com perspectiva de extensão por todo o Estado (OMENA, 1993, p. 14)
Perceba que por “primeira reunião”, Omena está se referindo à presidida por Joel Carlson, visto que: “Os primeiros cultos foram dirigidos (por Adriano Nobre em 1916) em casas de algumas pessoas […]. João Ribeiro e Filipa Ribeiro, residentes na Rua Velha, nº 27, bairro da Boa Vista, nas proximidades da antiga Ponte Velha, que liga os bairros da Boa Vista ao de São José” (Idem, p. 11)

É provável ainda, que o interesse no desconhecimento da história completa por parte de alguns, seja decorrente do fato de que o pioneiro das Assembleias de Deus em Pernambuco, Adriano Nobre, tenha posteriormente seguido “novas doutrinas”, vindo inclusive a ser afastado e não mais aceito na Convenção Geral das Asembleias de Deus no Brasil, conforme registra Daniel (2004, p. 74):
No texto, Nobre pedia a sua readmissão ao ministério. […] Depois de largamente debatida a questão, ’em um ambiente quase unanimemente contrário a readmissão de Adriano Nobre, ficou resolvido que não devemos fechar a porta das Assembleias de Deus a quem quer que seja, desde que os que querem voltar se mostrem arrependidos e renunciem a todos os erros passados’. […] A tal retratação nunca foi publicada. Adriano Nobre permaneceu desligado das Assembléias de Deus.
É amados, a história da Assembléia de Deus em Pernambuco, embora digna de todos os seus méritos, não é tão romântica quanto parece. Não é tão perfeita como se deseja apresentar. Não está isenta dos problemas que outras igrejas vivenciaram e vivenciam. O próprio Joel Carlson pensou em desistir do trabalho em Pernambuco:
O povo não demonstrava interesse pela Palavra de Deus. Um ou outro se convertia, mas não era o bastante para animar os missionários. Joel Carlson, nessa época, visitou a Paraíba e o Rio Grande do Norte, verificando que nesses lugares se convertiam muitas pessoas. Ficou tão entusiasmado com o que vira, que desejou mudar-se para um daqueles Estados. Ao retornar a Recife e comunicar a resolução a João Ribeiro, este o aconselhou, dizendo: "Não faça isso! Jesus fará uma grande obra também em Recife" (ARAÚJO, 2007, p. 156). Ver também CONDE (2003, p. 142-143).
Num recente artigo do Jornal Mensageiro da Paz (Órgão Oficial das Assembleias de Deus no Brasil), número 1.492, setembro de 2009, p. 27, assinado pelo pastor Isael Araújo, nos é informado que:
Em 1907 o despertamento pentecostal alcançou crentes metodistas e batistas em Estocolmo, a capital sueca. em 1909, mediante a situação em que muitos crentes batistas estavam se afastando de suas igrejas por aceitarem o batismo com o Espírito Santo, o comerciante batista Albert Engzell mobiliou um salão em sua residência, na Rua Uppsala 11, em Estocolmo, para servir como local de pregação. O grupo de crentes que começou a se reunir nesse local, chamado salão filadélfia, organizou-se, em 1910, como Sétima Igreja Batista de Estocolmo, tendo como pregador E. W. Olsson, da Escola Missionária de Örebro, que era totalmente a favor do despertamento pentecostal. E. W. Olsson, pouco tempo depois, desejou regressar a Örebro, a fim de dar prosseguimento a seus estudos. Assim, a igreja, que contava com 70 membros, considerou a necessidade de um pregador cheio do poder de Deus e com seriedade para continuar o trabalho. A escolha recaiu sobre Lewi Pethrus, que ainda servia como pregador na Igreja Batista de Lidköping. ele recebeu o convite em 14 de setembro de 1910, e assumiu o trabalho da igreja no ano seguinte, em 8 de janeiro de 1911, aos 26 anos de idade. No fim de 1913, a Convenção Batista Sueca expulsou ostensivamente Pethrus e toda a sua congregação, porque eles praticavam a ceia aberta. As reais causas de sua expulsão, porém, foram a teologia e a liturgia pentecostal. Surge então, a Filadefiakirkan (Igreja Filadélfia).
Lendo o texto acima, percebemos que assim como aconteceu no Brasil, com as Assembleias de Deus. a Igreja Filadélfia (que enviou o missionário Joel Carlson) nasceu dos problemas surgidos pela aceitação da mensagem pentecostal por parte de crentes e igrejas batistas, que culminaram com a sua expulsão. do ponto de vista batista, tais crentes e igrejas eram “rebeldes” e “hereges”.

Depois de todos esses fatos aqui narrados, concluímos afirmando que na Igreja de Jesus, há um só tronco legítimo, ele mesmo. O que sobra, são ramos. Somos todos ramos, meros ramos, misericordiosamente ramos, graciosamente ramos.

“Eu sou a videira verdadeira, vós, os ramos. Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer.” (Jo 15.5)


Pastor Altair Germano é casado com Elizabeth, pai de Alvaro e Paulo, é mestre em Teologia com Especialização em Ministério pelo Seminário Teológico Pentecostal do Nordeste (STPN), especialista em Educação Cristã pelo Seminário Presbiteriano do Norte (SPN), especialista em Psicopedadogia e licenciado em Pedagogia pela Fundação de Ensino Superior de Olinda (FUNESO), escritor, conferencista, Vice-Presidente do Conselho de Educação e Cultura da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB), missionário na Itália pela IEADALPE em Porto Mantovano, Lombardia, Italy.


Blog do Pr. Altair Germano (http://www.altairgermano.net/2008/10/adriano-nobre-pioneiro-das-assembleias.html)


Fontes:

- A memória do Saudoso Missionário Joel Carlson. Antonio Torres Galvão. TIPOGRAFIA OSÉIAS LIMA
– Diário do Pioneiro Gunnar Vingren. Ivar Vingren. CPAD.
– Dicionário do Movimento Pentecostal. Isael de Araújo. CPAD.
– História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Silas Daniel. CPAD.
– História das Assembléias de Deus no Brasil. Emílio Conde. CPAD.
– Mensageiro da Paz, ano 79, número 1.492, setembro de 2009, Isael de Araújo.
– Síntese Histórica da Assembléia de Deus em Abreu e Lima. Roberto José dos Santos, Altair Germano da Silva, Dário José de Souza e Esdras Cabral de Melo. FLAMAR
– Síntese Histórica da Assembléia de Deus em Pernambuco. Eraldo Omena. GRÁFICA FIGUEIRA E LEAL.

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