terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Um batismo memorável

No dia sete de setembro de 1959, data em que se comemora a Independência do Brasil, a cidade de São Paulo viveu momentos festivos. No vale do Anhangabaú a tradicional parada militar pelo dia da pátria reuniu cerca de 5 mil homens do Exército, Aeronáutica e Força Pública do Estado em desfile para milhares de pessoas.

Não muito distante do Anhangabaú, no Estádio Municipal do Pacaembu realizava-se "O Maior Espetáculo da Terra" promovido pela Associação Brasileira dos Proprietários de Circo. Cerca de 800 artistas circenses se apresentaram a um público ávido por ver palhaços, trapezistas, ciclistas e ginastas em grande performance. Mas, nem tudo foi perfeito. As apresentações que a princípio deveriam ocorrer às 15:30 horas, foram antecipadas para as 10 horas da manhã deixando muitos desavisados sem ver o grande show. Inconformados, populares protestaram com o descaso dos organizadores do evento.

Enquanto a frustração tomava conta de alguns, a alegria imperava em outro setor daquela mesma arena esportiva. No exato momento em que milhares de paulistanos protestavam no Pacaembu, a Assembleia de Deus do Brás - Ministério de Madureira realizava na piscina do estádio um alegre e impressionante batismo em águas com 559 candidatos de toda a região de São Paulo.

Batismo no Pacaembu: "maior batismo que o Brasil já assistiu"

Denominado no Mensageiro da Paz pelo pastor Álvaro Motta como "O maior batismo já realizado na América do Sul", o evento reuniu mais de 8 mil crentes. Com a colaboração da banda de música e do coral da igreja, pastor Motta registrou a forte atmosfera espiritual reinante: "Os milhares de Cristãos ali reunidos, à expectativa do grande acontecimento e, especialmente, a presença de Deus com o Seu povo, transformaram o ambiente em uma parte do céu aqui na terra. O ambiente estava saturado de santidade."

Diante de milhares de irmãos e líderes, os candidatos subiram ao tablado da piscina para serem fotografados e ouvirem a breve explanação do significado do batismo feito pelo pastor José Leite Lacerda. Segundo o pastor Motta "os 559 batizandos, irmãos e irmãs de todas as idades, todos vestidos de branco, ajoelhados em meio à multidão, formavam um quadro maravilhoso; parecíamos que tínhamos diante de nós aquela multidão que João viu, na visão descrita no Livro de Apocalipse."

Assim, em meio a lágrimas e louvores de gratidão a Deus, 09 pastores durante três horas e meia deram curso ao "maior batismo que o Brasil já assistiu". O evento por sua grandiosidade e emoção foi alvo de simpáticas matérias dos jornais Última Hora e Diário da Noite.

Do ponto de vista ministerial, o pastor Álvaro Motta conseguiu uma verdadeira façanha. Mobilizou todas as igrejas de São Paulo sob sua supervisão para uma celebração ímpar até aquele momento nas Assembleias de Deus no Brasil. Mas há um detalhe que não pode passar desapercebido: a constante utilização de espaços públicos na época considerados "mundanos" para reuniões religiosas.

O sociólogo Paul Freston analisou que "essa relação entre com o secular era novidade no pentecostalismo brasileiro." Para Freston, muitos crentes ainda se escandalizavam com "a mistura do sagrado com o profano". Locais como o Pacaembu eram "a síntese  da sociedade corrompida."

É digno de nota que, a Igreja O Brasil Para Cristo do missionário Manuel de Mello já havia utilizado o Pacaembu no ano anterior para cultos de cura divina. Assim como o mítico líder da Brasil Para Cristo, o pastor Motta com a grandiosa celebração do batismo em águas também chamou à atenção da mídia local para a igreja.

Naqueles dias em que o campo religioso pentecostal se diversificava e a concorrência eclesiástica era maior, a iniciativa do pastor da AD no Brás foi fundamental para maior visibilidade do Ministério de Madureira em São Paulo. Mesmo na conservadora ADs daqueles dias era mais do que necessário se contextualizar...

Fontes:

FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo. In: ANTONIAZZI, Alberto. Nem anjos nem demônios; interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.

Mensageiro da Paz. 1ª quinzena de novembro de 1959.

acervo.folha.uol.com.br - 08/09/10959

Um comentário:

  1. Olá Mario SÉRGIO, sou um assiduo leitor de suas materias, as vezes até me arrisco de dar meus pitacos, aqui e no face, muito boa suas publicações. Gostaria de sugerir uma materia sobre o grandioso campo de Carapicuiba (antes dele ter sido desfacelado,é claro) um abraço José Evaldo Tabosa Barbosa-São Paulo-SP

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