quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Um espectro ronda o Brasil

Um espectro ronda a Europa – o espectro do comunismo". Essa famosa frase do Manifesto Comunista escrito em 1848 por Marx e Engels, bem que poderia ser reescrito assim: "Um espectro ronda o Brasil  - o espectro do comunismo".

Antes, durante e depois das eleições presidenciais de 2014, principalmente nas redes sociais e em alguns blogs, a nação brasileira mais uma vez viu surgir esse velho fantasma. Conforme conhecido e apologista assembleiano, o país caminha para abraçar uma "ideologia gramscista, estalinista, hipermarxista, despótica, retrógrada, maquiavélica, antiamericanista, antissemita, anticristã e antidemocrática". Ou seja, rumamos para o caos socialista.

Medo do comunismo ressuscitado a cada eleição

Historicamente o discurso não é novo. No Brasil do século XX, essa falácia sempre foi um recurso das elites, quer o perigo da "invasão" comunista existisse ou não, para assegurar o status quo. Getúlio Vargas utilizou esse medo para dar o golpe do Estado Novo, onde implantou um regime fascista, de culto à personalidade e repressor. Em 1964, outro golpe foi desencadeado para "salvar" o país das mãos dos comunistas. Era o período da Guerra Fria, e novamente as nossa elites, juntamente com os militares, e com apoio dos EUA rasgaram a constituição e mergulharam o país em 20 anos de ditadura.

E os evangélicos? Os evangélicos, assim com boa parte da sociedade conservadora apoiou o golpe. Segundo Robson Cavalcanti, os evangélicos tornaram-se "sustentáculo" do regime. Da parte de algumas igrejas e lideranças houve até colaboração a repressão instalada nesses "anos de chumbo".

As Assembleias de Deus, representada na sua liderança não fugiu a regra, até porque os militares procuraram de muitas formas aliciar membros e pastores para se fortalecer. Nas páginas do Mensageiro da Paz encontra-se referencias elogiosas as autoridades que fizeram a "revolução" e salvaram o país do comunismo ateu.

Com a redemocratização ocorrida a partir da década de 1980, o velho fantasma do comunismo foi muito bem explorado. Nas eleições para a Assembleia Nacional Constituinte em 1986, nas eleições presidenciais em 1989 e, em momentos cruciais da vida política brasileira, os evangélicos foram e continuam sendo colocados diante desse falso dilema.

Aliás, um dos grandes problemas atuais é a simplificação de termos como "socialismo", "bolivariano" entre outros, e achar que o sistema capitalista é o melhor dos mundos. A sociedade, a economia e a política são muito mais complexas para se reduzir a certas simplificações, que são amplamente difundidas por setores da mídia conservadora.

O discurso do perigo comunista no Brasil é anacrônico, e fora de contexto. É desconhecer a pluralidade dos conceitos político-econômicos e da sociedade brasileira. Discordar das ações políticas de um governo é algo legítimo. A democracia se constrói no embate das ideias. Entretanto o nível dos debates nas redes sociais só mostra a grande despolitização dos nossos blogueiros de plantão.

Como diz certo colunista de um jornal, um bom livro de história ajuda muito nesses casos...

Fontes:

CAVALCANTI, Robison. Cristianismo e política. Niteroi: Editora Vinde, 1988.

FRESTON, Paul. Evangélicos na política: história ambígua e desafio ético. Curitiba: Encontrão Editora, 1994.

3 comentários:

  1. Prezado Mário Sérgio, desta vez discordo de você. De fato, já vivemos alguns elementos socialistas em nossa sociedade. Não há a ideologia entre os mais pobres, mas basta frequentar algumas aulas em universidades de sociologia e história, por exemplo, para que os conceitos sejam disseminados por supostos pensadores progressistas. Os políticos repudiam o capital, mas amam suas benesses. O Bolsa Família é a divisão do bolo, em muitos casos sem esforço do participante. O que mais falta? O partido único? Já o temos. Líderes corruptos como Lula são endeusados e tidos como intocáveis.

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  2. Aproveito para divulgar um link de meu blog sobre o assunto... http://daladier.blogspot.com.br/2014/09/convem-um-evangelico-ser-esquerdista.html

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