sábado, 6 de dezembro de 2014

Pastor Epaminondas e as "doutrinas ferozes"

No início dos anos 90, um pastor causou assombro no sul do país. Seus ensinamentos foram considerados esdrúxulos para a Assembleia de Deus, a qual passava por um período de transição, com muitos questionamentos sobre os chamados "usos e costumes" de santidade.

Porém, foi na Assembleia de Deus em Guaratuba, litoral norte do Paraná, que o pastor Epaminondas José das Neves, 72 anos, colocou em prática sua doutrina no mínimo exótica para a época: a autoexclusão. Entrevistado por Judson Canto, editor do jornal catarinense O Assembleiano, o líder paranaense especificou sua prática ministerial, na qual o membro da igreja não seria excluído pelo ministério, mas ele mesmo tomaria tal atitude diante do reconhecimento do seu pecado. Isso segundo o veterano pastor evitaria exposição pública e constrangimentos para a pessoa em erro e sua família.

O caso fica ainda mais curioso se considerarmos que o simpático ancião era o mais legítimo representante da "velha guarda" de obreiros assembleianos. Baiano de Caculé, Epaminondas com 21 anos de idade foi residir no Paraná. Convertido ao evangelho, foi separado ao ministério, segundo ele, por "carência", pois não "tinha qualquer cultura e nunca cursei um dia de escola", porém era adepto de "doutrinas ferozes".

Epaminondas: ex-seguidor de "doutrinas ferozes"
As "doutrinas ferozes" seria a obrigação das mulheres usarem vestimentas com "as mangas dos vestidos fechadas até o punho, e as saias bem abaixo dos joelhos". Os cabelos das irmãs também mereciam atenção do feroz obreiro, sendo que "podiam ser trançados, mas sem qualquer enfeite". Sapatos "só de salto baixo, e não podiam usar cinto". Os homens só podiam ir ao culto de terno e gravata. E caso o crente inventasse de tomar um simples guaraná ou refrigerante seria excluído sem piedade.

É ironico o momento da entrevista, na qual relata que certa vez encontrou os pastores catarinenses Satyro Loureiro, Artur Montanha e João Ungur no município de Ibiporã (PR), e ficou escandalizado com eles porque tomavam refrigerante num bar. "Esses catarinas não são crentes, não têm doutrina", pensou ele na ocasião.

Um dia porém, Epaminondas andava pelas ruas da cidade de Maringá" quando, de repente, uma espécie de relâmpago" foi ao seu coração. Segundo ele "Deus num momento me revelou que eu deveria deixar tudo aquilo". Ao expor a sua nova visão a outro pastor, revelou que daquele momento em diante a igreja teria "paz e sossego".

Dessa forma, o saudoso pastor resolveu ser mais "liberal" no seu tratamento com as ovelhas. Abandonou as "doutrinas ferozes" adotando a doutrina da autoexclusão. Como não poderia deixar de ser, num ambiente de amplo legalismo, suas ações foram alvo de fortes críticas na denominação. Contudo Epaminondas tinha bons resultados. Quando chegou a Guaratuba a igreja estava em franca decadência com pouquíssimos membros, e na sua gestão o trabalho prosperou com novos templos construídos e aumento considerável do número de membros e batismos.

A entrevista e as memórias do pastor Epaminondas José das Neves servem como reflexão sobre questões não muitas vezes lembradas pelos saudosistas dos velhos tempos. Casos de transgressões dos estatutos e da "doutrina" da igreja eram abertamente tratados na congregação. Por questões mínimas, um crente poderia ser disciplinado ou excluído, ao sabor do gosto ou desgosto pastoral. Muitos crentes tinham que conviver com um ambiente de rigoroso legalismo e fiscalização da vida alheia.

O conceito de autoridade também é colocado em questão na entrevista. O antigo líder relembrou que era respeitado porque excluía com rigor e "por ser autoritário". As vezes o autoritarismo era tanto, que alguns pastores excluíam um membro na rua mesmo, sem precisar de nenhum tipo de mediação. Como a "doutrina", muitos pastores eram "ferozes" com seus rebanhos. Mas eram outros tempos, e dentro do contexto social a igreja reproduzia as relações vigentes na sociedade, onde o conceito de líder era o de alguém implacável e ditador.

Hoje muitos líderes mudaram sua postura. Os casos de transgressão são tratados com muito mais humanidade e recato, até porque os riscos de processos são grandes. Mas o autoritarismo ainda permeia os valores do ministério assembleiano. A igreja modernizou-se, mas certas estruturas e a mentalidade ainda não.

Fontes:

O Assembleiano outubro/novembro de 1991. Ano II nº9, p.9.

9 comentários:

  1. Bom texto! Na época que saiu esta entrevista no jornal O Assembleiano, eu estava em Belém do Pará e ganhei um exemplar que tenho guardado até o momento. O fato é que nas décadas de 50 e 60, a maioria dos crentes assembleianos era de pouquíssima cultura, muitos eram analfabetos mesmos. Por essa razão, e por serem pobres e humildes na forma de andar, no comportamento em geral, tinham na pessoa do pastor, algo assim muito respeitoso, e quando o pastor chegava em algum lugar, era como se o próprio Deus estivesse chegando. Havia muito respeito nessa época com a autoridade pastoral. Por sua vez, o pastor que aprendeu com seu superior, que aprendeu com os missionários suecos, procurava manter aquela rigidez na administração da igreja. A manutenção a todo custo dos costumes adotados, fazia da Assembléia de Deus uma igreja diferente das demais denominações. Isso era bom até certo ponto, pois nessa década houve um grande crescimento da igreja. Por outro lado, a igreja recebia muitas críticas por causa dessa rigidez. Hoje, a cultura do povo se desenvolveu, a liderança também tem outra visão sobre essa questão "bons costumes", porém, a boa doutrina bíblica não mudou. Devemos seguir os mandamentos bíblicos, manter os bons costumes, mas sem exageros. Todo exagero tem que ser tirado. O radicalismo não leva a nada, o liberalismo também é prejudicial. É melhor ser equilibrado.

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  2. De nada adiantou a Assembléia (que era) de Deus por tantos anos ter uma Doutrina tão rígida e do dia para a noite ter aberto as portas para a prostituição em nome de aumentar os lucros com dízimos em ofertas.

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    1. Quem faz declarações no anonimato é digno de credito, por acaso? Mostre a cara, meu. Temos problemas, sim, senhor. Mas a graça de Deus continua para com aqueles que preservam a sã doutrina. E o céu não é para os praticantes do adultério, da mentira, do engodo, da roubalheira., da lascívia, da concupiscência e...
      No céu não entra pecado. Só os que lavaram as suas vestes no sangue do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Só

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    2. Outra, os dízimos foram sempre uma atitude da Igreja. Não para aumentar os lucros. Dízimo não é lucro. É fruto do trabalho do crente fiel a Deus . É fruto do lucro do dizimista. Mt 23.23..

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  3. na minha cidade , ela continua como: ASSEMBLEIA DE DEUS! E NAO HÁ NENHUMA PROSTITUIÇÃO NELA!

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  4. Graças a Deus Onde congrego a igreja continua a mesma como a biblia manda por que a Bíblia não mudou

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    1. O que não muda são as Sagradas Escrituras e o Deus que as Inspirou, dizer que a Assembleia de Deus não mudou ao longo desses anos, é querer tapar o Sol com a peneira.

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