sábado, 18 de outubro de 2014

CGADB de 1987 - as versões

O moderno e bem situado Centro de Convenções na cidade de Salvador (BA), foi o palco decisivo das disputas envolvendo as principais lideranças das Assembleias de Deus no Brasil. Com mais de três mil obreiros assembleianos inscritos, o conclave de 1987 foi o ápice das graves discordâncias entre os ministérios das ADs.

Duas chapas concorrentes, com dois líderes de expressão nacional. De um lado, o veterano e conceituado pastor Alcebiades Pereira Vasconcelos; do outro, Manoel Ferreira, um dos principais líderes do Ministério de Madureira. Em jogo vários interesses político-eclesiásticos.

É interessante, porém, conhecer as observações dos dois protagonistas daquela fatídica convenção. São relatos antagônicos, mas é importante saber o contexto para se ter um maior entendimento das declarações dos conhecidos líderes. Manoel Ferreira em suas memórias recorda que na CGADB de 1985, com a eleição da famosa chapa do consenso "ficou acordado também que a partir dali, em todas as Convenções, nós acharíamos um entendimento de representação. Madureira teria sua representação e eles teriam outra representação".

Segundo essa versão, naquela convenção (1987) só deveria haver uma chapa para ser apresentada e oportunamente ser aclamada em plenário. Em 1985, um presidente ligado a Missão foi eleito. Na CGADB na Bahia deveria ser eleito um presidente de Madureira. Ferreira conta que, ao chegar em Salvador, se deparou com uma chapa da Missão já montada, e sem nenhum representante de Madureira. "Nós fomos totalmente ignorados..." afirmou ele recordando os fatos.


Alcebiades e Ferreira: versões antagônicas para CGADB de 1987
Tomados de surpresa, e desorganizados para enfrentar os oponentes liderados por Alcebiades, os líderes de Madureira ainda testemunharam a omissão e o constrangimento de vários pastores da Missão, os quais viam o acordo de 1985 ser quebrado. Segundo essa versão apresentada pelo Bispo Ferreira, a apresentação da chapa ligada a Missão foi uma deslealdade, um golpe.

Porém há um detalhe. Um ano antes da CGADB de 1987, no Encontro de Líderes realizado em São Paulo, vários pastores postulavam a presidência da Convenção Geral. Nesse encontro, segundo Alcebiades foi decidido que ele seria o cabeça de chapa. Houve embates, e uma visita do então presidente da Convenção Geral, pastor José Pimentel de Carvalho foi feita a convenção de Madureira para amenizar os ânimos.

Além de confirmar que o acordo ratificado em 1985 não seria honrado, o Encontro de Lideranças em 1986 já apontava, segundo Vasconcelos, que haveria sim uma chapa concorrente. E o líderes de Madureira sabiam disso. Como explicar então a surpresa esboçada por Ferreira em suas memórias? Teria a Missão guardado em segredo esse plano durante meses, ou sabendo de tudo isso, Madureira foi para uma verdadeira quebra de braço com a Missão?

Manoel Ferreira, lembra com orgulho em seu depoimento, que após a morte de Paulo Leivas Macalão em 1982, o Ministério conseguiu se organizar e vencer a CGADB de 1983. Mesmo abalados com a morte de seu mítico fundador e desacreditados, a chapa de Madureira venceu, ainda que por margem mínima de votos. Não seria essa a tática a ser novamente posta em prática? Derrotar as tramoias inimigas e sair de Salvador engrandecidos como Ministério.

Pastor Alcebiades, relata em suas reminiscências sobre a polêmica convenção, o fato de que Madureira para vencer a eleição indicou dois reconhecidos pastores ligados a Missão em sua chapa e "lançou falação em propaganda a seu favor, de modo nitidamente político partidário". Segundo Vasconcelos os convencionais ainda "se defrontaram com a propaganda acintosa de pastor Manoel Ferreira, candidato à presidência pelo Ministério de Madureira, até na antecâmara do plenário da eleição".

Diante desse quadro, Alcebiades declarou usar como arma o silêncio e distribuiu um "pequeno impresso com os nomes dos candidatos integrantes da chapa". Afirmou ainda, que a CGADB daquele ano poderia ter "produzido melhores frutos" caso não fosse realizada com o "espírito político". É lógico que a narrativa de Vasconcelos é sua versão dos fatos, ou seja, contempla só uma lado da crise envolvendo os Ministérios das ADs.

Realmente, a Convenção de 1987, além de ser uma disputa de votos e influências, passou para a história como a guerra de versões. Cada lado procurando legitimar suas ações, dentro da complexa rede de interesses ministeriais. 

Fontes:


ARAÚJO, Isael de. José Wellington - Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FERREIRA, Samuel (org.) Ministério de Madureira em São Paulo fundação e expansão 1938-2011. Centenários de Glórias. cem anos fazendo história 1911-2011 s.n.t.


FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo. In: ANTONIAZZI, Alberto. Nem anjos nem demônios; interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.


VASCONCELOS, Alcebíades Pereira; LIMA, Hadna-Asny Vasconcelos. Alcebíades Pereira Vasconcelos: estadista e embaixador da obra pentecostal no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2003.

Mensageiro da Paz. Rio de Janeiro: CPAD, janeiro de 1985

Mensageiro da Paz. Rio de Janeiro: CPAD, junho de 1986

Mensageiro da Paz. Rio de Janeiro: CPAD, julho de 1986

Mensageiro da Paz. Rio de Janeiro: CPAD, março de 1987

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