domingo, 6 de abril de 2014

O testemunho do jovem Alcebíades

Alcebíades Pereira Vasconcelos (1914-1988), como se sabe, foi um dos pioneiros das Assembleias de Deus no Brasil. Ao morrer era reconhecido nacionalmente como um destacado pastor, escritor e conferencista. Do interior do Piauí, o menino nascido em Regeneração conheceu o mundo. Para homenageá-lo, sua filha Hadna-Ansy, publicou em 2003 pela CPAD a biografia do pai. Com o título de Alcebiades Pereira de Vasconcelos: Estadista e Embaixador da Obra Pentecostal no Brasil, a obra é a coletânea das memórias escritas do velho e saudoso pastor. Porém, esse blog quer trazer ao leitor outras memórias do pastor Vasconcelos.

Pastor Alcebíades: vocação evangelística
No ano de 1938, o jovem Alcebíades, enviou ao Mensageiro da Paz (1ª quinzena de novembro) na secção Testemunhos seu relato de conversão e os primeiros passos no trabalho de evangelização. Inicia seu testemunho intitulado de 18 anos no mundo e 5 em Cristo com as seguintes palavras:
Com pesar digo que estive 18 anos, e com prazer, que estou há 5 em Cristo. Si bem que tivesse procurado gozar aquele tempo, não podia me livrar das incertezas e falta de paz. Vivia sem fé, sem esperança e sem Deus; o pecado me oprimia. Sempre refratário à religião, não cria nos dogmas romanistas. Certo dia, encontrei um livro que antes nunca vira: a Bíblia. Era a verdade do céu, escrita aos homens, na terra. Em junho de 1933, me entreguei a Jesus, num culto pentecostal.
Em suas memórias (publicada pela CPAD), pastor Vasconcelos detalha que seu pai por influência evangélica era contrário ao batismo de crianças, sendo o próprio Alcebíades somente batizado na Igreja Católica aos 3 anos de idade. Outro detalhe: antes de começar suas leituras da Bíblia, Alcebíades e dois de seus irmãos haviam sobrevivido a uma epidemia de paratifo (uma infecção intestinal). Um casal de vizinhos evangélicos lhe visitaram, oraram por sua recuperação. Após 55 dias de febre, ainda em estado de recuperação, o jovem Vasconcelos teve uma visão a qual lhe impressionou profundamente. Somente ao passar por tais situações, o sempre cauteloso futuro obreiro, resolveu ler a Palavra de Deus.
Estando minha mãe congregada na Igreja Batista, eu fiquei com ela por 9 longos meses, até que, voltando certo dia a Assembleia de Deus (com sede), Jesus me selou imediatamente, no Espírito Santo, durante essa visita.  Foi isso em abril de 1934.
Não havia no município de Lagoa Nova (MA) nenhuma Assembleia de Deus. Alcebíades foi então por circunstâncias diversas visitar um amigo na localidade de Carrasco. No meio do caminho, ficou sabendo que o mesmo, o jovem Cristóvão, tinha recebido num culto pentecostal o batismo com o Espírito Santo. O pânico lhe tomou as entranhas. Havia sido doutrinado sobre o batismo no Espírito Santo de forma contrária pelos batistas. Mas o assunto do momento entre os crentes era o culto. Não havia como não saber das maravilhas realizadas. Seu conhecimento sobre os evangélicos assembleianos foi aumentando e, após contatos e observações in loco das experiências pentecostais, Alcebíades foi batizado com o Espírito Santo.

Não deixa de ser interessante essa parte do testemunho, pois revela como o novo crente era motivado, incentivado e orientado para ser "selado" com o chamado "batismo de fogo". Naquela época era assim: logo após a conversão o fiel era, ou por ensino ou convivência com outros crentes, a buscar ansiosamente a realidade pentecostal em sua vida.
Inúmeras foram as oposições lançadas contra mim mas, com Jesus pude vencer todas. Fui separado para evangelista e enviado para o campo das "lutas e vitórias". Agora dirijo uma congregação. Glória a Jesus!
Ainda na obra da CPAD, pastor Vasconcelos fala das oposições. Sua família, então congregando na Igreja Batista de Lagoa Nova não aceitou sua pentecostalidade. Houve tensões entre os familiares e na própria igreja onde frequentava. Acontece que para os batistas daquele lugar, a imagem que tinham de um pentecostal, era de alguém que em êxtase rolava, espumava e fazia caretas horrorosas. Algo que é claro, não acontecia com o jovem Alcebíades. Porém, com o tempo as coisas mudaram, e alguns familiares receberam a Cristo em cultos promovidos por obreiros da Assembleia de Deus. Sobre o fato de ser separado a evangelista, é importante ressaltar, que o jovem Vasconcelos relutou muito em aceitar sua chamada para ministério. Considerava-se despreparado e sem capacidade.

E ainda sobre o campo de "lutas e vitórias", segundo suas memórias coletadas por Hadna-Ansy, Alcebíades relata das dificuldade de adaptação, das febres provocadas pelo impaludismo, das longas distâncias percorridas e das lutas interiores e espirituais que colocavam em prova sua chamada ministerial. Bom retrato de uma época. A palavra campo tinha um significado muito diferente do de hoje...

Após esses relatos sucintos de sua conversão e chamada, o futuro presidente da CGADB assim conclui seu testemunho:
Amigo e leitor descrente, diante dessa experiência, crê e te entrega a Jesus, que também tem um trabalho para te confiar. Si te sentires fraco e incapaz de servir ao Senhor, pode saber que serás um bom servo, pois Ele não confia naqueles que se julgam fortes em sim mesmos. Irmãos orai por mim, pois há ainda muitas almas por salvar.
Desponta nas palavras finais do jovem evangelista a paixão pelas almas e o conceito de ministério. "Si te sentires fraco e incapaz de servir ao Senhor, podes saber serás bom servo...". Por sentir desde o começo de sua carreira ministerial certas limitações, pastor Alcebíades buscou se aprimorar. Para ele, um bom servo seria sempre um ser dependente do Supremo Pastor. Uma pena que tal conceito tem sido cada vez mais abandonado. Mas sempre haverá um remanescente fiel.

Fontes:

VASCONCELOS, Alcebíades Pereira; LIMA, Hadna-Asny Vasconcelos. Alcebíades Pereira Vasconcelos: estadista e embaixador da obra pentecostal no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2003.

Mensageiro da Paz 1ª quinzena de 1938

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