domingo, 2 de março de 2014

Pastor Liosés Domiciano: lições de um ministério

Liosés Domiciano nasceu na cidade de Itajaí, no dia 31 de julho de 1927. Com 12 anos de idade, ele e sua família começaram a frequentar a Assembleia de Deus, e aos 14 anos, Liosés começou a dirigir a escola dominical para as crianças na cidade de Guaramirim. Mais tarde, aos 19 anos recebeu a tarefa de liderar uma congregação no município.

Família Domiciano da década de 60
Em 1950, aos 23 anos, Liosés contraiu matrimônio com a jovem Noêmia Figueira. No mesmo ano foi convidado para dirigir a AD em Mafra, cidade localizada no planalto norte catarinense. Era jovem e inexperiente. Logo as lutas e dificuldades o fizeram pensar em desistir. Nesse intento, ainda em Mafra, conseguiu um emprego em um estabelecimento comercial, mas ao voltar para casa e contar para sua esposa sua decisão de não mais trabalhar integramente na obra, Noêmia o contestou de forma firme, mas amorosa, dizendo que ela jamais abandonaria seus objetivos de seguir no ministério. Convencido pela mulher, Domiciano reconsiderou e, continuou na obra evangélica.

Essa singela história, um fragmento das muitas lembranças que os filhos possuem do seu pai, é revelador das condições adversas que um obreiro enfrentava naqueles tempos. Salários e recursos precários, os quais em momentos de aperto faziam as mais firmes convicções ministeriais serem abaladas. 

De Mafra, Liosés rumou para Jaraguá do Sul, onde nasceu o primeiro filho do casal Domiciano, chamado Leomir. E em cada cidade que pastoreou, um filho lhe nasceu. A família então, retratava a geografia do seu ministério por Santa Catarina. Leomir nasceu em Jaraguá, sua filha Leni em Joaçaba, Lineas em Tubarão e seu caçula Lediel em Lages.

Há um outra curiosidade acerca do seu ministério. Pastor Liosés era chamado informalmente pelos familiares e irmãos de "Nino". E ele até preferia assim, pois seu nome para os crentes mais simples era um tanto difícil de se pronunciar. "Nino" ficava mais acessível para todos. Um detalhe que fala muito dessa época, demostrando como era a convivência entre pastores e ovelhas, ou seja, não havia como hoje aquele abismo social ou hierárquico. Pastores e irmãos se tratavam de forma mais igualitária, e tinham um padrão de vida muito semelhante, e em alguns casos, o pastor até era materialmente inferior a muitos membros.

No ano de 1972, pastor Liosés foi transferido para Joinville. Seria sua última igreja. Acometido de um câncer que lhe levou a morte no dia 13 de janeiro de 1979, Domiciano ainda padeceu 52 dias de internação em um hospital na cidade de Curitiba. Enquanto isso, devido a sua impossibilidade de responder pela igreja, e prevendo a vacância do cargo, uma disputa pela presidência da AD na cidade se abriu. Alguns companheiros de ministério lutaram para assumir seu posto. E isso com ela ainda vivo, e com a família na triste expectativa da morte de seu pai. 

Tempos depois, sua esposa e filhos tiveram que aguentar a pressão para que deixassem a casa pastoral. Liosés em tantos anos de ministério não havia se preocupado em adquirir um imóvel para a família. Algo impensável nos dias de hoje, quando muito líderes eclesiásticos antes de se aposentarem (ou jubilarem) já fazem seu bom "pé-de-meia". Infelizmente, como é previsível, todo esse desfecho traumático da vida e ministério do pastor Liosés, gerou para os filhos um distúrbio para a vida emocional e espiritual de enormes proporções. 

É algo paradoxal. Um pastor que em vida, juntamente com sua família, se dedicou a obra, pastoreou algumas igrejas em Santa Catarina, assumiu cargos na CPAD e viajou pelo mundo representando sua denominação, nos anos seguinte à sua morte tenha seus rebentos praticamente revoltados com o ministério. Uma situação vivida por inúmeras famílias pastorais, que por diversas razões ou circunstâncias, não conseguiram superar a perda dos pais para a igreja, ou para a eternidade.

Mas o tempo passou e a família Domiciano conseguiu superar as dificuldades. Leomir, o primogênito faleceu precocemente. A esposa Noêmia também já descansou depois de tantas lutas. A filha Leni, viúva, continua na igreja Assembleia de Deus em Joinville, sempre envolvida com atividades do coral. Lineas é pastor da Igreja da Família em Jaraguá do Sul, e Lediel é pastor auxiliar da Igreja do Evangelho Quadrangular em Joinville. 

Os filhos, hoje bem mais conformados, até refletem que a morte do pai foi uma lição para a grande maioria dos ministros da AD em Santa Catarina, pois a partir de todo esse trauma, os demais pastores e obreiros perceberam a importância de se resguardarem para uma fatalidade como essa que acometeu a família Domiciano. E, diga-se de passagem, aprenderam bem a lição... 

Fontes: 

POMMERENING, Claiton Ivan (Org.). O Reino entre príncipes e princesas: 75 anos de história da Assembléia de Deus em Joinville. Joinville: REFIDIM, 2008. 

Entrevistas como Lineas e Lediel Domiciano, filhos do pastor Liosés Domiciano.

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