sábado, 19 de outubro de 2013

Assembleia de Deus no Ceará: cisão e turbulência

Em 2014 a Assembleia de Deus no Estado do Ceará comemorará seu centenário. O movimento pentecostal em terras cearenses começou com o trabalho de evangelização de uma mulher. Maria de Jesus Nazareth, no ano de 1914 pregou aos seus familiares e conhecidos na Serra de Uruburetama.  Posteriormente o trabalho, entre altos e baixos se expandiu, chegando à capital Fortaleza em 1923.

Entre os primeiros líderes da igreja estão nomes de renome da AD: Antônio do Rego Barros, Bruno Skolimowski e Julião Pereira da Silva. Mas o grande nome de destaque desse período foi o do pastor José Teixeira Rego. Quando assumiu a igreja definitivamente no dia 1º de maio de 1932, o trabalho contava apenas com 42 membros em comunhão e 11 congregados. Na sua administração, a obra se desenvolveu adquirindo um espaço próprio para realização dos cultos e, 10 anos depois de sua posse, a igreja contava com 1.450 membros na capital e mais 4.000 espalhados pelo interior cearense.

Luiz Bezerra da Costa: um perfil inusitado para sua época
Mesmo com as perseguições, a denominação crescia e Teixeira Rego firmou-se como pastor regional. Porém em 1960, quase 3 décadas depois de assumir a igreja, pastor José veio a falecer subitamente. Sua morte causou grande comoção e uma traumática luta pela direção da AD na capital. E entre os candidatos a sucessão, estava seu genro, Luiz Bezerra da Costa.

O então evangelista Luiz Costa, era uma figura de destaque na igreja e na sociedade. De uma família de comerciantes, possuía um perfil inusitado para a época. Completou seus estudos secundários formando-se em direito. Atuando na advocacia, chegou a ser assessor jurídico de destaque, dando-lhe com isso projeção política para ser eleito deputado estadual em 3 legislaturas, num tempo que a participação política era algo distante para os crentes.

Segundo seu irmão José Wellington B. da Costa, Luiz tinha muito prestígio político, pois além de ser deputado controlava nomeações de autarquias estaduais, atuava como secretário da Assembleia Legislativa, e liderou por um período a bancada do governo. Consta também que ele era militar da reserva, e participava de negócios imobiliários. Além de tornar-se genro do presidente do pastor da AD em Fortaleza, chegou ao cargo de vice-presidente da igreja.

Portanto, Luiz Costa, um jovem em ascensão política e eclesiástica, talvez se achasse no direito de suceder Teixeira Rego. Mas na opinião do sociólogo Gedeon Alencar, provavelmente o genro do pastor presidente era considerado muito moderno para sua época e, sendo visto dessa forma, foi rejeitado para suceder o sogro. Ele era realmente uma figura proeminente na sociedade. Diferenciava-se dos demais em status social e político, tinha negócios variados, contatos diversos, talvez um homem independente demais...

A história oficial relata que após a morte do pastor Teixeira Rego em 5 de dezembro de 1960, Luiz Costa assumiu a direção da igreja. Porém sua gestão durou um pouco mais de um mês. Em 20 de janeiro, Armando Chaves Cohen assumiu a igreja. Cohen ficou um ano na direção do trabalho até a posse definitiva do pastor Emiliano Ferreira da Costa no dia 12 de fevereiro de 1962. Segundo consta ainda, Luiz teria emancipado a AD em Bela Vista em 1963. 

Mas a simples informação de datas camuflam eventos traumáticos. Repercussões das discórdias chegaram as reuniões da CGADB, e nelas se procurou uma pacificação, tal o nível de desentendimentos no campo. Foram anos de desavenças entre Luiz Costa e o ministério local. Na Convenção Geral, ocorrida em Recife em 1962, portanto em meio aos impasses ministeriais, os convencionais levantaram um clamor em favor da igreja que passava "sérias dificuldades". 

Na CGADB seguinte, em 1964, uma comissão foi criada, um documento redigido e os obreiros envolvidos na questão foram chamados para o assinarem: Emiliano da Costa, José Freire Alencar, Simão Nascimento, M. F. Almeida, Pedro Brito e Luiz Bezerra da Costa. Foi criada ainda uma subcomissão para ir ao Ceará e acompanhar o caso. Finalmente, em 1966 ficou resolvido que a AD em Bela Vista, liderada por Luiz Costa seria desligada da AD matriz em Fortaleza e vinculada a Convenção da AD no Pará.

Nesse processo, segundo Gedeon, cujo pai era pastor na época, verdadeiras "batalhas campais" foram travadas, onde foi necessária a intervenção policial. Crentes bateram e apanharam; um escândalo de enormes proporções na terra do padre Cícero. Algo que deixou ressentimentos profundos na comunidade assembleiana. Mas há uma ironia em tudo isso. Luiz Costa não conseguiu suceder o sogro, o pioneiro José Teixeira Rego, mas ao falecer 30 anos depois de fundar oficialmente o Ministério de Bela Vista, foi sucedido por seu filho primogênito José Teixeira Rego Neto. Agora sim, sem "batalhas campais" tudo ficou em família...

Fontes

ALENCAR, Gedeon Freire de. Assembleias Brasileiras de Deus: Teorização, História e Tipologia- 1911-2011. Pontifícia Universidade Católica: São Paulo.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

ARAÚJO, Isael de. José Wellington: Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

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