sábado, 7 de setembro de 2013

Sucessão na AD do Belenzinho: golpe ou adaptação aos novos tempos?

No ano de 1980, um dos mais importantes ministérios da AD vivenciou uma importante transferência de poder e gestão, envolvendo dois reconhecidos pastores: Cícero Canuto de Lima e José Wellington Bezerra da Costa. Esses dois senhores, de origem nordestina, porém de perfis e idade diferenciadas, protagonizaram uma polêmica sucessão na AD do Belenzinho, a qual pode ser considerada simbólica para todas as ADs no Brasil.

Pastor Cícero: atropelado pelos novos tempos?
No dia 6 de janeiro de 1980, José Wellington assumiu a presidência da AD do Belenzinho em substituição ao veterano pastor Cícero Canuto de Lima. Pastor Cícero foi jubilado (aposentado) de suas funções pastorais. Desde então José Wellington preside a igreja. Mas em que contexto se deu essa alternância de poder na igreja e a tornaram tão polêmica? Isso é o que veremos agora.

No dia 18 de janeiro de 1982, o jornal Folha de São Paulo, trouxe uma interessante e histórica reportagem sobre o crescimento dos pentecostais no Brasil. Dentro do contexto da matéria, encontram-se informações, as quais sem dúvida podem ajudar a entender a sucessão do Belenzinho. Entrevistado pela Folha, já aposentado de suas funções, um alquebrado pastor Cícero lamenta seu abandono, mas se mostra relutante em aceitar "mudanças na orientação evangélica da Igreja" e na "atualização de seus pastores". 

O pioneiro dispara ainda contra os cursos de teologia, mais uma vez reclama do seu abandono e esquecimento e alveja seu sucessor: "colocaram no meu lugar um pastor que está modificando anos nossa tradição e a nossa força". Ainda na continuação a Folha destaca que a fala de Cícero era referente "ao pastor José Wellington, que teria assumido a presidência da Assembleia de Deus sem o seu consentimento, sendo aclamado pela assembleia de pastores". Mas recusa-se a falar mais, a entrar em detalhes, pois reconhece ser esse um assunto interno da igreja, sem necessidade de divulgação.

Porém há espaço para a defesa do pastor José Wellington. Ao descrever as transformações vividas pela igreja nos últimos anos, com a criação de cursos teológicos, inovação essa implantada pelo novo pastor, a Folha registra o ponto de vista do pastor Wellington: "É necessário orientarmos os nossos pastores, para evitarmos abusos que fatalmente desaguarão no fanatismo de massa". Mesmo sabendo que a iniciativa não foi "contemporizada" pelo antigo pastor, José Wellington conclui de forma pragmática "Os tempos são outros". Ou seja, as mudanças eram inevitáveis.

Para os simpatizantes de José Wellington Bezerra da Costa, sua manobra para chegar a topo do ministério teria sido de uma necessidade imperiosa. Cícero de Lima, apesar de ser um líder de destaque conduzia a igreja num conservadorismo extremo. Enquanto outros ministérios concorrentes já possuíam cursos teológicos e realizavam congressos de jovens, o Belenzinho por orientação do seu patriarca não aderia as novidades e comprometia seu crescimento; em suma estava engessado. Pastor Bezerra da Costa seria então um progressista, um homem que ao perceber a situação do ministério, com uma outra visão, pavimentou ao longo dos anos a sucessão em benefício próprio.

Porém, para os que se antipatizam com o atual presidente da CGADB, suas ações seriam (e são) interpretadas como um golpe. Sim, um golpe contra um líder carismático, pioneiro e de integridade comprovada. Não é de hoje que a versão de golpe é propagada entre os fieis mais antigos. O certo é, que ao assumir, pastor José Wellington permitiu tudo o que seu antecessor proibia. Encontros (leia-se congressos) de jovens e de círculo de oração das senhoras foram finalmente realizados, e os cursos teológicos continuaram e evoluíram. O ministério ganhou uma nova dinâmica.

Passados 9 meses dessa matéria, Cícero C. de Lima faleceu, sentindo-se abandonado, traído e magoado. Foi o pioneiro atropelado pelos novos tempos? Provavelmente sim. As ADs estavam vivendo um momento de transição, e no texto da reportagem da Folha de São Paulo isso fica explícito. José Wellington captou esse momento e resolveu dar novos rumos ao ministério. Golpe ou necessidade de acomodação aos novos tempos? Isso depende do olhar do leitor. Um detalhe: ironicamente, a escola teológica fundada pelo pastor José Wellington, recebeu posteriormente o nome de Escola Teológica Pastor Cícero Canuto de Lima. Logo ele que desprezava tais instituições...

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

Acervo.folha.com.br

16 comentários:

  1. Prezado Mário Sérgio, acho que o problema maior foi a aclamação. Nossos líderes têm urticária de eleições. Depois ficam reféns de acordos de gaveta.

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  2. Eessa história ainda não terminou.... vamos aguardar todo o desfecho, e só lá no final veremos. Deus cuida da sua igreja, e zela por ela, só que Ele é longânimo, e as pessoas se esquecem desse detalhe. Paz.

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  3. Mário Sérgio,

    Parabéns por mais uma vez promover um debate para além da história oficial.

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  4. A sucessão no Belenzinho (e em outras igrejas) é tema para a sociologia. Veja que o discurso naquela época era a necessidade de "progresso", abrir-se para o novo. "Os tempos são outros", foram as palavras registradas na reportagem, mencionadas pelo líder sucessor. Hoje, esse mesmo líder prega por conveniência o conservadorismo, fala de uma "identidade" assembleiana, que já se perdeu nesses 25 anos de sua administração da CGADB, insiste em ser o bastião da "doutrina" da AD, simplesmente para se perpetuar no poder. É o típico discurso político. Fala-se o que é mais conveniente para o momento.

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    1. Pr. Geremias concordo plenamente com as suas palavras. A hipocrisia se instalou em muitos ministérios.

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  5. Pastor Cícero Canuto de Lima tinha 87 anos de idade e seu homem de confiança,inclusive chofer particular e vice -presidente d igreja do Ministério do Belém era o pastor José Wellington Bezerra da Costa,que teve sua administração aprovada por Deus,na época da posse em 6/1/1980 tinha 200.000 membros,hoje o belenzinho tem mais de 2000.000 de membros,contra números não há fatos. Pastor José Wellington éum homem aprovvado por Deus ,não só aqui no Brasil,mais em todo mundo onde está o Ministério do Belém hoje,existem milhaares de btismos com espírito santo salvação de almas e consagração de novos pastores e missionário.

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  6. Mas ser presidente por 3 décadas. Sei não.

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  7. Só para polemizar:
    Números não são tudo, quantidade não tem todo esse poder. Aprovação humana, político, social, cultural e econômica também não! Reconhecimento da sociedade muito menos. Não, Não!
    O mais importante é a aprovação vinda do alto, de DEUS. É a lisura, a honestidade, o real e verdadeiro comprometimento com o Evangelho. É a sinceridade e o não uso de manobras, atalhos para isso ou aquilo. É estar na integral, submissa e contínua dependência do Espírito Santo.
    Somos "chamados para fora" desse sistema corrupto do mundo e da política, e o que fazemos é o contrário, cada vez mais nos acostumamos e assimilamos o modus operandi do sistema e o reproduzimos em nossas assembleias.

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  8. O Pastor Cícero Canuto de Lima sem dúvida nenhuma foi um dos maiores líderes da Assembléia de Deus no Brasil, ao lado de Paulo Leivas Macalão, Alfredo Reykdal e outros mais. Sabemos porém, que sua sucessão na liderança do Ministério do Belém, não foi assim tão tranquila. Aliás, raramente, existe uma sucessão pastoral totalmente tranquila, infelizmente. Na época em que o Pastor José Wellington Bezerra da Costa, assumiu a presidência do Belém, houve comentários de que a sucessão não havia sido tranquila, porque a família do Pastor Cícero apoiava a eleição do Pastor João Alves Correia, na época, Presidente da AD Ministério de Santos. Esse fato, é confirmado na biografia do Pastor José Wellington em seu livro "José Wellington" (CPAD), Páginas 167 a 175. Normalmente, ou a bem da verdade, o direito na sucessão seria mesmo do Pr. José Wellington, pois ele era o Vice-presidente. O Pastor João Alves Correia, há anos presidia o Ministério de Santos, e a sua eleição não tinha nada a ver com o Ministério do Belém, a não ser por um capricho do Pastor Cícero, que talvez quisesse agradar seu velho amigo "Correia", aliás, pastor João Correia na época seria um dos mais antigos pastores do Estado de São Paulo e presidia a Igreja Pioneira Paulista. Parece que existia um acordo de que quando um líder saia da direção de um grande ministério na capital de um Estado, por falecimento ou jubilação, o direito de sucessão caberia ao pastor mais antigo no estado, mas isso não tem uma confirmação correta. Contudo, segundo a biografia do Pastor JWBC, Pastor Correia foi à uma reunião do Ministério e da Igreja, onde o mesmo foi apresentado como candidato do Pr. Cícero, mas sua eleição foi rejeitada pela assembléia, ficando então o Pr. José Wellington.

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  9. Desculpe-me Mário Sérgio, pela segunda vez invadir teu blog, aqui com meu comentário, mas apoiando as palavras do Daladier, o grande problema das sucessões ministeriais nas Assembléias de Deus, talvez seja a falta de democracia. Na maioria das vezes recorrem a eleição por aclamação, isto, é quando tudo já está "mastigado" ou "esquematizado", aí leva e joga "goela abaixo" dos liderados que não têm como se safar, para não se queimar com o líder. O correto, é uma eleição democrática, como ocorreu na AD em Curitiba, quando Pastor Wagner foi eleito em substituição ao veterano Pastor José Pimentel de Carvalho. Aí sim! Uma eleição transparente e tranquila, sem nenhum transtorno.

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  10. DEUS QUEM VAI JUGAR,SI FOI GOLPE OU NAO

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  11. E no final perpetuou a família no poder !!!!!

    Se tornando dono do ministério !!!

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