sábado, 14 de setembro de 2013

Cícero Canuto de Lima: herdeiro da doutrina sueca

Cicero Canuto de Lima, mais que um líder, foi uma legenda dentro das Assembleias de Deus no Brasil. Ao lado de Paulo Leivas Macalão, é um dos nomes mais emblemáticos da denominação. Tal como Macalão, é impossível contar a história das ADs sem referenciar o saudoso obreiro. Ccomo muitos pioneiros das ADs, muito se fala em Cícero Canuto de Lima, porém pouco se conhece sobre ele de fato. Mas que foi esse senhor e líder? 


Segundo fontes oficiais, Cícero nasceu em Mossoró/RN no dia 19 de janeiro de 1893. Converteu-se ao pentecostalismo em 1918 na cidade de Timboteua, Pará. Em 1923 foi separado ao ministério pastoral por Gunnar Vingren. Cooperou nas igrejas do Pará, mas logo seguiu para João Pessoa capital da Paraíba (na época a capital do Estado da PB se chamava Cidade da Paraíba). Por 15 anos liderou essa igreja. Partiu para o sul em 1939 onde cooperou na AD em São Cristóvão, até que em 1946, depois de pastorear a AD em Santos, assumiu a AD Missão em SP. Em SP foram 34 anos de pastorado, o qual cessou somente em 1980 ao ser sucedido por José Wellington Bezerra da Costa.

Fora algumas informações mais edificantes na história oficial, como a sua experiência de conversão, perseguições religiosas e o batismo com o Espírito Santo, pouco se comenta sobre sua personalidade, ou sobre seu método de trabalho. Mas como todo grande líder e homem que foi, Cícero teve suas ambiguidades e decifrá-lo ainda é um desafio para os estudiosos das ADs.

Uma coisa é certa: Macalão passou à história oficial e ao imaginário assembleiano como o líder doutrinador de grande conservadorismo. Porém, ao longo da vida e ministério, Paulo Leivas foi flexibilizando. Como Cícero, Macalão foi contra institutos bíblicos, congressos de jovens e era famoso por sua "proverbial rigidez" na conduta moral dos membros do seu ministério. Contudo, com o tempo, se percebe certas aberturas em temas antes condenados por ele mesmo, ou por outros líderes assembleianos.

Cícero, ao contrário, não teve a mesma flexibilidade de Macalão. Até o fim de sua carreira, condenou todas as mudanças que, ao seu ver, desvirtuavam a igreja. Enquanto a AD Ministério de Madureira fazia congressos de jovens, tinha instituto bíblicos e círculo de oração de senhoras, a AD no Belenzinho permanecia engessada. O engessamento do ministério e sua avançada idade, ao que tudo indica, precipitaram à sucessão que fugiu do seu controle.

Talvez o motivo dessa inflexibilidade, fosse uma fixação, um reconhecimento contínuo, alimentado por si mesmo e por outros admiradores seus, de (ele Cícero) pertencer ao "troco principal", ou seja, de ser herdeiro legitimo dos ensinamentos dos míticos missionários suecos. Assim, sentindo-se como grande fiador da "doutrina", Cícero desprezava qualquer inovação aos métodos à ele confiados pelos pioneiros.

Ao ser entrevistado pelo Mensageiro da Paz (nº6 de 1974), por ocasião do 50 anos de seu ministério, o velho pioneiro expressou seu desejo de "...continuar como comecei, na doutrina que aprendi. Nos costumes dos primeiros missionários, daqueles homens de Deus", e termina a entrevista afirmando categoricamente que "nestas bases estou trabalhando e pretendo seguir até que Deus nos permita!". Anos depois, já aposentado, sentindo-se esquecido dos irmãos, em declaração à Folha de São Paulo (18 de janeiro de 1982), o velho pioneiro, além de reclamar das mudanças realizadas por seu sucessor, ainda mantém o discurso da legitimidade: "Foi triste constatar o fato, é triste sempre quando vemos irmãos nossos separando-se do tronco principal da Igreja. Eu, hoje, represento e faço parte do tronco principal".

Por esse motivo, às notícias no Mensageiro da Paz, (principalmente dos anos 60) sobre à AD do Belenzinho, sempre intitula à igreja de "pioneira" e "Igreja Mãe" em oposição a outros ministérios tidos como ilegítimos Há sempre um tom de guerra velada contra outros grupos da AD implantados na Pauliceia.

Porém, temos algo de contraditório em sua biografia. Apesar de se declarar do "tronco" principal, pastor da "Igreja Mãe" e herdeiro legitimo dos primeiros missionários, pastor Cícero juntamente com outros obreiros da região Norte/Nordeste, idealizou em Natal/RN a 1ª Convenção Geral a ser realizada na mesma cidade em setembro de 1930. É notório, que além de ser o primeiro presidente da CGADB, ele e os demais pastores nativos contestaram os missionários suecos, pois sentiam "necessidade de terem maior liberdade na condução dos trabalhos" e exigiam um novo rumo para as ADs no Brasil.

Essas são as voltas que o mundo dá. O herdeiro da doutrina sueca e das suas tradições, uma dia se postou contra a supremacia dos missionários. 

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

Acervo.folha.com.br

sábado, 7 de setembro de 2013

Sucessão na AD do Belenzinho: golpe ou adaptação aos novos tempos?

No ano de 1980, um dos mais importantes ministérios da AD vivenciou uma importante transferência de poder e gestão, envolvendo dois reconhecidos pastores: Cícero Canuto de Lima e José Wellington Bezerra da Costa. Esses dois senhores, de origem nordestina, porém de perfis e idade diferenciadas, protagonizaram uma polêmica sucessão na AD do Belenzinho, a qual pode ser considerada simbólica para todas as ADs no Brasil.

Pastor Cícero: atropelado pelos novos tempos?
No dia 6 de janeiro de 1980, José Wellington assumiu a presidência da AD do Belenzinho em substituição ao veterano pastor Cícero Canuto de Lima. Pastor Cícero foi jubilado (aposentado) de suas funções pastorais. Desde então José Wellington preside a igreja. Mas em que contexto se deu essa alternância de poder na igreja e a tornaram tão polêmica? Isso é o que veremos agora.

No dia 18 de janeiro de 1982, o jornal Folha de São Paulo, trouxe uma interessante e histórica reportagem sobre o crescimento dos pentecostais no Brasil. Dentro do contexto da matéria, encontram-se informações, as quais sem dúvida podem ajudar a entender a sucessão do Belenzinho. Entrevistado pela Folha, já aposentado de suas funções, um alquebrado pastor Cícero lamenta seu abandono, mas se mostra relutante em aceitar "mudanças na orientação evangélica da Igreja" e na "atualização de seus pastores". 

O pioneiro dispara ainda contra os cursos de teologia, mais uma vez reclama do seu abandono e esquecimento e alveja seu sucessor: "colocaram no meu lugar um pastor que está modificando anos nossa tradição e a nossa força". Ainda na continuação a Folha destaca que a fala de Cícero era referente "ao pastor José Wellington, que teria assumido a presidência da Assembleia de Deus sem o seu consentimento, sendo aclamado pela assembleia de pastores". Mas recusa-se a falar mais, a entrar em detalhes, pois reconhece ser esse um assunto interno da igreja, sem necessidade de divulgação.

Porém há espaço para a defesa do pastor José Wellington. Ao descrever as transformações vividas pela igreja nos últimos anos, com a criação de cursos teológicos, inovação essa implantada pelo novo pastor, a Folha registra o ponto de vista do pastor Wellington: "É necessário orientarmos os nossos pastores, para evitarmos abusos que fatalmente desaguarão no fanatismo de massa". Mesmo sabendo que a iniciativa não foi "contemporizada" pelo antigo pastor, José Wellington conclui de forma pragmática "Os tempos são outros". Ou seja, as mudanças eram inevitáveis.

Para os simpatizantes de José Wellington Bezerra da Costa, sua manobra para chegar a topo do ministério teria sido de uma necessidade imperiosa. Cícero de Lima, apesar de ser um líder de destaque conduzia a igreja num conservadorismo extremo. Enquanto outros ministérios concorrentes já possuíam cursos teológicos e realizavam congressos de jovens, o Belenzinho por orientação do seu patriarca não aderia as novidades e comprometia seu crescimento; em suma estava engessado. Pastor Bezerra da Costa seria então um progressista, um homem que ao perceber a situação do ministério, com uma outra visão, pavimentou ao longo dos anos a sucessão em benefício próprio.

Porém, para os que se antipatizam com o atual presidente da CGADB, suas ações seriam (e são) interpretadas como um golpe. Sim, um golpe contra um líder carismático, pioneiro e de integridade comprovada. Não é de hoje que a versão de golpe é propagada entre os fieis mais antigos. O certo é, que ao assumir, pastor José Wellington permitiu tudo o que seu antecessor proibia. Encontros (leia-se congressos) de jovens e de círculo de oração das senhoras foram finalmente realizados, e os cursos teológicos continuaram e evoluíram. O ministério ganhou uma nova dinâmica.

Passados 9 meses dessa matéria, Cícero C. de Lima faleceu, sentindo-se abandonado, traído e magoado. Foi o pioneiro atropelado pelos novos tempos? Provavelmente sim. As ADs estavam vivendo um momento de transição, e no texto da reportagem da Folha de São Paulo isso fica explícito. José Wellington captou esse momento e resolveu dar novos rumos ao ministério. Golpe ou necessidade de acomodação aos novos tempos? Isso depende do olhar do leitor. Um detalhe: ironicamente, a escola teológica fundada pelo pastor José Wellington, recebeu posteriormente o nome de Escola Teológica Pastor Cícero Canuto de Lima. Logo ele que desprezava tais instituições...

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

Acervo.folha.com.br