quinta-feira, 11 de abril de 2013

AD do Belenzinho: manifestação de apoio ao Regime Militar

No último post, o assunto sobre o apoio das lideranças das Assembleias de Deus ao Regime Militar foi tratado a partir de um evento de jovens na cidade de Volta Redonda no Rio de Janeiro. Mais uma vez, aqui nesse blog, tomando com fonte o Mensageiro da Paz (15 de fevereiro de 1973, p.12), o tema será discutido com base em uma celebração cívico-militar ocorrida na cidade de São Paulo, com a participação de um dos maiores ministérios da AD no Brasil.

Por ocasião das comemorações dos 150 anos da independência do Brasil, a AD do Ministério do Belenzinho - SP organizou um desfile cívico pelas principais ruas da capital paulista. O desfile, como não poderia deixar de ser foi um primor de organização e civismo. Bandas, bandeiras, cartazes e hinos religiosos e pátrios deram ao evento um colorido todo especial. A manifestação terminou na Praça do Mercado, onde um culto cívico religioso se realizou.

Matéria do MP sobre o desfile: "apoio incondicional ao Presidente Médici"
Nesse culto, foi convidado a se pronunciar o Comandante do 22º Batalhão Policial, o coronel Francisco Torres de Araújo que disse: "Em Munique, onde os atletas de quase todas as nações do mundo, reunidos, participam dos Jogos Olímpicos, imperam o ódio e a intranquilidade, mas aqui nessa praça onde os crentes estão reunidos participando dessas solenidades... imperam o amor e a paz!".

Uma pérola da desinformação promovida pelo regime. A capital de SP e o país, andavam as voltas com ataques, sequestros e outras ações da militância esquerdistas, e o coronel apontava acontecimentos internacionais para confirmar que o Brasil era muito mais seguro. Mas não deve-se esquecer que era o tempo do slogan "Brasil ame-o ou deixe-o".

Ao término das solenidades, o orador oficial pastor João Pereira. Falando de improviso, o reverendo revela a imagem que a liderança tinha ainda do governo militar. Referiu-se ao então ditador de plantão Emílio Médici como "legitimo comandante de todos os brasileiros". Destacou ainda que Médici era um "dos comandantes da Revolução Democrática vitoriosa de 31 de março de 1964!". E na continuação, as palavras do reverendo João Pereira tornam-se ainda mais ufanistas quando afirma: "E o importante é, que este País que está comemorando o Sesquicentenário de sua Independência, também está comemorando sua Independência econômica!".

Em toda a matéria as palavras do pastor João Pereira são de elogios, apoio e reverência ao governo. Em determinado ponto, ele afirma que:
O Evangelismo Nacional e, particularmente as Assembleias de Deus filiadas ao ministério da Igreja do bairro do Belém, em São Paulo, expressam hoje nessa concentração cívica religiosa, o seu apoio incondicional ao Presidente Médici, ao Governador Laudo Natel, e as demais autoridades constituídas.
Deve-se frisar sempre: não foi somente as ADs que apoiaram o Regime Militar. Porém, muitas leituras podem ser feitas desse acontecimento. Seria a manifestação, fruto de um deslumbramento e submissão total ao governo com base em Romanos 13.1? Identificação e simpatia com os milicos e seu estilo autoritário de comando, além de um exacerbado sentimento de gratidão por terem eles "salvo" o país do comunismo? Ignorância do contexto político? Percebendo algum resultado econômico favorável na vida dos membros da igreja (com reflexos imediatos nas contribuições), os líderes da AD pensavam nos militares como agentes de Deus em prol da nação?

Dentro desse contexto, é bom lembrar que boa parte da sociedade brasileira apoiava o governo. As ADs foram (e são) reflexo da sociedade; conservadora e atraída pelas comodidades do consumo. Há um outro detalhe, o qual transparece no texto: o apoio incondicional ao regime, num momento em que os próprios militares cada vez mais estavam sendo questionados na condução política da nação.

Espero aqui as considerações dos leitores desse blog. É um tema que precisa ser estudado com maior profundidade. Mas certamente, as ADs não foram neutras nesse jogo de poder, o qual durou mais de 20 anos.

7 comentários:

  1. No ano de 1972 houve também, na AD Madureira, um pomposo culto em comemoração ao sesquicentenário da independência do Brasil. A igreja esteve completamente lotada e, além da presença de pastores do país todo, esteve no culto o governador da Guanabara, Chagas Freitas. A igreja estava toda decorada com bandeiras e brasões do Estado da Guanabara.

    ResponderExcluir
  2. Interessante o fato de diversos igrejas promoverem na época desfiles "cívico-religiosos". A prática do desfile, comum em diversas ADs até décadas passadas, é hoje quase inexistente, o que aponta para sua função simbólica no período.

    ResponderExcluir
  3. Atual e infelizmente, a AD apoia um governo coberto de escândalos onde cada dia, uma supresa nos é apresentada!

    #lamentável

    ResponderExcluir
  4. Tem muita coisa ainda por ser desenterrada. ....

    ResponderExcluir
  5. Fizeram muito bem de apoiar os militares. O que chamam de ditadura tinha eleições, ainda que indiretas, e o país chegou a ser a 8ª potência mundial. Hoje lamentavelmente só vemos um povo alienado, mal alfabetizado e que queimam a bandeira do próprio país, para substituí-la por uma vermelha. Pena que hoje muitos assembleianos apoiem o governo PeTralha.

    ResponderExcluir
  6. Vale observar que até a existência das bandas musicais nas AD, principalmente nos desfiles que as igrejas promoviam, lembram um pouco do militarismo. Vários líderes da AD eram ex-militares, e traziam para as igrejas algumas características dos quartéis. Lembro-me que o pastor José Alves Pimentel, antigo líder da AD em Coronel Fabriciano e o primeiro pastor consagrado em Minas Gerais, havia sido militar, e gostava muito da banda música. Uma vez, a banda precisava trocar os instrumentos que estavam gastos e velhos, ele mandou vir de São Paulo, uma banda completa para a igreja. Até, certo ponto eu apoio à época da ditadura, não no sentido das torturas e desaparecimento de pessoas. Hoje, o país está uma baderna. Não existe mais valores morais!

    ResponderExcluir