quinta-feira, 28 de março de 2013

A Assembleia de Deus e o Regime Militar

A postura dos evangélicos durante o Regime Militar (1964-1985) é controversa e polêmica. Mas é certo que a maioria das denominações apoiaram o regime de exceção que se instalou no Brasil durante pouco mais de 20 anos. Poucas vozes entre os protestantes se levantaram contra o regime. O sociólogo Paul Freston, afirma em seu livro Evangélicos na Política Brasileira, que somente a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) lançou durante o período da ditadura um documento chamado de "Manisfesto de Curitiba", criticando o governo dos militares e suas práticas de repressão.

O que prevaleceu mesmo foi o apoio, inclusive com participação de ministros evangélicos nas denúncias de membros ou seminaristas considerados "subversivos". A cooptação política entre os protestantes também se deu através de nomeações de líderes leigos para cargos de importância (governadores, secretarias etc) e o aliciamento para os cursos da Escola Superior de Guerra (ESG).


Presidentes militares: cooptação dos evangélicos e repressão
Esse apoio, se justificava inclusive pelo clima político internacional denominado de "Guerra Fria", ou seja, a oposição binária entre os sistemas capitalista e socialista. De um lado estava o capitalismo, os EUA, a liberdade de culto e a fé cristã. Do outro, o socialismo, a URSS, a opressão as religiões e o ateísmo satânico. Nessa guerra de propagandas ideológicas, o golpe de 31 de março (ou de 1º de abril para os opositores) foi interpretado por muitos como uma "ação divina". Robson Cavalcante em sua obra Cristianismo e Política, assim descreveu esse evento:  
A crença generalizada entre os protestantes (não apenas entre os pentecostais e renovados) era de que o movimento de 31 de março fora "resposta de Deus às orações de Seu Povo". Isso concorreu para dar um caráter um tanto "sagrado" ao novo regime, incluindo-se a perda de crítica, de prática profética, diante dos desvios que se seguiram.
Essa mentalidade fica muito evidente nas palavras do reverendo Enéas Tognini em entrevista a revista ISTOÉ, quando afirmou que na época "convocou milhares de evangélicos para um dia nacional de oração e jejum, para que Deus salvasse o País do perigo comunista". Ainda em apoio ao regime o reverendo Tognini afirmou: “Não me arrependo (de ter se alinhado ao discurso dos militares). Eles fizeram um bom trabalho, salvaram a Pátria do comunismo”.

E as Assembleias de Deus no Brasil? Qual foi a postura dos seus líderes diante desse período de turbulência política? Na visão geral, ou no senso comum, a denominação manteve-se apolítica. Não se manifestou. Mas silenciar também é se colocar de um determinado lado; previsivelmente do lado dominante, ou seja, como diz o ditado popular "quem cala, consente".

Não há uma linha sobre os acontecimentos políticos no Mensageiro da Paz nos dias e meses posteriores ao golpe. Há um absoluto silêncio. Freston afirma que "era compreensível que não quisessem entrar em choque com o governo para não ficarem expostas (as igrejas) a todo peso da repressão". Isso fica muito evidente na  CGADB de 1973, quando orientados por Sotero Cunha (na época diretor da CPAD), os líderes assembleianos não divulgaram uma nota pública contra a TV. O argumento de Cunha revela essa postura ao ter "advertido ao plenário quanto à maneira como a Convenção deliberou a respeito do uso do aparelho de televisão, posto que se deve evitar o perigo de combater frontalmente os meios de divulgação devidamente reconhecidos pelo governo". Reforçando suas palavras Sotero ainda afirmou "não estar defendendo a TV, mas alertando para o perigo de se estabelecer uma proibição com divulgação no Mensageiro da Paz que venha a ser mal interpretada pelo governo".

Percebe-se, que até o mais ferrenho conservadorismo se dobrou ao receio da repressão. Repressão feita por um regime, que segundo a crença evangélica "salvou o país" do comunismo. Os militares, tinham nessa época construído toda uma infraestrutura para as telecomunicações. Era apoiado firmemente por uma emissora com sede no Rio de Janeiro, a qual ajuda a propagar o "milagre econômico" e ignorava as mazelas do povo.

Assim as ADs no Brasil; e não só elas, tornara-se um dos "sustentáculos civis" do regime autoritário no país. Porém com o passar do tempo, algumas ações dos líderes da AD vão revelar muito mais que neutralidade ao regime. O apoio será ostensivo, explicito, público mesmo. Mas isso é assunto para outro post...

Fontes:

CAVALCANTI, Robison. Cristianismo e política. Niteroi: Editora Vinde, 1988.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FRESTON, Paul. Evangélicos na política: história ambígua e desafio ético. Curitiba: Encontrão Editora, 1994.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Iconografia: quadro os dois caminhos

Os mais velhos devem lembrar. Mas o quadro abaixo, assim como os discos do cantor evangélico Oséias de Paula e a caixinha de promessas era presença quase que obrigatória nos lares crentes. Tão logo se chegava na casa de um irmão, o sujeito já se deparava com essa mensagem visual, que reforçava o ethos assembleiano.


Sobre esse símbolo da iconografia assembeliana assim nos diz Gedeon Alencar:
Um quadro muito antigo, denominado de 'Dois Caminhos', talvez a única representação artística da época, e mesmo assim, rejeitada por muitas igrejas, é o bom exemplo da adequação cultural do neopentecostalismo. 
No caminho largo - o caminho da perdição -, está o cinema, o teatro, o cassino, as festas, pessoas (muitas) bem vestidas com chapéus, luvas, casacos, cartolas, guarda-chuvas, etc. Muitos enfeites. No jargão evangélico: muita vaidade. Muito espaço. Repetindo, o caminho é largo. Uma grande porta de entrada com uma faixa de Bem-Vindo. No prédio do teatro tem uma frase: 'Profanação de domingo', uma das grandes ênfases da teologia em décadas passadas.
No outro lado, no caminho estreito - o caminho da salvação -, templos, casas de oração, tendas, pessoas (poucas) vestidas sem ostentação, com muita simplicidade, nenhum sinal de festas ou 'coisas mundanas'. Nem precisa dizer que não há nenhum cinema, teatro ou jogo, do lado de cá. Ao lado e todos os prédio, episódios e atitudes existem versículos bíblicos para 'fundamentar' a aprovação (caminho estreito), ou condenação (caminho largo), dos mesmos.
Por mera especulação, como seria atualmente o quadro 'os dois caminhos' em sua versão gospel? 
O cinema, o teatro, a dança, as belas roupas, as festas, os muitos enfeites, todos mudaram de lado, estão (também) no 'caminho estreito'. Aliás, agora, por causa da multidão que aderiu, tiveram que 'alargar' a estrada para caber tanta gente... De forma iconográfica, sejamos sinceros, não dá para retratar atualmente o caminho largo e o estreito. 
Não há, pelo menos na estética, nenhuma diferença. Ressalva seja feita: o cassino não mudou de lado. Ainda.

ALENCAR, Gedeon. Protestantismo tupiniquim: hipóteses sobre a (não) contribuição evangélica à cultura brasileira. São Paulo: Arte editorial, 2005.

sábado, 16 de março de 2013

AD Ministério do Belenzinho: proibição da TV

O Mensageiro da Paz, órgão oficial das Assembleias de Deus no Brasil, sem dúvida alguma (como em outros temas) refletiu em suas páginas à problemática relação da igreja com a TV. Como as Assembleias de Deus são muito heterogêneas, os pontos de vista variavam. A postura geralmente era de conservadorismo, porém em determinados momentos, o assunto televisão  - conforme ela se popularizava - recebia nas páginas do MP tratamento diverso, refletindo as diferentes opiniões sobre o aparelho.

Mas alguns momentos são emblemáticos, até para se compreender as posturas conservadoras de cada ministério. Talvez, uma das posições mais fortes contra à TV procedeu do Ministério do Belenzinho (SP). 

Tv: em 1962 era o mal sorrateiro entrando na igreja

Em setembro de 1962, na Escola Bíblica e Convenção Regional do Ministério do Belém, os obreiros deliberaram - sob à presidência do veterano pastor Cícero Canuto de Lima - sobre o uso da televisão. Publicado no MP (2ª quinzena de agosto, p.6), transcrevo aqui na íntegra a decisão do ministério.
...Um dos assuntos resolvidos pela Convenção foi o uso da "televisão". Vários pastores expuseram à Convenção a inconveniência do uso de "Televisão" pelos crentes, mal que esta penetrando sorrateiramente, na igreja, - o pior, são os "defensores intransigentes" a proclamarem as "grandes vantagens". Estudando o assunto, e tendo em vista a preservação da doutrina seguida pelas Assembleias de Deus, no Brasil, desde o princípio, e responsabilidade que têm os Obreiros no sentido de manter rigorosa vigilância ao rebanho do Senhor, guardando-o de modernismos perniciosos resolveu a Convenção:

a) nenhum Cooperador poderá adquirir "televisão", caso o fizer será suspenso da Cooperação e o seu caso seja tratado pelo Ministério;

b) que os obreiros proíbam aos crentes o uso de "televisão" e bem assim a compra, fiando sujeito a disciplina aquele que, avisado, desobedeça aos conselhos e recomendações;

c) que a Convenção ao tomar as deliberações acima, visa resguardar o rebanho de Deus, dos efeitos negativos sobre a vida espiritual dos crentes que, infelizmente, têm adquirido "televisões". (grifou-se)
Na continuação do texto, escrito pelo pastor João Pereira de Andrade Silva, afirma-se que as deliberações da convenção foram ratificadas por uma profecia. Nada mais pentecostal e assembleiano para se encerrar uma reunião como essa.

É interessante, que a resolução mais conhecida da CGADB sobre a interdição dos fieis possuírem a TV é de 1975. Mas ali se falava em "abstenção", mesmo que na prática o que valia mesmo era a proibição, disciplina e exclusão para quem desobedecesse as orientações dos líderes da igreja. Porém, o eufemismo foi mantido.

Já a deliberação publicada no MP em 1962, as palavras de proibição e ameaças são claras. Vale lembrar, que a TV estava em sua fase de popularização, talvez por isso a colocação "mal que esta penetrando sorrateiramente, na igreja". Percebia-se assim, cada vez mais o acesso ao aparelho de TV, e com isso os obreiros sentiam-se no dever de coibir esse "mal".

Outra curiosidade é a constatação de "defensores intransigentes", os quais proclamavam as "grandes vantagens" do uso da TV. Na verdade, a publicação das resoluções, era um recado claro do Ministério presidido por Cícero Canuto de Lima, e do perfil conservador de sua gestão. Mas quais seriam as "grandes vantagens"? Pregação e evangelização através da TV? Caso fosse esse o pensamento, o ministério liderado pelo pioneiro se posicionava com vigor contra tais projetos.

No imaginário de muitos crentes, o Ministério de Madureira sempre é tido como extremista. E Madureira era mesmo de particularidades que hoje soam bizarras. Porém, na "guerra de conservadorismos" como bem salientou o sociólogo Gedeon Alencar, o Ministério do Belenzinho se esforçava para se destacar. Todas queriam ser a "legitima" Assembleia de Deus, ou seja, aquela com mais "doutrina"...

Fontes:

ALENCAR. Gedeon Freire de. Assembleias Brasileiras de Deus: Teorização, História e Tipologia- 1911-2011. Pontifícia Universidade Católica: São Paulo, 2012.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

MATTOS, Sérgio Augusto Soares. História da televisão brasileira – Uma visão econômica, social e política. 4.ed. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2009.

MENSAGEIRO DA PAZ. 2ª quinzena de agosto de 1962. Rio de Janeiro: CPAD.