terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Televisão: o veículo subversivo

O dia 18 de setembro de 1950, foi uma data especial para a história das telecomunicações no Brasil. Neste dia, foi inaugurada oficialmente na cidade de São Paulo, por iniciativa do polêmico empresário e jornalista Assis Chateaubriand a TV Tupi-Difusora. Conforme descreveu o escritor Fernando Morais, Chateaubriand em seu discurso com a presença de políticos, empresários, técnicos e artistas, anunciou a nova mídia como "... o mais subversivo de todos os veículos de comunicação do século, a televisão".

A aposta de Assis Chateaubriand no novo meio de comunicação era grande. Mas na verdade, a TV iniciou no país de forma precária e limitada. Foi com a ajuda de profissionais oriundos do rádio, é que a TV se desenvolveu em suas primeiras décadas. Mas qual impacto que esse meio de comunicação teve nas Assembleias de Deus no Brasil?

Pelos registros históricos, a TV - assim como o rádio - foi considerado realmente subversivo como previu Chateaubriand, porém no sentido pejorativo do termo. É conhecida entre os estudiosos da denominação, a grande dificuldade de aceitação dos principais veículos de mídia por parte da liderança da AD nacional. O rádio foi proibido durante muito tempo, e somente com o tempo seu uso na evangelização e, principalmente, no lar dos assembleianos foi autorizado.

Divulgado no MP o canal 23 advertia contra os perigos da TV
Com a TV não foi diferente. Foram anos de intensos debates na CGADB acerca dos males que a utilização desse aparelho causava na vida espiritual dos crentes. Segundo Isael Araújo, as discussões sobre a televisão começaram nas reuniões convencionais de 1957, se estendendo até meados da década de 1970. Praticamente, a grande maioria dos líderes da AD repudiavam o aparelho, seus programas e sua presença nas casas dos fieis. Araújo, ainda descreve vozes discordantes do pensamento conservador da liderança, mas a hegemonia dos antigos pastores prevalecia nas decisões.

Como principal porta-voz dos conservadores estava o Mensageiro da Paz. É nas páginas desse periódico, que vão ser denunciadas com veemência os perigos da TV para a vida cristã. São vários os artigos de orientação e advertências sobre a programação televisiva. No MP de abril de 1967, Francisco de Assis Gomes usa o termo "tevesiolatria", para advertir sobre os malefícios da TV. Aliás, o pastor Assis, já havia em outro texto utilizado a expressão "radiolatria" para criticar o uso indevido do rádio.

O termo "televisiolatria" usado pelo pastor Gomes não é gratuito. A partir de meados da década de 60, a TV começa seu período de popularização, com considerável aumento dos aparelhos nos lares dos brasileiros. Com maiores inovações tecnológicas, e a invenção do videoteipe no início dos anos 60, as emissoras criaram uma estratégia que possibilitava a apresentação de um mesmo programa vários dias da semana. Criava-se assim no país, o hábito de assistir televisão, em dias e horários determinados pela emissora, conforme seus interesses comerciais. Surge então a "televisolatria".

Símbolo da modernidade, instrumento de propagação ideológica capitalista, a TV difundia valores de uma classe média urbana, pois era feita por eles e para eles. Esses valores se chocavam frontalmente com o estilo de vida da grande maioria da população brasileira oriunda do campo. A programação televisiva, nesse sentido, era realmente subversiva, pois não respeitava a mentalidade e as convenções sociais do trabalhador rural, o qual se deslocava para a cidade em busca de um futuro melhor para sua família.

Isso explica em parte, a enorme resistência dos líderes assembleianos em relação a TV, muitos aliás de origem campesina, pois o aparelho e sua programação deixava o crente em contato com os valores de uma classe secularizada. Ou seja, o assembleiano colocava o "mundo" para dentro de sua casa, entrava em contato com "outros" valores, assimilava em seu viver o estilo de vida burguês. Era realmente uma ameaça. Por isso a proibição unilateral, a disciplina e exclusão de algum membro que ousasse possuir tal aberração. Chateaubriand nem imaginou, o quão proféticas seriam suas palavras para as ADs no Brasil.

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

MATTOS, Sérgio Augusto Soares. História da televisão brasileira – Uma visão econômica, social e política. 4.ed. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2009.

MENSAGEIRO DA PAZ de abril de 1967. Rio de Janeiro: CPAD. 

MORAIS, Fernando. Chatô: o rei do Brasil. A vida de Assis Chateaubriand. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

MOTA, Alice Agnes Spíndola. A Influência da Televisão no Desenvolvimento Regional da Zona Rural no Município de Palmas-TO.Palmas. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal do Tocantins, Curso de Mestrado em desenvolvimento Regional e Agronegócio, 2010.

4 comentários:

  1. Prezado Mário Sérgio, gostaria de salientar o seguinte: a internet é milhões de vezes mais perigosas que TV e rádio juntos, curiosamente, ninguém se levantou contra! É um mistério que talvez nunca entendamos.

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  2. Em tempo, a televisão ainda é uma ameaça a uma vida de santidade. Se lhe devotarmos tempo e atenção de tal forma que atrapalhe nossa ida à igreja, por exemplo...

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  3. E olha que a programação da TV piorou muito Daladier. É uma verdadeira "caixa" de alienação cultural.

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  4. rsrs... uai, mas essa paródia aí do Salmo 23 deve ser de Deus mesmo, pois se cumpre à risca nos dias de hoje...

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