Élida - uma diaconisa na AD em Santa Catarina

O ministério feminino sempre foi um assunto polêmico nas Assembleias de Deus no Brasil. Marcou a primeira Convenção Geral da denominação ocorrida em Natal (RN), em 1930, e continuou a ser motivo de debates e controvérsia em outras reuniões da liderança nacional, principalmente em 1983 e 2001.

Na primeira CGADB em 1930, com a presença de Frida Vingren, a atuação feminina foi aceita, mas com limitações bem específicas. As mulheres poderiam testemunhar, porém, só em casos de exceção seria conveniente atuar como ensinadoras e pregadoras. A decisão de 1930, foi frontalmente contrária a atuação da esposa de Gunnar Vingren na igreja carioca, na qual Frida se destacava como líder pentecostal.

Frida ameaçou a supremacia masculina no ministério, porém, não foi a única. Segundo a própria historiografia oficial, outras mulheres participaram ativamente do início da obra pentecostal no país. Isael de Araújo no Dicionário do Movimento Pentecostal, cita várias jovens e senhoras que participaram com destaque da fundação de igrejas pelo Brasil. Contudo, como muitos estudiosos da história das ADs já sabem, na primeira Convenção Geral, o casal Vingren foi voto vencido e às mulheres foi vedado o acesso ao ministério.

Mas mesmo assim, elas continuaram se destacando em vários momentos da história assembleiana. Uma dessas pioneiras, cuja atuação ficou esquecida por muitos, foi a da jovem Élida Andrioli Vieira, uma das pioneiras da AD no estado de Santa Catarina. Em testemunho ao Mensageiro da Paz (2ª quinzena de fevereiro de 1933), Élida conta o seu testemunho de conversão. Segundo seu relato, viveu 22 anos somente ouvindo falar de Cristo, até que um dia "Deus, que é misericordioso, enviou a Itajaí um dos seus servos, cheio do Espirito Santo, para anunciar a mensagem do céu". Esse servo era André Bernardino da Silva, fundador da AD catarinense. 

Élida e seu esposo Ângelo 
Élida, impressionada com as pregações, converteu-se ao evangelho e passou a colaborar com o crescimento da AD na região litorânea. Segundo o irmão Paulo Vieira Marques, sua mãe, por ser uma jovem comunicativa, destacada e dinâmica nas atividades da igreja, foi separada a diaconisa por Gunnar Vingren em sua visita a Itajaí em 1931. Vingren era totalmente favorável ao ministério feminino, e na igreja de São Cristóvão já havia ordenado Emília Costa para o diaconato. Interessante é que essa separação se fez depois da Convenção Geral de 1930 onde, a contragosto, Gunnar aceitou a resolução que limitava o acesso das mulheres ao ministério.

Quanto à atuação de Élida, o próprio Bernardino é testemunha da sua intensa operosidade da jovem nos primórdios da AD catarinense. Em relato ao Mensageiro da Paz (2ª quinzena de junho de 1932), André comenta que a pioneira esteve 15 dias na localidade de Ilhota com um grupo de crentes. Nesse período, segundo ele, houve batismos com o Espírito Santo, e um batismo em águas efetuado por André logo depois desse período de trabalho. Nas informações dadas pelo pioneiro, percebe-se que Élida foi a responsável direta pela pregação, discipulado e orientação desses novos membros.

Em certo momento, Bernardino relata que após o batismo em águas em Ilhota, ao voltar para casa, ele adoeceu, não podendo atender a Escola Dominical em Itajaí, mas "a irmã Élida foi em meu lugar". Mais uma vez, é destacada a importância e a responsabilidade da jovem obreira. Interessante, que não há menção direta a nenhum outro auxiliar e obreiro; talvez houvessem outros, porém a confiança depositada na cooperadora é evidente.

Élida e netos: consagrada diaconisa por Vingren 

A atuação dessa jovem, e o espaço que ocupou ainda nos primórdios da AD catarinense, com certeza refletia o modelo de trabalho pentecostal que André encontrou ao frequentar na AD em São Cristóvão. Bernardino, como se sabe, cooperou ativamente na igreja onde Frida desenvolvia seu ministério. Talvez, ele simplesmente adotava o modelo implantado no Rio. Afinal de contas, ele testemunhou o dinamismo de Frida na AD carioca.

Bernardino pouco depois deixou a liderança da AD em Santa Catarina, e Élida casou-se com Ângelo Marques Vieira, um jovem senhor viúvo. Constituiu família, mudou-se em 1940 para a cidade de Rio do Sul, e ali muito colaborou no trabalho da AD local. 

Com a saída de Vingren da liderança da AD nacional, e a aplicação da resolução da CGADB de 1930, o ministério feminino ficou relegado ao esquecimento. Élida ainda continuou cooperando na igreja, porém, sua separação à diaconisa e as responsabilidades que tinha nos primórdios da obra foram esquecidas, pois novos líderes se levantaram e a história da AD catarinense passou a ser contada pela ótica masculina.

Mas a pioneira não parou de se envolver nos trabalhos da igreja. Anos depois, mesmo tendo perdido a visão, continuou a cooperar em recitais, cânticos e programações nas datas festivas. Resignou-se humildemente em servir a Deus, sem buscar status ou posição na denominação que ajudou a construir em seus primórdios. Faleceu aos 82 anos, depois de participar de um culto onde cantou três hinos da Harpa Cristã. Um belo exemplo de vida!

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

MARQUES, Paulo Vieira. Joinville: 06 de dez. 2012. Entrevista concedida a Mario Sérgio de Santana.

Mensageiro da Paz. Rio de Janeiro. 2ª quinzena de junho de 1932.

Mensageiro da Paz. Rio de Janeiro. 2ª quinzena de fevereiro de 1933.

Comentários

  1. Prezado Mário Sérgio, espetacular você trazer à luz tantos exemplos. Você conhece o meu blog, aonde tenho falado sobre o assunto. Na eternidade conheceremos plenamente tal trabalho.

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  2. Caro Daladier:

    Sim, tenho lido e observado seu blog, e suas postagens são muito pertinentes sobre o ministério feminino. Meu desejo, é somente dar minha contribuição sobre esse tema tão debatido e polêmico dentro das Assembleias de Deus no Brasil.

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  3. Uma ótima postagem sobre um assunto que foi colocado uma pedra, e das grandes, em cima.
    Perde-se muito em não apoiar o ministério feminino. Essa e outras são exemplo disso.

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  4. Jesus era tão revolucionário, tão polêmico, tão inovador, tão despreocupado com tradições, legalismo ou costumes que a única razão para ele não ter comissionado mulheres para serem apóstolas ou pastoras é o simples fato de não querer mulheres na liderança da Sua Igreja. Daí está absolutamente certo que ainda hoje ele não o quer (afinal seria estranho – pra dizer o mínimo – um Deus imutável mudar de opinião). Por isso sou contra a ordenação de mulheres como pastoras, líderes, apóstolas ou episcopesas (para quem não sabe a forma correta de dizer "bispa").

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  5. Parabéns pelo Post, uma clarividência meridiana abordas sobre os fatos do ministério feminino, ficando evidente o machismo Assembleiano!

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  6. Olá irmãos que a Paz de Jesus O cristo esteja com todos nós. Como quase que de praxe, sempre que nos deparamos com polêmicas tendemos a buscar a resolução pela via mais simples, ou menos desgastante. E não é diferente com o assunto em questão. Porém, independente do que cada um pense a respeito da questão hora em discussão, devemos olhar com reverência e como referência o que a Bíblia diz sobre o assunto. Em 1 Corintios 14:34-38 e 1 Timóteo 2:9-15 a Bíblia nos dá uma direção de como este assunto deve ser discutido. Eu sou ainda bastante leigo no que tange este assunto do ponto de vista Bíblico, mas uma coisa fica claro a qualquer leitor, que há uma limitação já pré-estabelecida nas escrituras em relação a atuação das mulheres no Ministério Eclesiástico. Dando ênfase ao versículo 37 do texto de 1 Coríntios 14, o apóstolo Paulo diz que se alguém é PROFETA ou ESPIRITUAL irá reconhecer que isso é MANDAMENTO do Senhor. Para finalizar digo que, eu prefiro ficar com a Bíblia. Mas isso não quer dizer que eu despreze uma mensagem trazida por uma mulher, Deus me livre desta loucura, pois a Palavra de Deus não se converte em verdade por estar na boca de um homem ou deixa de ser verdade por estar na boca de uma mulher, é a Palavra de Deus e pronto. Que Deus possa nos dar sabedoria para que ninguém seja privado da Graça de Deus(Hebreus 12:15).

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    1. Amado, é que esse povo pensa que para a mulher ser usada e fazer a obra de Deus,tem que ser que ser consagrada!Ela não teve culpa de ser separada e ocupar um cargo que não lhe pertencia!Os apóstolos separaram somente homens para esse ministério,pq não separou tb suas mulheres? Com medo,da reação dos machistas? Não!!! Eles seguiram o exemplo de Deus e de Jesus,que nunca chamaram mulheres para o ministério! Se a convenção se reuniu em 1930 e barraram a decisão de separar mulheres,eles tomaram esta decisão baseado no que a bíblia diz, e ponto final! Deixa pra CADB e Madureira,abraçarem esta heresia!

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  7. Então porque tanta conversa qdo se fala em DIACONISA ? Se tempos atrás já havia tal função,e porque tanto critica ministério que tem em seus quadros diaconisa ,se nos primeiros passos da igreja no BRASIL as irmãs nessa função.

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