sábado, 15 de dezembro de 2012

Élida: uma diaconisa na AD em Santa Catarina

O ministério feminino dentro das Assembleias de Deus no Brasil sempre foi um assunto polêmico. Marcou a primeira Convenção Geral da denominação em 1930, e continuou a ser motivo de debates em outras reuniões da liderança nacional, principalmente em 1983 e 2001.

Na primeira CGADB em 1930, com a presença de Frida Vingren, a atuação feminina foi aceita, mas com limitações bem específicas. As mulheres poderiam testemunhar, porém só em casos de exceção poderiam realmente atuar como ensinadoras e pregadoras. Essa decisão, foi frontalmente contrária a atuação da senhora Vingren, a qual muito se destacava na liderança da AD no Rio de Janeiro.

Frida foi a principal mulher naquele período a ameaçar a supremacia masculina no ministério, porém não foi a única. Segundo a própria historiografia oficial, outras senhoras participaram ativamente do início da obra pentecostal no país. Isael de Araújo, em seu Dicionário do Movimento Pentecostal cita várias jovens e senhoras que participaram ativamente da fundação de igrejas pelo Brasil. Porém, como muitos estudiosos da história assembleiana já sabem, na primeira Convenção Geral ocorrida na cidade de Natal - RN, o casal Vingren foi voto vencido e às mulheres foi vedado o acesso ao ministério.

Mas mesmo assim, elas continuaram se destacando em vários momentos da história assembleiana. Uma dessas pioneiras, cuja memória esta obscurecida pelo tempo, é a irmã Élida Andrioli Vieira, uma das primeiras crentes da AD no estado de Santa Catarina. Em testemunho ao Mensageiro da Paz (MP - 2ª quinzena de fevereiro de 1933em 1933, a jovem Élida conta um pouco do seu testemunho de conversão. Segundo seu relato, viveu 22 anos somente ouvindo falar de Cristo, até que um dia "Deus, que é misericordioso, enviou a Itajaí um dos seus servos, cheio do Espirito Santo, para anunciar a mensagem do céu". Esse servo era André Bernardino da Silva, fundador da AD catarinense, o qual testemunhava da experiência pentecostal. 
Irmã Élida e seu esposo Ângelo: casal pioneiro na AD catarinense
Élida, impressionada com as pregações, logo se converteu ao evangelho e passou a colaborar com o crescimento da AD na região litorânea. Segundo o irmão Paulo Vieira Marques, sua mãe, por ser uma jovem comunicativa, destacada e dinâmica nas atividades da igreja, foi separada a diaconisa por Gunnar Vingren em sua visita a igreja de Itajaí em 1931. Vingren, como se sabe, era amplamente a favor do ministério feminino, e na igreja de São Cristóvão já havia ordenado Emília Costa para o diaconato. Interessante ainda é que essa separação se fez depois da Convenção Geral de 1930 onde, a contragosto, Gunnar teve que aceitar a resolução que limitava o acesso feminino ao ministério.

Quanto a atuação da jovem Élida, o próprio Bernardino é testemunha da sua intensa operosidade nos primórdios da AD catarinense. Em relato ao MP (2ª quinzena de junho de 1932), André comenta que a pioneira esteve 15 dias na localidade de Ilhota com um grupo de crentes. Nesse período, segundo ele, houve batismos com o Espírito Santo, e um batismo em águas efetuado por André logo depois desse período de trabalho. Nas informações dadas pelo pioneiro, percebe-se que ela foi a responsável direta pela pregação, discipulado e orientação desses novos membros.

Em certo momento, Bernardino ainda relata que após o batismo em águas em Ilhota, ao voltar para casa, adoeceu, não podendo atender a Escola Dominical em Itajaí, mas "a irmã Élida foi em meu lugar". Mais uma vez, é destacado a importância e a responsabilidade da jovem obreira. Interessante, que não há menção direta a nenhum outro auxiliar e obreiro; talvez houvessem outros, porém a confiança depositada na cooperadora é evidente.

Élida e netos: consagrada diaconisa por Vingren
A atuação dessa jovem, e o espaço que ocupou ainda nos primórdios da AD catarinense, com certeza refletia o modelo de trabalho pentecostal que André encontrou ao frequentar na AD em São Cristóvão. Bernardino, como se sabe, cooperou ativamente na igreja onde Frida desenvolvia seu ministério abertamente com o apoio de seu esposo Gunnar. Talvez, ele simplesmente permitia que o modelo experimentado na então Capital Federal fosse implantado nos primórdios da AD de Santa Catarina. Afinal de contas, ele testemunhou o dinamismo de Frida na AD carioca.

Bernardino logo foi suplantado na liderança da AD em Santa Catarina, e Élida se casou com Ângelo Marques Vieira, um jovem senhor viúvo. Constituíram família, mudaram-se em 1940 para a cidade de
Rio do Sul, e ali muito colaboraram no trabalho da AD local. Com a saída de Vingren da liderança da AD nacional, e a aplicação da resolução da CGADB de 1930, o ministério feminino dentro da denominação ficou relegado ao esquecimento. Élida ainda continuou cooperando na igreja, porém sua separação a diaconisa e as responsabilidades que tinha nos primórdios da obra foram esquecidos, pois novos líderes se levantaram e a história da AD catarinense passou a ser contada pela ótica masculina.

Porém a pioneira não parou de se envolver nos trabalhos da igreja. Mesmo tendo perdido a visão, continuou a cooperar em recitais, cânticos e programações em datas festivas. Resignou-se humildemente em servir, sem buscar status ou posição na denominação que ajudou a construir em seus primórdios. Faleceu aos 82 anos, depois de participar de um culto onde cantou três hinos da Harpa Cristã. Um belo exemplo de vida!

Obs: o autor desse texto se encontra em fase de pesquisa sobre essa diaconisa, talvez a primeira e a única na AD em Santa Catarina. Em breve um texto mais amplo e contextualizado sobre essa pioneira será escrito e publicado.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

MARQUES, Paulo Vieira. Joinville: 06 de dez. 2012. Entrevista concedida a Mario Sérgio de Santana.

Mensageiro da Paz. Rio de Janeiro. 2ª quinzena de junho de 1932.

Mensageiro da Paz. Rio de Janeiro. 2ª quinzena de fevereiro de 1933.

3 comentários:

  1. Prezado Mário Sérgio, espetacular você trazer à luz tantos exemplos. Você conhece o meu blog, aonde tenho falado sobre o assunto. Na eternidade conheceremos plenamente tal trabalho.

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  2. Caro Daladier:

    Sim, tenho lido e observado seu blog, e suas postagens são muito pertinentes sobre o ministério feminino. Meu desejo, é somente dar minha contribuição sobre esse tema tão debatido e polêmico dentro das Assembleias de Deus no Brasil.

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  3. Uma ótima postagem sobre um assunto que foi colocado uma pedra, e das grandes, em cima.
    Perde-se muito em não apoiar o ministério feminino. Essa e outras são exemplo disso.

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