quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

A CGADB de 1937 e a "guerra conservadora"

A Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB), realizada entre 3 a 17 de outubro de 1937 na cidade de São Paulo, foi um marco na história da denominação no país, pois nela muitos assuntos de extrema importância foram discutidos.
                 
A CGADB deste ano, foi presidida por Paulo Leivas Macalão tendo como seu vice o pastor Cícero Canuto de Lima. Segundo o jornalista e escritor Silas Daniel, autor do livro História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil, essa reunião da liderança assembleiana foi histórica, pois muitos dos assuntos ali tratados repercutiram por muitos anos na trajetória da denominação no país.

CGADB de 1937:  lado a lado futuros concorrentes em SP, Macalão e Cícero de Lima


A CGADB de 1937 discutiu o uso do rádio na evangelização, sendo permitido a utilização do mesmo para a evangelização, mas não a sua liberalização para os membros da igreja. Discutiu-se ainda a evangelização dos indígenas, revisão da Harpa Cristã, o uso de cruz nas fachadas dos templos, o ensino teológico para obreiros etc. Houve uma proposta de criação de um hospital evangélico, porém tal iniciativa foi desaprovada, pois se entendia que a missão da igreja era estritamente espiritual, e se havia enfermos, eles deveriam antes de tudo receber oração para serem curados. Seria, na visão dos convencionais, uma contradição à fé pentecostal tal iniciativa.
Outro assunto que merece uma análise mais apurada, foi sobre a abertura de igrejas em estados onde já existissem trabalhos. Daniel informa que "esse assunto foi muito debatido". A resolução da Convenção não proibiu os ministérios assembleianos de atuar em outros estados, mas afirmou que não deveria haver guerra e contenda, e sim união, cooperação e comunicação entre eles.

É interessante, que o presidente e o vice da CGADB daquele ano seriam, ironicamente, protagonistas durante muitos anos das discórdias e desuniões das ADs no Brasil. Segundo Gedeon Alencar, os dois em vida, polarizaram a conhecida disputa assembleiana "Missão & Madureira". Dentro em poucos meses, Macalão causaria constrangimentos, ao abrir na cidade de São Paulo (com ajuda do seu cunhado Sylvio Brito), onde presidiu a Convenção Nacional, uma igreja filiada ao ministério de Madureira no Rio de Janeiro. Poucos anos depois (1946), Cícero C. de Lima assumiria a AD do Belenzinho, tornando-se forte opositor de Paulo Leivas na capital.

Conforme Alencar, os dois notáveis líderes, vivenciaram uma "guerra de conservadorismo", que se reproduzirá por todo o país. Nas palavras do estudioso, Macalão e Cícero foram:
Consagrados ao pastorado, igualmente com 30 anos e solteiros, depois de idosos, nenhum deles incentivou e deu oportunidade para jovens solteiros no pastorado. Nesse embate, eles simbolizam o que todos os demais pastores, e principalmente os presidentes estabeleceram como modelo: se eternizando nos cargos, pois foram poucos os que optaram pela jubilação; entronizados em suas “cadeiras papais” nos púlpitos, inquestionáveis em suas idiossincrasias, reverenciados por seus seguidores. E apesar de todo esse espectro moral e poder simbólico que exerceram, nenhum dos dois teve um continuum, pois seus sucessores, por razões diversas, alteraram não somente a forma de ser pastores-presidentes, mas o estilo conservador de seus Ministérios.
Esses dois líderes assembleianos, durante muito tempo foram rivais na condução da igreja. Construíram grandes ministérios e, como se viu, imprimiram sua marca na denominação. É impossível contar a história das ADs sem mencioná-los. Morreram no mesmo ano:1982. 

Seus sucessores, se alteraram "a forma de ser pastor presidente", no mínimo perpetuaram o clima de desunião entre os dois ministérios. Manuel Ferreira, hoje bispo e líder máximo do ministério de Madureira segue firme e forte consolidando sua dinastia na igreja. José Wellington Bezerra da Costa, desde 1988  domina de forma soberana a CGADB. Porém, seus sucessivos mandatos, têm causado questionamentos de toda ordem nos últimos anos.

Passados 75 anos dessa convenção fica a seguinte observação: os dois líderes fizeram escola. Mas de certa forma, essa rivalidade contribuiu para o crescimento da AD. Porém, essa mesma rivalidade é a causa maior de sua fragmentação.

Fontes:

ALENCAR, Gedeon Freire de. Assembleias Brasileiras de Deus: Teorização, História e Tipologia- 1911-2011. Pontifícia Universidade Católica: São Paulo.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.


4 comentários:

  1. Excelente conclusão, meu caro Mario Sérgio. Um verdadeiro paradoxo! De um lado, a rivalidade contribuiu para o crescimento. É o evangelho pregado por contenda, aventado por Paulo. De outro, a mesma rivalidade contribuiu para a fragmentação.

    Abraços!

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  2. Prezado Mário Sérgio, gostei do destaque que destes ao faça o que eu mando, não faça o que eu faço. Foram consagrados bem jovens, mas não quiseram consagrar nenhum jovem. Haja contradição!

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