quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Manoel Germano de Miranda: um simples pioneiro

Manoel Germano de Miranda era um simples cozinheiro de um barco de pesca quando aceitou à Cristo como Salvador. Chamou-lhe certo dia a atenção, quando um grupo de crentes pentecostais, na recém fundada Assembleia de Deus em Itajaí, foram perseguidos violentamente por um sacerdote católico. Impressionado com tudo o que viu, se dirigiu a igreja e aceitou a fé pentecostal.

Tempos depois, Miranda testemunharia ao Mensageiro da Paz (2ª quinzena de novembro de 1937) sobre sua conversão. No texto ele relata que "vivia em trevas, andando em pecado, cheio de vícios, escravo do mal, sem paz para mim e nem para o meu lar". Afirma ainda, que "vagava como um barco sem rumo" até que ouviu a pregação do evangelho, examinou uma velha Bíblia católica, e através da leitura da mesma teve uma revelação divina levando-o a conversão.

Logo em seguida começou a cooperar no trabalho, substituindo o pioneiro André Bernardino em suas viagens. Meses depois, Miranda se sente chamado para pregar o evangelho na cidade de Joinville. Através de um sonho, Deus lhe mostra a cidade, a qual nunca havia estado. Relutante, Miranda obedece, e chegando em Joinville se emprega na antiga estrada de ferro, e começa a dirigir os cultos na casa de um senhora crente chamada Ana Salvador. Assim, pregando, evangelizando e realizando cultos nas casas o trabalho cresceu e se expandiu.

Há uma controvérsia sobre a vinda de Manoel Miranda para Joinville. Segundo relatos da família, o jovem Miranda fundou a Assembleia de Deus em Joinville, obedecendo tão somente a um sonho, a orientação divina. Foi Deus que diretamente lhe enviou para a cidade. Mas conforme relatos da família de André Bernardino, fundador da AD em Santa Catarina, Miranda teria sido orientado pelo próprio André para vir a cidade e auxiliar a obra.

Pelo que se percebe na história oficial e nos relatos registrados dos antigo crentes de Joinville, possivelmente Miranda deve ter vindo por orientação de Bernardino. O núcleo de crentes que havia em Joinville tinha se convertido em Itajaí, e aqui não havia nenhum obreiro para atender os cultos. É improvável que em algum momento, Bernardino não tenha orientado o jovem obreiro. Segundo depoimento da esposa de André Bernardino por ocasião do Cinquentenário da AD em Joinville, Miranda "era um crente novo" e "nem sabia pregar, mas o que ele sabia, fazia". 

Assim, com seu jeito simples, extrovertido e com muito esforço, Manoel evangelizou toda a região de Joinville, inclusive as cidades vizinhas. Aos poucos, conforme a denominação ia se organizando, Miranda passou a ser reconhecido em seu ministério, até que em 1942 foi separado ao pastorado. É bom destacar, que Miranda nunca teve autonomia sobre o trabalho pentecostal na cidade, pois sempre foi supervisionado de perto, ou por André Bernardino ou Alberto Widmer. Com a vinda do missionário Virgil Smith para Joinville, Manoel é transferido para a cidade de Mafra.

A vinda de Smith foi estratégica para o desenvolvimento da denominação em Joinville e em Santa Catarina. Os missionários norte-americanos organizaram e estruturaram a igreja, deram-lhe impulso e bases para maior crescimento. Mas Marcílio de Miranda, filho do pioneiro, conta que seu pai se sentiu deixado de lado. Havia ele iniciado o trabalho, visitado, evangelizado, ganho famílias inteiras, e com a mudança se sentiu desprestigiado. Em alguns momentos pensou até em deixar, se transferir para outra denominação.

Smith era um homem culto, administrador e um teólogo destacado. Isso por certo agradou as famílias mais abastadas e delas teve apoio. Talvez isso tenha desagradado Manoel Miranda. Por outro lado, seu filho conta ainda que seu pai era muito querido, na sua simplicidade, nas suas palavras era motivo de diversão por parte de alguns membros. Há em tudo isso uma ponta de ciúmes, um desejo incontido de reconhecimento por um trabalho por ele atendido durante muito anos. Mas a AD catarinense vivia novos tempo sob a tutela dos norte-americanos, e as mudanças eram necessárias.

Manoel Germano de Miranda, faleceu na cidade onde iniciou sua fé e na qual pastoreava a AD em 1962: Itajaí. Conta seu filho, que nos seus últimos dias, já doente, cultivava ele um orquidário em sua casa. Interessante faceta de um senhor que no principio de seu ministério não sabia pregar, considerado simples demais, mas que revelava no trato com as flores uma sensibilidade grandiosa. Sensibilidade essa aproveitada do trato com as ovelhas que cuidou. 

Num tempo em que as ovelhas são simplesmente tratadas como consumidores, ou massa de manobra, o exemplo de Miranda não deixa de impressionar. Simplicidade, sensibilidade e sacrifício são palavras e sentimentos esquecidos por muitos que se dizem ministros na igreja de Deus.

Fontes:

Boletim Informativo - Assembleia de Deus ano: VI nº 144 outubro de 1982.

Mensageiro da Paz, 2ª quinzena de novembro ano:VII, nº 22 - Rio de Janeiro, 1937.

Miranda, Marcílio. 20 de agosto de 2008. Entrevista concedida a Claiton Ivan Pommerening e Mario Sérgio de Santana.


POMMERENING, Claiton Ivan (Org.). O Reino entre príncipes e princesas: 75 anos de história da Assembléia de Deus em Joinville. Joinville: REFIDIM, 2008.


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