sábado, 25 de agosto de 2012

Os Escolhidos - fragmentos da história assembleiana

O livro Os Escolhidos: a saga dos evangélicos na construção de Brasília do jornalista Jason Tércio é uma obra que trás relatos surpreendentes sobre a história das Assembleias de Deus no Brasil. O objetivo do autor, é fazer um relato da evangelização e instalação dos vários segmentos evangélicos no período da formação da nova Capital Federal. Nas páginas de Os Escolhidos, se encontram diversas informações do trabalho pioneiro de batistas, presbiteranos, metodistas e, principalmente, assembleianos na grande obra do governo JK.

Filho de um pioneiro assembleiano (seu pai Venâncio Rodrigues do Santos foi pastor e escritor na AD) Tércio, numa linguagem acessível e objetiva, conta as aventuras e desventuras dos primeiros evangélicos em Brasília. Por ser filho de assembleianos, ele "retrata um mundo que lhe é muito familiar", segundo as palavras de Joanyr de Oliveira que prefaciou o livro. Tendo essa familiaridade como aliada, o jornalista revela histórias não contadas pela historiografia oficial da denominação, e lança luz sobre muitos acontecimentos de bastidores.

Brasília foi projetada para ser a meta-síntese da administração JK, e o símbolo máximo do seu slogan "50 anos em 5". Trabalhadores de todo o Brasil se aventuraram na construção de uma utopia no Planalto Central brasileiro, de uma cidade que representasse o futuro de desenvolvimento, otimismo e capacidade de superação do Brasil e seu povo. Ironicamente, ali na futura Capital, as AD's conseguiram sintetizar seus quase 50 anos em 5. Como fizeram isso? Tércio detalha as divergências e negociações dos ministérios assembleianos rivais, as administrações personalistas dos seus pioneiros, a fragmentação ministerial numa cidade sonhada para unir e não para dividir. Tudo isso está relatado em Os Escolhidos.

Para os leitores dessas linhas, transcrevo alguns trechos significativos. Muitas outras informações se encontram no livro, mas deixo aqui um pequeno apanhado sobre os líderes e ministérios da AD. Dados que a história oficial não divulga, mas que vale a pena compartilhar.

Sobre Paulo Leivas Macalão: Tércio descreve seu físico e estilo de liderança. 
Baixo, corpulento, era um dos principais líderes da Assembléia de Deus no Brasil, tendo expandido seu trabalho evangélico com proverbial rigidez. Obreiros de seu ministério que demonstrassem personalismo e um mínimo de independência eram severamente repreendidos, às vezes punidos com transferência para outra igreja ou simplesmente excluídos. Se ele não simpatizasse com alguém ou percebesse que o crente pretendia apenas usar sua influência, Macalão o neutralizava com um gesto simples, porém bastante eficaz - cumprimentava com as pontas dos dedos.
Os acordos de limites de jurisdição eclesiástica: o livro relata os acordos informais feitos entre os líderes para depois serem desrespeitados.
No acampamento da construtora Castor, na Granja do torto, os trabalhadores crentes continuavam fazendo cultos num barraco erguido por eles. Discutiam a necessidade de fundar mais um templo da Assembléia de Deus. Havia, porém, uma barreira: acordo recém firmado entre Madureira e outros ministérios assembleianos estabelecera limites territoriais - onde existisse  igreja de Madureira não haveria outro ministério, e vice-versa. No escritório da igreja de São Cristóvão, Rio, o pastor-presidente, Alcebíades Vasconcelos, seu vice, Túlio Barros Ferreira, e Paulo Macalão tinham se reunido, com um mapa do Brasil sobre a mesa, delimitando sua respectivas áreas de atuação.
Criação de ministérios autônomos: a nova Capital despertava um ímpeto de independência nos novos obreiros que ali ministravam. Percebia-se um grande potencial de crescimento. Esse foi o caso do pastor Francisco Miranda.
Assim Miranda criou uma igreja autônoma, presidida por ele, sem vínculo com sede em São Cristóvão... A independência unilateral foi proclamada na noite de 15 de janeiro, sexta-feira, durante um culto, transformado em assembléia extraordinária, para tratar, segundo Miranda informou, de assuntos administrativos urgentes... Os auxiliares de Miranda logo passaram a considerar seu método administrativo muito personalista e centralizador. Nas conversas informais após os cultos, brotava a discórdia, prenunciando uma tempestade. 
Fonte:

TÉRCIO, Jason. Os Escolhidos - a saga dos evangélicos em Brasília. Brasília: Coronário, 1997. 

Um comentário:

  1. É Mário Sérgio... já naquele tempo os generais se debruçavam sobre mapas...

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