quinta-feira, 19 de julho de 2012

Estevam Ângelo de Souza: um conceito de ministério

No dia 14 de fevereiro de 1996, se encerrava a carreira ministerial e de vida de um dos mais proeminentes líderes das Assembleias de Deus no Brasil e no Nordeste. Nessa fatídica data, morria vítima de uma acidente automobilístico, o pastor Estevam Ângelo de Souza. Foram 49 anos de ministério pastoral, e quase 40 anos como pastor da igreja de São Luís no Maranhão.

Nascido no interior do Maranhão, Estevam se converteu aos 21 anos de idade, e logo se tornou evangelista itinerante. Evangelizou o Estado do Piauí durante dois anos, sem ter campo definido ou ajuda financeira. Segundo seus próprios relatos, percorria mais de 300 quilômetros a pé a vasta região dos sertões piauienses, evangelizando e visitando os poucos crentes espalhados pela região. Levando sempre uma maca nas costas e tendo o chapéu de palha como "moradia", Estevam iniciou assim de forma rudimentar seu ministério, que aos poucos se desenvolveu e se consolidou como o mais influente na AD do Maranhão.

Quando assumiu o pastorado da AD na capital maranhense, o Estado passava por duas transições. A primeira era política, quando o Estado deixava para trás a época vitorinista (nome dado a hegemonia de Vitorino Freire na política estadual) e se ajustava a ascensão do clã Sarney na condução da política. A outra era urbana, pois nesse período a população do Estado se urbanizava e conflitos agrários se intensificavam no interior com a participação de crentes pentecostais no processo.

Pastor Estevam: ministério sinônimo de sacrifício 

Assim, Estevam Ângelo de Souza conviveu com agudas transformações sociais, políticas e econômicas do seu tempo. Viveu os desafios e as tensões que o cargo lhe oferecia. Na década de 70 permitiu que o então governador José Sarney subisse ao púlpito da igreja, mas por outro lado não permitia que outros políticos adentrassem na igreja e utilizassem a sua imagem para proveito próprio. Essa relação dúbia com a política talvez se explique pelas perseguições ferozes ocorridas no começo do pentecostalismo no nordeste, onde apedrejamentos e perseguições eram comuns. Obter o favor de autoridades era um grande passo na proteção necessária para se pregar o evangelho, mas por outro lado o púlpito poderia se tornar palanque privilegiado para alguns.

Durante o tempo que pastoreou a igreja, exerceu um estilo personalista e centralizador da administração eclesiástica da AD estadual. Foi durante muito tempo, presidente, motorista e datilógrafo da igreja, sendo ajudado por fiéis e filhos no desempenho de suas funções. Viajou pelo Brasil e o mundo pregando e ensinando as doutrinas pentecostais, escreveu artigos, livros e foi comentarista das lições da escola dominical da CPAD. Muitos membros da AD foram edificados por seus ensinos, principalmente sobre os dons espirituais e seu uso na igreja.

A vida e obra do pastor Estevam pode servir de base para algumas reflexões. Talvez a mais necessária nos dias de hoje seja sobre a sua visão de ministério; visão essa que para muitos se transformou extremamente de alguns anos pra cá. Em uma entrevista concedida ao Mensageiro da Paz de outubro de 1992, pastor Estevam, ao recordar os primórdios do seu ministério, das longas caminhadas e privações, recordou que "Naquele tempo, ministério era sinônimo de sacrifício." Essa preocupação, ele deixou evidente ainda mais em um longo texto escrito para o MP em janeiro de 1989 onde constatou que "Já vemos muitos púlpitos sem mensagem e muitas pregações sem conteúdo bíblico e espiritual. Aí estão os que exercem o ministério como meio de ganhar a vida e não de ganhar almas."

Pastor Estevam era um obreiro que percebia a transição que a AD passava naquele momento. Seus textos refletem muito as preocupações doutrinárias, éticas e políticas da denominação que ele ajudou a consolidar no Brasil. E a questão ministerial era, pelo que se percebe, um ponto crucial para ele. Para um homem com uma trajetória de vida marcada pela extrema dificuldade, certamente o uso do ministério para ostentação de riqueza, poder e fama não eram facilmente digeridos. Para ele "seria vergonha um pastor morrer rico."

Mas infelizmente suas preocupações cada vez mais se confirmam. Entrevistas em que televangelistas ostentam e esbanjam abertamente, e sem qualquer pudor seus ganhos milionários são recebidos por alguns como algo normal. A teologia da prosperidade é adaptada, reciclada e pregada em algumas igrejas, com o único intuito de legitimar fortunas e comportamentos nada evangélicos de seus líderes. Ministério hoje é lucro, abundância, poder, manipulação, show, espetáculo, política, grandes negócios e muito mais. Mas sinônimo de sacrifício... só quem sabe para um remanescente fiel.

Fontes consultadas:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

HALO, Pekelman. Stéfano dos Anjos, do Piauí ao Maranhão, da pobreza ao reino ditoso. Artigo, em seu formato original, foi escrito em janeiro de 2006. Foi porém revisto e ampliado em virtude de sua apresentação no X Simpósio da ABHR – Assis, São Paulo.

MOTA, Elba. Modelos e limites de um estudo biográfico: a trajetória do pastor Estevam Ângelo de Souza. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo, julho 2011.

MENSAGEIRO DA PAZ. Rio de Janeiro: CPAD.  Ano 58, n. 1.225, jan. 1989.

MENSAGEIRO DA PAZ. Rio de Janeiro: CPAD.  Ano 62, n. 1.267, out. 1992.

9 comentários:

  1. Excelente postagem meu precioso irmão em Cristo! "A memória do justo é abençoada, mas o nome dos ímpios apodrecerá" (Provérbios 10: 7). É maravilhoso ver que o nome do justo sempre será abençoado, que Jesus abençoe você e toda a sua família abundantemente.

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  2. Obrigado por sua consideração e generoso comentário. Pastor Estevam com certeza como toda grande liderança não foi uma unanimidade, mas alguns conceitos que estão perdidos nesse nosso tempo sempre é bom "resgatar".

    Um grande abraço!

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  3. Olá meus queridos irmãos, Graça e Paz.
    É bom encontrarmos textos que fortalece a nossa fé e nos edifica. Parabéns pelo trabalho maravilhoso que desenvolve aqui é muito edificante. Os dias que vivemos são de tribulação, lutas e resfriamento na fé, e de muitas heresias onde muitos se estão alimentando, de alimento não sólido e contaminado, por isso adoecem espiritualmente, e poucos se importam com isso. Sejam os meus amigos irmãos os vasos de livramento, para mostrar o grande amor de Jesus. Trazendo mensagens edificantes aos nossos corações. Fico feliz quando encontro alguém que escreve com amor e dedicação. Aprendemos uns com os outros crescemos na graça no amor e no conhecimento do nosso Senhor Jesus Cristo. Quero aproveitar a oportunidade para partilhar o meu blog : Peregrino E Servo. Vou ficar muito feliz com sua visita e comentários. Deus te abençoe ricamente.

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  4. Excelente texto! É preocupante imaginar que, conforme vão se passando os anos e os mais velhos vão partindo, os testemunhos das dificuldades e privações pelas quais passaram os pioneiros vão se tornando lendas e os líderes atuais vão se acomodando em seus púlpitos "herdados", usando as histórias de vida dos outros para legitimarem os seus ministérios. Se isso é parte do processo natural de institucionalização da igreja, aí eu já não sei, mas oro a Deus para que existam mais líderes de verdade que os fabricados e herdeiros do carisma alheio.

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  5. eu congreguei na igreja do pastor Estevão Angelo
    e preguei nessa mesma igreja ela fica na rua do passeio
    no centro de São Luis maranhão
    congreguei por cinco anos
    um grande pastor foi uma grande perca para a AD no Brasil
    gunnar vingren fialho
    pastor

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  6. Realmente não é fácil aceitarmos a perda deste grande Homem de DEUS. MAis o seu exemplo deixado, não só em vista, mais em nossos corações, já é um grande impulso para que posssamos servir a DEUS com muito mais integridade, nos ensinando a amar com todas as nossas forças, a tão grande obra do Nosso SENHOR JESUS.

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  7. O meu Pastor no Maranhão foi discípulo deste abnegado servo de DEUS !

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  8. Sou muitíssimo grato a Deus, por ter me apresentado este Homem de Deus, se hoje estou casado e com Jesus Cristo no meu coração, devo ao querido Pastor Estevão que viu em mim, uma alma que Deus amava e que queria vencer ele e seu filho Pastor Benjamim nunca desistiram de mim e hoje sou casado e temos uma filha abençoada , moro em Curitiba no Paraná !

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  9. Não tive o privilégio de conhecer esse homem de Deus, mas glorifico ao Senhor dos exércitos, pelo o trabalho do querido PR Estevam, pois nos deu um grande exemplo de um obreiro de valor. Hoje obreiro de caráter como o dele,está difícil. Que Deus tenha misericórdia de sua igreja.

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