sábado, 3 de março de 2012

Frida Vingren: desabafos no Mensageiro da Paz

A memória da pioneira Frida Vingren, ultimamente tem sido alvo nos últimos anos de várias discussões e polêmicas. Esquecida pela historiografia oficial das Assembleias de Deus, sua atuação, direção e ministério à frente da nascente igreja pentecostal, tem sido de certa forma "resgatado", tanto pelos historiadores assembleianos, como pelos estudiosos não ligados à denominação.

Gedeon Alencar levanta algumas hipóteses sobre a atuação dessa senhora no início do trabalho pentecostal no Brasil. Para ele, com Gunnar Vingren quase sempre doente e enfermo, era ela quem dirigia a igreja na cidade do Rio de Janeiro; tanto na ausência como na presença do esposo. Ela pregava, dirigia, cantava, tocava, escrevia, ou seja, exercia inúmeras funções na igreja. Porém, Frida e seu estilo de liderança, não foram aceitos pelos líderes da AD no Brasil, os quais na primeira Convenção Geral decidiram que:
As irmãs têm todo o direito de participar da obra evangélica, testificando de Jesus e a sua salvação, e também ensinando quando for necessário. Mas não se considera que uma irmã tenha função de pastor de uma igreja ou de ensinadora, salvo em casos excepcionais mencionados em Mateus 12. 3-8 (uma referência ao princípio de necessidade). Isso deve acontecer somente quando não existam na igreja irmãos capacitados para pastorear ou ensinar.
A decisão da Convenção ocorreu em setembro de 1930. Cinco meses depois, Frida Vingren escreve um vigoroso artigo no Mensageiro da Paz. Poderia ser simplesmente mais um texto, dos vários que ela escreveu ao periódico assembleiano. Porém esse artigo, escrito pouco tempo depois da primeira Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil, expõe muito do que a história oficial não revela. Com o título de Deus mobilizando suas tropas, a senhora Vingren desabafa, crítica e expõe claramente sua posição em relação a decisão da Convenção de pastores. O texto começa, com a argumentação de que Deus está mobilizando seu povo para a batalha espiritual, e precisa de todos os materiais e instrumentos para realizar sua obra aqui na terra. E é no desenvolvimento da escrita, que Frida expõe o seguinte:
Despertemo-nos, para atender o chamado do Rei, alistando-nos nas suas fileiras. As irmãs das "assembleias de Deus", que igualmente, como os irmãos têm recebido o Espírito Santo, e portanto, possuem a mesma responsabilidade de levar a mensagem aos pecadores precisam convencer-se que precisam fazer mais do que tratar dos deveres domésticos. Sim, podem também, quando chamadas pelo Espírito Santo, sair e anunciar o Evangelho. Em todas as partes do mundo, e especialmente no trabalho pentecostal, as irmãs tomam grande parte na evangelização. Na Suécia, país pequeno com cerca de 7 milhões de habitantes, existem um grande número de irmãs evangelistas, que saem por toda parte anunciando o Evangelho, entrando em lugares novos e trabalhando exclusivamente no Evangelho. Dirigem cultos, testificam e falam da palavra do Senhor, aonde há uma porta aberta. (Os que estiveram na convenção em Natal e ouviram o pastor Lewi Pethrus falar desse assunto sabem que é verdade). Por qual razão, as irmãs brasileiras hão de ficar atrasadas? Será, que o campo não chega, ou que Deus não quer? Creio que não. Será falta de coragem? Na "parada das tropas" a qual teve lugar aqui no Rio, depois da revolução, tomou também parte, um batalhão de moças do estado de Minas Gerais, as quais tinham se alistado para a luta. (MP 1º de fevereiro de 1931 p.6)
Frida, publicamente contesta a resolução da Convenção Geral. Revela informações atribuídas a Lewi Pethrus de que as mulheres na Suécia tinham liberdade de pregar, evangelizar e trabalhar em caráter exclusivo na obra pentecostal, enquanto que a resolução da CGADB dizia que as irmãs poderiam testificar e ensinar, mas somente poderiam de fato exercer o ministério em casos excepcionais. 

Nota-se o argumento de Frida já desenvolvido por ela em outro artigo publicado no Boa Semente (periódico antecessor do Mensageiro da Paz), no qual ela fala sobre a presença do Espírito Santo na vida do fiel, e capacitador tanto de homens como de mulheres ao ministério da palavra. Para ela, ministério não era questão de gênero, de ser homem ou mulher, mas dom do Espírito Santo a sua igreja.

E para reforçar seus argumentos, Frida recorre a um evento do qual ela foi testemunha ocular: a Revolução de 1930. Sendo moradora da então Capital Federal, ela testemunhou a chegada das tropas revolucionárias, e entre essas tropas ela viu com entusiasmo um "batalhão de moças do estado de Minas Gerais, as quais tinham se alistado para a luta". É nesse fato secular, que Frida apóia seus argumentos, para que as mulheres pentecostais fossem além de suas obrigações domésticas. Interessante é que ainda na década de 30 as mulheres conquistam seu direito de voto e participação política no Brasil.

Percebe-se assim,  no texto da pioneira, aquilo que a história oficial não revela, ou seja, um inconformismo, um sentimento de indignação pelo fato das mulheres das ADs no Brasil serem relegadas a um segundo plano na prática ministerial do pentecostalismo daquela época.


Fontes

ALENCAR, Gedon. Assembleia de Deus-origem, implantação e militância (1911-1946). São Paulo: Arte Editorial, 2010.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

Mensageiro da Paz. 1º de fevereiro de 1931. Ano 1 - nº3, p.6


8 comentários:

  1. Irmão Mario Sérgio,

    É sempre um privilégio pode aprender mais sobre a história da Assembleia de Deus. Que o Senhor continue a lhe abençoar, a fim de que possamos criticar cada vez melhor a história de nossa amada denominação à luz das Escrituras.

    Um grande abraço.

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  2. Sou pelo menos pouco mais que absolutamente nada, mais um vaidoso pecador para criticar uma pioneira de uma importante associação protestante como o são as nossas ADs no Brasil e no mundo todo, mas se o Senhor Jesus Cristo diz em João que o Espírito Santo não falaria de si próprio, mas daria testemunho do Senhor e a Bíblia é Esse Senhor, logo, não procede que Frida se baseasse no próprio Paráclito para pregar as teorias feministas dela.

    A Palavra não passará e a mesma interdita que mulheres exerçam papel de homem nas igrejas, além da mesma não deixar escapar o detalhe de que mulheres devem ficar caladas nas igrejas por ser vergonhoso que as mesmas falem nessas últimas.

    Sola Scriptura!

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  3. Irmão estive a ver algumas coisas em seu blog, e dou graças por haver homens que se interessam em divulgar a Palavra de nosso Deus. Desejo deixar um convite, tenho um blog com o nome de Peregrino e Servo, se desejar fazer parte, eu ficaria radiante em tê-lo como meu amigo virtual, isto é se desejar, se não ficamos amigos na mesma. Decerto irei retribuir seguindo o seu blog também. Um obrigado e muita paz e graça do Senhor Jesus.

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  4. Estive no Pronto Socorro recentemente, e quem me atendeu foi uma jovem médica ( de idade entre 25 a 30 anos(, a mesma faz parte de uma equipe de cirurgião, e me atendeu com uma profissionalidade e humanidade excepcional, o que me leva a pensar, se ela sendo mulher e com uma capacidade tal que me pode levar a curar-me dessa doença que tenho, como eu poderia disser a ela ou a equipe dela que não queria ser atendido por ela por ser mulher? provavelmente é ela que vai me operar daqui a alguns dias.

    Isso nos tempos dos apóstolos, seria inconcebível, mas hoje não.
    Será que o Senhor deixaria de usar mulheres capacitadas e cheias do Espírito Santo, somente por ser mulher?

    Certamente que não, pensando em Jz4.4, vemos Débora uma juíza, portanto com um cargo elevado, sendo usada nas mão do Senhor para livrar Israel... Poderíamos crer que o Senhor faria acepção de pessoa?

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  5. Sola scriptura.

    Que do mesmo modo as mulheres se ataviem em traje honesto, com pudor e modéstia, não com tranças, ou com ouro, ou pérolas, ou vestidos preciosos,

    Mas (como convém a mulheres que fazem profissão de servir a Deus) com boas obras.

    A mulher aprenda em silêncio, com toda a sujeição.

    Não permito, porém, que a mulher ensine, nem use de autoridade sobre o marido, mas que esteja em silêncio.

    Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva.

    E Adão não foi enganado, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão.

    Salvar-se-á, porém, dando à luz filhos, se permanecer com modéstia na fé, no amor e na santificação.

    1 Timóteo 2:9-15

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  6. Sola Scriptura... alguém conhece história??? alguém ai conhece a posição social da mulher no Império Romano?? Quando Paulo intrui isso a Timóteo, querido anônimo, ele apenas estava seguindo as leis do império, baseado no que ele escreveu em Romanos 13. A propósito, Paulo não era perfeito e ele diz "Não permito", bom ele não é Deus, e o próprio Jesus nunca determinou quem deveria dirigir alguma coisa. Outrossim, pra que brada Sola Scriptura... Leiam um pouco de história, estudem e verão que os concílios católicos que formaram o cânon que vocês lêm. É a palavra de Deus, com certeza, mas foram católicos, isso, eles mesmos, que formaram esse cânon que vcs falam ser a única palavra de Deus. Bom... Como historiador secular, é triste ver que uma pioneira como Frida Vingren foi chutada do Brasil pela igreja que seu marido e Daniel Berg fundaram... Citar a Bíblia é fácil, o difícil é não usar um texto sem ver o contexto para justificar o contexto...Soli Deos Honos

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  7. Belíssimo comentário, as vezes penso que as ADs são meramente um clube do Bolinha onde meninas não entram. Soli Deo Glória.

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  8. Falar mal do ministério de Madureira é facil! Agora reconhecer que Madureira é o ministério que mais da oportunidades para as mulheres, esse blog não o faz! Prª Keila Ferreira já ministrou casamento! #ADMadureiraSempreNaFrente

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