O livro Incidente em Antares (1971) é uma das últimas obras do escritor gaúcho Erico Veríssimo (1905-1975). Escrito durante a vigência do Regime Militar, a história é uma irônica crítica que o autor faz, não só ao regime com suas repressões e censuras, mas a toda sociedade brasileira. Ao criar uma cidade fictícia e uma história tão inusitada, o escritor na verdade prepara seus leitores para desnudamento das hipocrisias e perversidades que estão encobertas sob nomes dignos como moral, tradição e religião.
Naquela manhã, cerca das sete horas, Acácia entrou no gabinete do prefeito de Antares para fazer a limpeza de rotina. Sofria de elefantíase e movia-se com pesada lentidão dum paquiderme. Costumava trabalhar resmungando todo o tempo para si mesma e para as almas, os anjos e os demônios que sentia permanentemente ao seu redor... Todas as manhãs, tirante a de domingo, antes de começar a limpeza da peça, Acácia costumava ajoelhar-se diante da imagem do Pai dos Pobres e recitar atabalhoadamente uma oração. Em geral um Padre-Nosso. A negra velha era a encarnação dum curioso sincretismo religioso. Macumbeira, mãe-de-santo, devota de São Jorge, ela também ia à missa aos domingos, fazia promessa a Nossa Senhora, e de vez em quando se confessava e comungava. Ultimamente dera para freqüentar a Assembléia de Deus, pois lá encontrava a oportunidade, que a encantava, de entoar hinos com os demais crentes. (p. 301-302) Grifou-se.
É interessante como Veríssimo retrata essa personagem. Acácia é descrita como uma senhora pobre, de origem simples, com um trabalho humilde, a qual encarna segundo a ótica do autor a extrema religiosidade popular.
Ela é católica, macumbeira e pentecostal ao mesmo tempo. Convém lembrar, que o sincretismo religioso observado pelo escritor foi uma situação histórico-religiosa construída em muitos anos pelos escravos e seus descendentes no período da escravidão. Impossibilitados de praticar seus cultos aos deuses de sua religião, forçados a se cristianizarem, os escravos camuflaram seus deuses e crenças na adoração aos santos católicos. Então a referência ao sincretismo de Acácia é uma constatação de uma realidade histórica vivida em todo o Brasil por milhões de afrodescendentes.
Algumas considerações podem ser feitas a partir desse texto, o qual de certa forma revela não só as impressões do autor sobre o movimento pentecostal representado na Assembleia de Deus, como a própria constituição do pentecostalismo naquele momento.
Em primeiro lugar encontra-se a constatação da expansão geográfica da Assembleia de Deus. Antares como já se observou é uma cidade fictícia, onde os personagens e situações são representações da sociedade brasileira. Mas mesmo na ficção a Assembleia de Deus aparece como representante do movimento pentecostal.
Fontes:
FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo. In: ____. Nem anjos nem demônios; interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.
MARIANO, Ricardo. Neopentecostais; sociologia do novo pentecostalismo no Brasil. São Paulo: Loyola, 1999.
VERISSIMO, Erico. Incidente em Antares - 49. ed.-São Paulo: Globo, 1997.

Penso que as representações do estereótipo assembleiano estão atualmente no cinema brasileiro. Onde tem pobre normalmente tem um assembleiano estereotipado. Veja algumas filmes e reflita sobre isso.
ResponderExcluirOlá, foi a primeira vez que lí este Blog e aimpressão foi boa, principalmente este texto. Sobre o "esteriótipo" do assembleiano, prefiro utilizar a categoria perfil. Sobre isto escreví um pequeno texto no Jornal da AD aqui em BNU http://www.ieadblu.com/materias/quem-sao-os-pentecostais-no-brasil
ResponderExcluirum abraço
Minha familia esta na Assembleia de Deus de Santa Catarina desde 1932,ja estamos na quinta geraçâo nesta Igreja, meu estado sofreu muito com traidores,mas nelhum deles terminou bem,seria bom tambem lembrar o Evangelista Marquione que depois de fundar muitas Igrejas morreu abandonado e esquecido,porem evangelizou ate a sua morte grande amigo de J.P.kolenda
ResponderExcluirPr. Moabel