segunda-feira, 18 de julho de 2011

Os 80 anos da Assembleia de Deus em Santa Catarina: contradições historiográficas

O ano de 2011, marca não somente as celebrações do centenário das Assembleias de Deus no Brasil, mas também, os 80 anos de fundação da igreja no Estado de Santa Catarina.

Foi na cidade portuária de Itajaí, que o jovem André Bernardino da Silva, realizou no dia 15 de março de 1931 o primeiro culto da denominação em terras catarinenses. Bernardino, havia se convertido no ano anterior na cidade do Rio de Janeiro, após ser curado de tuberculose através da oração dos pioneiros Gunnar Vingren e Paulo Leivas Macalão. Restabelecido da enfermidade, o jovem André passou a colaborar na AD de São Cristóvão com seus talentos musicais e recebendo instruções dos missionários. Depois de alguns meses, retornou a Itajaí, e nessa cidade iniciou o trabalho pentecostal da Assembleia de Deus.

Simples é contar o início da denominação, mas difícil é conciliar a historiografia disponível sobre os primeiros anos da igreja e o papel dos seus primeiros líderes. André Bernardino foi sem dúvida o pioneiro que fundou a primeira AD no Estado em Itajaí e nas cidades próximas. Porém, ao que tudo indica, Bernardino não consegue manter sua liderança à frente da denominação, e outro obreiro aparece nos registros como sucessor de André: Albert Widmer.

Widmer, ainda com a presença de Bernardino no Estado catarinense, desempenha o papel de líder do trabalho pentecostal. Suíço de origem metodista, Albert Widmer é enviado ao Brasil sendo sustentado pelas igrejas da Inglaterra. Segundo Isael de Araújo no seu Dicionário do Movimento Pentecostal, ele teria percorrido o Brasil, tendo passado pelo estados do Amazonas, Pernambuco, Bahia e São Paulo. Ainda segundo Araújo, aparecem registros de artigos traduzidos pelo missionário para o Mensageiro da Paz no ano de 1935. Em 1936, Widmer teria se transferido de São Paulo para Santa Catarina, mais especificamente para a cidade de Itajaí, local onde a AD através de André Bernardino, recém tinha aberto uma congregação.

É nesse ponto que a bibliografia disponível sobre esse pioneiro se contradiz. Pois se Araújo aponta o ano de 1936 como referência ou marco da chegada e Widmer a Santa Catarina, o escritor Carlos Mafra, com base em uma entrevista com o filho de André Bernadino, afirma que em 1934, após uma conversa de Bernardino com o suíço, este teria se transferido para a AD. Segundo as memórias e a versão do filho de Bernardino, Widmer não pertencia a denominação assembleiana, e sim a um outro trabalho pentecostal muito próximo a igreja da AD. Depois de alguns meses, na versão escrita por Mafra, Widmer assume a igreja de Itajaí e André Bernardino transfere-se para a cidade de Blumenau.

Já outro escritor, Ismael dos Santos, data a chegada do missionário suíço no final dos anos 30 sendo o mesmo procedente do Rio Grande do Sul. Segundo esse autor, Widmer se estabeleceu nesse tempo na cidade de Florianópolis, de onde semanalmente atendia as congregações da AD. Mas contraditoriamente, aponta a presença do mesmo em 1936 como fundador da igreja de Imbituba, e em outra parte do seu livro, relata que ainda no início dos anos 30, Widmer separa em 1932 Antônio Lemos para o diaconato e Ananias Castellain para o presbitério de Blumenau.

Mesmo com as versões discordantes, o fato é que Albert Widmer (segundo os autores consultados) aparece como o líder da denominação ao fim da década de 30 em Santa Catarina. Mafra apresenta em seu livro uma cópia do certificado de Presbítero regional de um dos primeiros obreiros, com a assinatura de Widmer como presidente da igreja no estado, como forma de comprovar que nesse tempo, é o suíço que responde pela liderança da denominação. Há também, uma unanimidade dos autores em reconhecer, que foi Widmer que convidou J. P. Kolenda para assumir seu lugar na liderança da denominação em Santa Catarina. Outra informação unânime, é que Widmer teria se transferido para o Paraguai após a chegada de Kolenda ao estado. O motivo de sua saída teriam sido problemas financeiros ocasionados com a deflagração da Segunda Guerra Mundial, na qual a Inglaterra (de onde provinha seus recursos) estava envolvida.

E André Bernardino? Qual o papel desse pioneiro nesse contexto? Esse é assunto para a próxima postagem.

Obras consultadas:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

MAFRA, Carlos. Capítulos que movem nossas vidas. Blumenau: Nova Letra, 2009.

SANTOS, Ismael. Raízes da nossa fé: A história das Igrejas Evangélicas Assembleias de Deus em Santa Catarina e no Sudoeste do Paraná. Blumenau: Letra Viva, 1996.

Um comentário:

  1. Mário Sérgio,

    Parabéns pela matéria. Seu blog tem contribuído bastante para resgatar a história da AD em Santa Catarina e, por conseguinte, no Brasil.
    Fico aguardando a história do pastor Bernardino, a quem conheci pessoalmente.

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