domingo, 3 de abril de 2011

Minha Assembleia de Deus

O pastor Joanyr de Oliveira, falecido em em dezembro de 2009, foi um dos grandes nomes da literatura assembleiana. Jornalista, poeta, advogado, compositor e escritor, foi ex-diretor da Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD) e ex-membro da liderança da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB). Sua biografia é marcada por relevantes serviços prestados a AD, e por sustentar durante anos, ideias avançadas demais para a geração de obreiros com quem conviveu. Joanyr, antes de tudo era um intelectual, uma mente inconformada, um crítico do sistema eclesiástico, alguém que almejava algo a mais para si e para sua igreja.

Joanyr: para a cúpula assembleiana ele  era um "rapaz perigoso"

Em 1994 o Mensageiro da Paz, publicou um artigo de autoria de Oliveira intitulado "Minha Assembleia de Deus". O texto é um verdadeiro exercício utópico, sentimento esse comum em seres humanos que como Joanyr; homem de olhar crítico e espírito inquieto, buscava sempre transformações e melhorias, e que não gostava de se acomodar ao status quo de um determinado sistema. Sentimento esse comum em cidadãos aos quais  o direito de pensar ainda é um bem precioso, e a crítica é benéfica para se construir um mundo melhor (nesse caso uma igreja melhor).

Nas linhas do texto, percebe-se um pouco de suas memórias, principalmente quando ele fala  em institutos bíblicos e apoio a mocidade. É bom lembrar que em seu tempo, por defender a criação de institutos formais de ensino teológico e da realização de congressos de mocidade, Joanyr foi considerado por alguns líderes assembleianos um "rapaz perigoso". Por defender a formação teológica e cultural, ele sempre foi hostilizado, ou ignorado. Jason Tércio em seu livro Os escolhidos - a saga dos evangélicos em Brasília, informa que nas idas de Paulo Macalão à nova capital federal, freqüentemente o fundador do ministério de Madureira visitava Joanyr. Ao receber tão ilustre e importante visita Oliveira "aproveitava a ocasião para falar sobre a necessidade de investir em educação teológica. Mas ao sugerir essa discussão, Joanyr pregava no deserto"

Nota-se também certa dose de pessimismo em relação a realidade assembleiana, e uma nostalgia de um tempo que ficou para trás. Talvez a maior lição que o escritor tenta nos passar com toda sua experiência na denominação, é a contínua perda da simplicidade do evangelho. O processo de aburguesamento dos seus membros e principalmente do ministério, tendem aos desvios éticos e a própria negação dos ensinos de Cristo.

 Acompanhe alguns trechos do artigo.

Minha Assembleia de Deus não é (nunca foi) aquela que condena os institutos bíblicos, tachando-os de "fábrica de pastores"; entendo que em seminários não se "faz" pastor. Ele é vocacionado por Deus...

Minha Assembleia de Deus não teme a mocidade, não obstrui o caminho dos mais jovens, antes o apoia, os encoraja, os estimula, os aconselha com paciência, ajudando-os no caminho de sua vocação ministerial...

Minha Assembleia de Deus não tolera a adoção de privilégios em favor dos ricos, brancos, cultos e "importantes", contra os simples e humildes, lembrada que Jesus teve especial carinho pelos pequeninos, pelos mais pobres, pelos explorados e deserdados da terra...

Minha Assembleia de Deus estimula os crentes à leitura, além da Bíblia, de bons livros, revistas e jornais... porque não podemos viver desinformados e ignorantes do que acontece ao nosso redor...

Minha Assembleia de Deus, pelo temor que tem do Senhor, não acaricia os pecados dos seus maiores contribuintes, "nem dos seus ilustres", mas ama a todos com igual amor e a todos trata com paciência até os limites do biblicamente admissível...

Para minha Assembleia de Deus, os filhos do pastor e os filhos da mais apagada das famílias da igreja têm os mesmos deveres de santidade e obediência, e as mesmas oportunidades, dependendo tudo do seu comportamento perante a sociedade e da dedicação à obra de Deus.

Fontes:
ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

MESQUITA, Antônio Pereira de. Mensageiro da Paz - Os artigos que marcaram a história e a teologia do Movimento Pentecostal no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

TÉRCIO, Jason. Os Escolhidos - a saga dos evangélicos em Brasília. Brasília: Coronário, 1997.

4 comentários:

  1. É uma verdadeira utopia, pois na prática isso não acontece, o que temos em nossas igrejas é uma coisa muito triste ver filhos de pastores sendo colocado como pastor sem um mínimo de condições. Quem sabe um dia vamos ver nossos líderes olhando na Bíblia, para promover os obreiros...
    Quem sabe...

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    1. É meu caro Jorge Luiz, realmente você tem toda razão, há tantos filhos de pastores sendo promovidos pelo homem sem terem chamada de Deus, enquanto isso há muitos que foram chamados por Deus e o homem não ver isto.
      Oremos pois por estes "Geazis" da vida, que apesar de serem ministros de Deus ainda estão de olhos fechados.

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  2. Karl Barth dizia que precisamos ter numa mão um jornal e na outra uma Bíblia. Formação teológica e cultural para o povo é uma necessidade. O problema não está restrito a Assembléia de Deus, mas as igrejas evangélicas como um todo.

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  3. Emociono-me sempre ao visualizar o nome do imortal lírico assembleiano Joanyr de Oliveira. Pena que fora mui recentemente que dele tomei conhecimento, muito embora nascido em berço assembleiano. Seu nome não brilha no panegírico dos heróis da hoje centenária instituição,não obstante, o muito que fez. Contudo,antevejo auspiciosamente uma feliz redescoberta do poeta de "Minha Assembleia de Deus", talvez como símbolo da urgente necessidade de autocrítica no seio de nossa denominação.

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