domingo, 6 de março de 2011

Tibério Vacariano e Pastor Pimentel: dinossauros em extinção


O escritor, Érico Verissimo (1905-1975), gostava de retratar em seus romances os vícios, as transformações e a decadência da sociedade conservadora gaúcha e brasileira. Seu último romance, Incidente em Antares, é um exemplo disso. Tendo como base um acontecimento fantástico (a volta dos mortos vivos) na pequena cidade fictícia de Antares, o escritor denuncia os mais variados abusos feitos em nome da moral e dos bons costumes, bem como a hipocrisia reinante entre os "donos do poder".

Um dos personagens mais emblemáticos é do grande latifundiário e coronel Tibério Vacariano. Rico, prepotente, e influente na política e na economia da região, Tibério é apresentado no romance como o mais legítimo representante do coronelismo político do Rio Grande do Sul. Era ele quem dava as cartas na política e controlava os destinos do município. Porém, ao envelhecer, seu poder vai gradualmente se tornando obsoleto e sua enorme influência vai aos poucos se diluindo. 

Ao morrer, o coronel Vacariano é homenageado por toda sociedade antarense. Como era de se esperar, não faltou oradores para enaltecer o honroso defunto. Um deles afirmou que "desaparecia um lídimo representante duma estirpe de bravos que, durante mais de um século, havia ajudado a manter as fronteiras não só geográficas como também tradicionais e morais do Rio Grande do Sul".

Porém, como nem tudo é perfeito, um jovem novato na cidade pediu a palavra, e com eloquência "teve o desplante" para os presentes na última homenagem ao estancieiro, de "comparar o defunto a um dinossauro". E para desagrado de muitos, ainda completou dizendo, "os grandes répteis" da vida pública nacional estavam em franco processo de extinção, pois a sociedade brasileira estava agora em uma "era geológica mais avançada". 

Alguns blogueiros e leitores devem estar se perguntando: mas o que esse romance, e especificamente esse personagem, tem com o falecimento do Pastor José Pimentel de Carvalho, ocorrido no dia 24 de fevereiro de 2011? 

Para começar, como o velho Tibério Vacariano, Pastor Pimentel em várias homenagens foi apresentado como um legítimo representante de uma época, um pioneiro que desbravou fronteiras e ajudou a mantê-las por muito tempo. Como um verdadeiro coronel, Pimentel de Carvalho dominou a cena eclesiástica com alguns outros líderes de sua época, e durante muitos anos ajudou a moldar a Assembleia de Deus. 

Sua morte também revela, tal como a de Vacariano, que a geração de Pimentel de Carvalho está em extinção. Talvez a comparação seja de desagrado para alguns, mas Pimentel, tal qual um dinossauro, só será lembrado por seus vestígios, pois ministerialmente e doutrinariamente, a Assembleia de Deus parece entrar (ou já entrou) em uma nova era. 

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